Bibliotecas

Manguinhos: biblioteca no combate à violência

Parque Biblioteca Manguinhos. Copyright: Vânia Laranjeira
Parque Biblioteca Manguinhos. Copyright: Vânia Laranjeira
Uma biblioteca-parque, inspirada em experiência colombiana, está fazendo a diferença no Complexo de Manguinhos, conjunto de favelas da zona norte do Rio de Janeiro, mais conhecido pelos altos índices de violência.

Em funcionamento desde abril do ano passado, o espaço de 2.300 metros quadrados se transformou num ponto de convivência para os moradores, especialmente crianças e jovens de 11 a 20 anos, a faixa etária que compõe maioria dos cerca de 500 visitantes por dia. Se antes eles não tinham opção de entretenimento a não ser as brincadeiras de rua, agora circulam com liberdade pelo espaço, interessados não só nos livros que estão nas estantes ou “esquecidos” estrategicamente em pontos de boa visibilidade, como poltronas e mesas.

Parque Biblioteca Manguinhos. Copyright: Vânia LaranjeiraHá terminais de computador com acesso gratuito à internet, DVDs que podem ser vistos no local ou levados para casa, sala de música, ludoteca para crianças de até dez anos, sala de reunião para uso da comunidade e uma série de workshops que estimulam a produção cultural por parte dos usuários, como por exemplo, a oficina O prazer de ler, fruto de uma parceria com o Goethe-Institut.

Espaço de troca

“Entendemos a biblioteca parque como um espaço não só de absorção de conhecimento, mas também onde esse conhecimento é constantemente produzido e reelaborado”, afirma Alexandre Pimentel, diretor da instituição.

Para estimular as trocas e fazer do espaço uma espécie de segunda casa dos usuários, as regras não são tão rígidas como nas bibliotecas convencionais. Os livros estão ao alcance de todos e expostos de forma a facilitar o acesso. Qualquer um pode pegar.

Todas as quartas, há uma performance diferente com objetivo de atrair atenção à leitura e ampliar as referências do público sobre os autores do acervo de 27 mil títulos. Se o Zum, Zum, Zum, nome do projeto de performance, fala sobre William Shakespeare, a direção do espaço trata, ao mesmo tempo, de deixar alguns títulos do autor soltos em espaços para que eles sejam “casualmente” visualizados pelos usuários.

Diferentes plataformas

Parque Biblioteca Manguinhos. Copyright: Vânia LaranjeiraO eixo central do projeto é fazer com que biblioteca não seja somente um espaço silencioso, mas se assemelhe a centros culturais e multifuncionais. No salão principal, por exemplo, os computadores ficam em mesas espalhadas entre livros e estantes. Vários terminais ocupam a mesma mesa, o que permite interação entre diferentes usuários. Ali é possível conversar e até namorar, brincam os funcionários.

As experiências de produção de conhecimento da biblioteca-parque estão reunidas dentro do chamado Programa de Laboratórios da Palavra (PalavraLab), voltado para o desenvolvimento de linguagens em diferentes plataformas. Uma oficina de edição multimídia resultou, por exemplo, na edição da revista Setor X, lançada em julho último e produzida pelos participantes. Há laboratórios de produção editorial multimídia, dramaturgia e textos teatrais, narrativas digitais e escrita criativa.

Redução da violência

A instalação da Bibloteca Parque de Manguinhos foi inspirada em experiências bem-sucedidas nas cidades colombinas de Medelín e Bogotá. Lá, os índices de violência foram reduzidos. É o que se espera também no Rio de Janeiro. Além de Manguinhos, outras áreas consideradas de alta complexidade social, como a Rocinha e o Complexo do Alemão, receberão projetos com estruturas semelhantes. O modelo de bibliotecas com esse conceito de interação será levado também para outras regiões do Estado.

“Um lugar que nunca teve água, quando passa a receber, tem um impacto imediato muito forte. Com a biblioteca é parecido. Crianças que antes estavam nas ruas passaram a ter espaço, podendo exercer várias atividades”, diz Vera Saboya, titular da Superintendência do Conhecimento e da Leitura da Secretaria de Estado de Cultura.

Transparência em vários sentidos

Parque Biblioteca Manguinhos. Copyright: Vânia LaranjeiraWillian Rosene, de 19 anos, frequenta a biblioteca pelo menos três vezes por semana. Ele costuma passar as tardes ali, concentrado em diferentes leituras para o vestibular. O jovem concluiu o ensino médio e sonha entrar numa faculdade de medicina. “Antigamente, a gente precisava de livro e não tinha. Agora, melhorou muito”, diz Rosene.

A Bibloteca Parque de Manguinhos funciona num antigo galpão que servia como depósito de suprimentos do Exército. O prédio foi reformado e adaptado, com vidros substituindo parte da parede que dá acesso à rua. A solução arquitetônica melhorou a luminosidade do espaço e também aproximou a biblioteca da comunidade, já que quem está de fora pode ver o que as pessoas estão fazendo do lado de dentro.
Fábia Prates
é jornalista. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Copyright: Goethe-Institut e. V., Online-Redaktion
Setembro de 2011

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