Por trás das imagens: a arte no cinema

Há no momento uma tendência a documentários sobre temáticas ligadas à arte ou sobre artistas especificamente. Um exemplo recente é “Gerhard Richter Painting”, que tem como personagem principal um dos mais importantes pintores alemães contemporâneos. O que a arte faz no cinema?
“Falar sobre pintura não é somente muito difícil, como talvez até mesmo sem sentido”, afirma Gerhard Richter em uma gravação de arquivo do ano de 1966. “Porque só é possível transpor para as palavras o que é possível ser dito em palavras, dito através da linguagem. E a pintura não tem nada a ver com isso”, completa o artista. Mais de 40 anos depois, Gerhard Richter continua calado, quando o assunto é sua arte. A documentarista Corinna Belz acompanhou o pintor durante vários meses, quando ele trabalhava em uma série de pinturas abstratas. Gerhard Richter Painting é seu segundo filme sobre Richter. Em 2007, ela filmou o trabalho do artista no vitral da catedral de Colônia. Belz não vê o silêncio de Richter como um obstáculo. Ela o observa simplesmente em seu ateliê. “Não é preciso conversar”, diz a diretora. “Em todos os filmes e até mesmo na própria literatura da qual gosto, o não dito é tão importante quanto o dito. Entre os dois acontece algo. Com frequência, você acaba conhecendo uma pessoa exatamente através desses momentos nos quais ela se cala”, fala a cineasta.
História completa
Talvez o segredo do documentário sobre arte esteja exatamente aí: enquanto as exposições mostram, na maioria das vezes, as obras prontas do artista, contando, desta forma, na verdade, apenas o fim da história, o documentário trata com frequência da maneira como o artista trabalha. Como no caso de Richter, ele trata do complexo processo de criação de uma obra de arte, do diálogo entre o artista e a arte e do diálogo do artista consigo mesmo. De maneira ideal, o documentário e a exposição se complementam, facilitando, assim, aos interessados na arte, o acesso ao artista e à sua obra. “Acharia bom se, por causa do filme, alguém passasse a ter vontade de ir a uma exposição ou de comprar um catálogo e ler o mesmo”, fala Corinna Belz. “Um filme não consegue, sozinho, transpor uma obra. É preciso ver< i>in loco os quadros ou, por exemplo, o vitral da catedral. Vê-los onde estão e não somente no cinema”, completa.
O Novo Cinema Alemão
O recém-falecido diretor Peter Schamoni (1934–2011) dedicou-se como nenhum outro ao filme sobre a arte, tendo realizado perfis de Max Ernst, Friedensreich Hundertwasser, Niki de Saint Phalle e, por fim, do pintor e escultor colombiano Fernando Botero. Schamoni foi também um os fundadores do Novo Cinema Alemão dos anos 1960, ao lado de autores e diretores como Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog, Alexander Kluge e Volker Schlöndorff. No Manifesto de Oberhausen, de 1962, esses cineastas defendiam a crítica social como alinhamento básico do cinema. Não por acaso, o que os artistas retratados por Schamoni têm em comum é seu envolvimento político. Em forma de perfil de um artista, o documentário se transforma em uma variação muito sutil de crítica social. Schamoni afirma, por exemplo, que Max Ernst é a pessoa mais livre que ele já conheceu em toda sua vida. Qual enunciado cinematográfico poderia ser mais político do que mostrar um homem que seja, de fato, livre? O Novo Cinema Alemão marca o início do documentário crítico, criando uma base para atingir o público até hoje.
O filme se submete ao formato
Nos cinemas, há cada vez mais documentários. Eventos como o Festival Internacional de Documentários de Munique ou o Festival Internacional de Documentário e Animação de Leipzig atraem um público cada vez maior. Documentários bem-sucedidos do ponto de vista comercial despertam não apenas no público o interesse pelo gênero. Para os próprios cineastas, realizar um documentário se torna cada vez mais atraente. Paradoxalmente, o número de documentários na televisão tem diminuído. Os cineastas criticam que a TV não abre mais espaço para os documentários que não se adequam ao formato das emissoras, seja do ponto de vista de conteúdo ou da forma. Ou eles são exibidos muito tarde da noite, quando a maioria dos espectadores já está dormindo. Teoricamente, o documentário poderia esquivar-se para as salas de cinema. No entanto, na prática, quase nenhum documentário é feito sem a participação de recursos de uma emissora de TV. É exatamente aí que entra em jogo o ceticismo básico quanto à audiência do documentário clássico. Uma postura estranha entre as emissoras de direito público do país, levando em conta que a incumbência oficial delas é a formação do espectador. A cineasta Corinna Belz espera, de qualquer forma, uma autoconfiança maior dos redatores de TV frente à hierarquia dentro das emissoras onde trabalham. “Caso não existisse a frase ‘isso ninguém vai ver’, poderíamos fazer filmes maravilhosos”, diz Belz. A arte talvez não seja capaz de tudo, mas, como diz a diretora, “a arte tem o mundo todo, sua história e ainda a elaboração da mesma como fontes de inspiração”.
é jornalista. Vive e trabalha em Munique.
Tradução: Soraia Vilela
Copyright: Goethe-Institut e. V., Internet-Redaktion
Setembro de 2011
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