Literatura

Quadrinho autoral brasileiro: a caminho de outros mercados

Copyright: André Diniz As peculiaridades dos quadrinhos brasileiros são abordadas pelo alemão Jens Harder durante a Feira do Livro de Leipzig. Morro da Favela, do quadrinista carioca André Diniz, é um bom exemplo da vitalidade da cena brasileira de HQs.

O quadrinista alemão Jens Harder conhece bem a produção brasileira de quadrinhos. Ele já realizou três viagens para o Brasil, a mais recente em julho de 2011, quando participou do debate Publicando na Europa, durante a Gibicon - Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba. Harder irá expor suas impressões sobre a cena brasileira durante a Feira do Livro de Leipzig, que acontece entre os dias 15 e 18 de março. Ele ressalta uma característica de fato interessante: o alto teor de "autoria" presente em parte do que está sendo produzido no Brasil por quadrinistas sintonizados com o formato graphic novel, tão exercitado no prestigiado mercado franco-belga.

Copyright: Jens HarderSegundo Harder, “há no Brasil uma cena muito fértil de quadrinistas e publicações independentes, como fanzines, antologias e quadrinhos na web, como também excelentes autores de graphic novels, que estão muito próximos, do ponto de vista do estilo e do desenho, dos trabalhos europeus”.

Certamente o trabalho do quadrinista carioca André Diniz inclui-se nesta categoria. Autor de Morro da Favela (Barba Negra/Leya, 2011), biografia em quadrinhos do fotógrafo Maurício Hora – nascido e criado no Morro da Providência, a primeira favela do Brasil – , Diniz acaba de assinar contratos com editoras europeias para o lançamento das traduções de sua obra para o inglês e o francês ainda em 2012.

De mercado "alternativo" à visibilidade na mídia e presença nas escolas

Para que se tenha a exata dimensão do feito, há que se destacar o panorama dos quadrinhos no Brasil nos últimos 30 anos. Durante décadas fazer quadrinhos no Brasil foi sinônimo de opção por uma vida “alternativa”, com publicações bancadas às próprias custas, vendidas em círculos restritos e sem expectativa de atingir um público mais amplo. André Diniz, 36 anos, viveu intensamente essa experiência desde muito cedo, entrando ainda criança na labuta dos fanzines. Em 2000, criou sua própria editora, a Nona Arte, já num momento em que os quadrinhos começavam a se expandir, ganhando mais visibilidade com a internet. Com sua editora, conquistou 14 prêmios, mas ainda assim sem muita repercussão entre um público não especializado.

Em menos de uma década, o cenário mudou radicalmente, com o reconhecimento da HQ como linguagem pela escola, a inclusão de compras de quadrinhos em programas de governo e a acolhida da produção pelo mercado editorial brasileiro. O novo contexto encontrou Diniz pronto para dedicar-se 100% à criação e lançar-se em voos mais altos. No entanto, ele não esperava ver, já em 2012, o anúncio de seu álbum no catálogo da editora inglesa Self Made Hero. Picture a Favela, seu título em inglês, será lançado na Inglaterra em junho e depois ganhará os Estados Unidos e a França, onde será publicado pela editora Des ronds dans l'O editions também em 2012, em data a ser definida.

Autoria: valorização do olhar subjetivo

Diniz destaca a valorização da “autoria” pelas editoras neste momento, o que se expressa pela escolha de Morro da Favela: um roteiro originalmente feito para os quadrinhos. Para ele, a hora e a vez do quadrinho autoral chegou – ao menos no Brasil. “Acontece algo fascinante aqui: o nosso quadrinho 'comercial' é justamente o quadrinho autoral. Quando falamos de quadrinho brasileiro, as editoras, os leitores, a mídia e as livrarias querem ver autores, não obras que sigam os modelos 'industriais' das HQs norte-americanas e japonesas. Nos EUA e na Europa, já há uma tradição de quadrinhos autorais, paralela aos quadrinhos mais comerciais. Se soubermos chegar a essas editoras trazendo um toque diferente em nossas obras, um toque só nosso, teremos um espaço garantido”, prevê Diniz.

O especialista em HQ Paulo Ramos, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e blogueiro do Blog dos Quadrinhos observa que não é incomum a presença de quadrinistas brasileiros em editoras norte-americanas e europeias, mas em geral como desenhistas. “No caso específico de roteiristas, esse número cai sensivelmente. Há os exemplos bem-sucedidos de Gabriel Bá e Fábio Moon nos Estados Unidos, e de Leo, Sergio Macedo e Wander Antunes no mercado francês”, lembra. Ramos ressalta que, no caso de Morro da Favela, o diferencial foi o fato de a Europa se interessar não só por uma obra brasileira em quadrinhos, mas também por um roteiro produzido no país, o que reforça o olhar de André Diniz sobre a força da HQ autoral brasileira. “O natural é o escritor e o desenhista conseguirem trabalhos com histórias produzidas especificamente para o mercado externo”, completa. Ramos lança em breve um livro chamado A revolução do gibi - A nova cara dos quadrinhos no Brasil, que tratará das mudanças recentes no contexto dos quadrinhos brasileiros.

Apostando no conceito de “autoria”, Diniz já publicou álbuns por diversas editoras, o que o libertou das obrigações que havia abraçado à frente da Nona Arte. Assim surgiram Chico Rei (Franco Editora), 7 Vidas (Conrad), O quilombo Orum Aiê (Record, este adquirido pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola, o que equivale a dizer que ele chegou às escolas públicas de todo o Brasil), A Cachoeira de Paulo Afonso (Pallas) e Fawcett (com Flávio Colin, pela Devir), entre outros. O autor ressalta que, desde seus primeiros fanzines da adolescência, sempre soube que o principal em se tratando de HQ é “contar uma boa história”. Por isso nasceu o roteirista antes do desenhista, sendo que o desenho foi elaborado com o artista já mais maduro, por volta dos 30 anos.

Favela: de Canudos ao Rio de Janeiro

Com seu texto econômico e certeiro e suas imagens inspiradas na xilogravura e na arte africana, Diniz conta a história de um menino do Morro da Providência, que se tornaria célebre por sua batalha e suas escolhas: o fotógrafo Maurício Hora, filho de um dos primeiros traficantes do Rio de Janeiro. A autoria expressa-se na escolha pelo olhar subjetivo, construído a partir de várias horas de entrevistas feitas com seu protagonista. Mesmo tendo frequentado a favela e criado o roteiro antes da presença das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), portanto, convivendo com a presença do narcotráfico, nas 128 páginas de Morro da Favela a violência é expressa de forma sutil, a partir de lembranças relatadas pelo biografado, como o fato de não conseguir arrumar seu armário, porque em toda a sua infância os armários da casa eram revirados frequentemente pelos policiais, que a invadiam em busca de seu pai.

O roteiro de Diniz também guarda outras camadas de significado, reveladas por um pequeno texto introdutório que recupera o significado da palavra “favela” e a origem do Morro da Providência: a primeira “favela” brasileira surgiu quando o morro foi ocupado pelos soldados que chegaram da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia. Era o ano de 1897 e o governo havia prometido a eles moradia. Como não cumpriu, os soldados ocuparam o Morro da Providência e o apelidaram de “favela”, nome de uma planta nativa do sertão baiano. Surgiu assim a primeira favela brasileira, espaço que tem sido bastante enfocado pelo cinema e que, com o roteiro de Diniz, ganhou as páginas dos quadrinhos. Considerando-se a relação que a polícia passou a ter com os moradores das favelas, sua gênese é no mínimo intrigante.

Morro da Favela teve grande repercussão na imprensa e na blogosfera brasileiras, pois reconta a bela história de um jovem que resolve lutar pela comunidade onde vive usando a fotografia. “Um testemunho maduro do que é viver entre a opressão da polícia e a ditadura do narcotráfico. Sem falar na riqueza dos personagens e na trajetória pessoal de Maurício Hora. Os porquês de se contar sua história em quadrinhos são incontáveis”, relatou Diniz em entrevista publicada pelo site do festival de quadrinhos Rio Comicon.

Luciana Tonelli
é jornalista, trabalha com projetos editoriais em São Paulo e é autora de "Flagrantes do Tempo - Poema-reportagem na Pauliceia".

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Março de 2012

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