Os desafios do ensino de línguas estrangeiras no Brasil

De acordo com diversos especialistas, esse desafio citado por Rosa ainda é algo que o Brasil, contudo, precisa vencer. A complexidade do tema envolve uma legislação capaz de favorecer o ensino de idiomas num país que, nos próximos anos, irá se deparar com a chegada de milhares de estrangeiros para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Além disso, há ainda polêmicas em relação às supostas vantagens de se ter um professor cuja línga materna seja aquela que ele ensina.
A lei e a realidade
A Associação de Linguística Aplicada do Brasil (Alab) realizou um encontro nacional, em 1996, que resultou num documento conhecido como Carta de Florianópolis, cidade onde foi realizado o evento. Uma afirmação do documento era enfática: “Todo brasileiro tem direito à plena cidadania. No mundo globalizado e poliglota de hoje, isso inclui a aprendizagem de línguas estrangeiras.”
A pressão funcionou e, poucos meses depois, o ministério da Educação tornou obrigatório o aprendizado de pelo menos uma língua estrangeira moderna a partir da quinta série do ensino público. “Temos uma lei maravilhosa. Antes disso, o ensino de línguas estrangeiras nas escolas públicas era exceção. Entretanto, oferecer as aulas é só o primeiro passo. Resta agora melhorar a qualidade desse ensino”, explica Vilson Leffa, doutor em Linguística Aplicada pela Universidade do Texas e atual professor da Universidade Católica de Pelotas.Especialistas apontam também que umas das consequências positivas da lei é uma mudança relacionada ao material usado nas aulas de línguas estrangeiras. Por incrível que possa parecer, até 2010, mesmo com a existência das aulas de inglês no ensino público, o ministério da Educação não fornecia nenhum material didático aos professores de língua estrangeira. Agora, todas as aulas desse tipo no ensino público devem ser dadas a partir de livros indicados pelo MEC.
O objetivo é evitar que os professores façam cópias ilegais de livros e inventem brincadeiras sem grandes resultados para suprir a falta de material escolar. Além disso, a tendência é que, em poucos anos, o mercado editorial passe a publicar mais livros de ensino de língua estrangeira. “Dessa maneira, o professores terão pelo menos condições mínimas para dar aulas”, aponta Leffa.
Como ensinar bem
É bem verdade que uma legislação bem feita pode contribuir para a difusão do ensino de línguas num país. Entretanto, leis por si só não são suficientes. Para que o ensino obrigatório seja também de qualidade, os professores precisam estar preparados para repassar seus conhecimentos aos alunos. Carolina Ferreira possui uma vasta experiência no ensino de inglês para não nativos e de português para estrangeiros. Com graduação em Letras na Universidade Estadual de Campinas e mestrado na The New School, em Nova York, a professora já deu aulas não só no Brasil, mas também na cidade norte-americana de Santa Barbara e em países como Honduras.
Quando o assunto é o ensino de línguas, Ferreira afirma: “É necessário relacionar o que se ensina com algo que os alunos possam utilizar na vida. Essa identificação provoca a necessidade de se comunicar algo. Ninguém precisa falar do que não gosta, não quer ou não entende.” Sua defesa vai contra o estudo da gramática pura de um idioma sem relação com o cotidiano da pessoa e tampouco com o ensino de expressões estrangeiras prontas e, muitas vezes, fora da realidade do aluno.Além disso, Ferreira defende um espaço de aula agradável ao ensino. “Não assustar o aluno é algo extremamente importante. É fundamental que ele esteja completamente à vontade para cometer quantos erros forem necessários. O professor tem que criar esse ambiente favorável e mostrar que os tropeços fazem parte do processo, são normais e esperados.”
Professor de alemão há 35 anos, Paul Hoffman costuma fazer apenas dois pedidos ao novo aluno que pretende aprender o idioma. “Primeiro, esqueça da dificuldade da língua. Depois, erre. Erre muito”, diz ele, para, em seguida, relatar uma história: “Tive um aluno que, nos primeiro seis meses de aula, era uma verdadeira negação em alemão. Mas ele não se importava com seus equívocos. Sempre quando falava algo errado, lembro dele sorrindo como se aquilo fizesse mesmo parte do aprendizado. Hoje, quando ele fala alemão, a fluência é tão perfeita que é como se você estivesse falando com um nativo.”
Língua materna do professor
Outra questão relacionada ao ensino de línguas estrangeiras é bastante polêmica e sem um consenso entre os especialistas. É melhor ter aulas com um professor nativo no idioma ou não? Há quem diga que não há uma resposta simples para essa questão. “Em geral, os alunos preferem ter aulas com professores nativos basicamente por causa da pronúncia. Por outro lado, muitos nativos consideram os professores não nativos melhores pela vantagem de terem passado pelo esforço de aprenderem o idioma”, explica Carolina Ferreira.Tendo estudado Língua e Civilização Francesa na Universidade de Sorbonne, o professor de francês Roberto Borges acredita que a questão não é a origem do professor. “Pouco importa se ele é nativo ou não. Não adianta nada ele ter nascido fora do Brasil e sua área de atividade não ser o ensino da língua ou pelo menos a área de comunicação”, explica.
Em resumo, o que realmente parece importar é o professor seguir uma metodologia e ter capacidade de ensinar. Num país como o Brasil, no qual a lei está a favor do ensino de línguas estrangeiras, o que ainda falta é a capacitação de professores para que a teoria finalmente se transforme em prática diária.
Bruno Moreschi
é jornalista e artista plástico. Vive e trabalha em São Paulo.
é jornalista e artista plástico. Vive e trabalha em São Paulo.
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Julho de 2011
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