Música

Uma grande jogada cultural: a “cresc. Bienal de Música Moderna”

Foto Manu TheobaldJohannes Kalitzke como regente do concerto de abertura da 'cresc. Biennale', Foto: cresc. / Tibor PlutoA primeira edição da “cresc. Bienal de Música Moderna” realizou-se em Frankfurt. Tendo como tema principal o compositor Iannis Xenakis, o festival mostrou como a Música Nova pode ser apresentada, em suas múltiplas facetas, como elemento importante da cultura contemporânea.

Nos discursos de autocompreensão da música, o espaço é um fator onipresente em seu papel de topos filosófico, de pré-requisito prático da execução e de estrutura de projeções e convenções. A reflexão sobre o espaço na música e sobre a música no espaço remete ao compositor Iannis Xenakis, que, como arquiteto, chegou a trabalhar com Le Corbusier. O pensamento espacial na música em mais de três dimensões, sugerido por Xenakis, foi tema da primeira Bienal de Música Moderna de Frankfurt, intitulada “cresc.”, que aconteceu em novembro de 2011.

Cultura multifacetada no eixo Reno-Meno

A “cresc.” foi marcada por vários fatores dignos de nota. Mesmo porque o surgimento de um novo festival de música contemporânea não é um fato cotidiano, em tempos de verbas cada vez mais escassas para a cultura. Além disso, o novo festival surgiu a partir de uma cooperação entre instituições musicais de prestígio no eixo Reno-Meno, que resolveram abandonar o costume de trabalhar isoladamente.

A Orquestra Sinfônica da emissora Hessischer Rundfunk, o Ensemble Modern e o IEMA-Ensemble no concerto de abertura, Foto: cresc. / Tibor PlutoA música contemporânea é bastante divulgada na região. Há vários anos, a emissora local Hessischer Rundfunk promove séries de concertos com sua Orquestra Sinfônica e, nos últimos anos, conseguiu, com grande esforço, organizar três eventos bienais, as chamadas “Klangbiennalen”. O Ensemble Modern, conectado regional e internacionalmente, é muito atuante em Frankfurt, onde organiza diversas atividades e conta com um público cativo. Nos últimos anos, a Escola Superior de Música e Arte Dramática de Frankfurt tem ganhado mais destaque na vida cultural da região, o que também se deve à fundação de seu novo Instituto de Música Contemporânea.

O prestigiado Instituto Internacional de Música de Darmstadt trabalha, por sua vez, na expansão de seus eventos para além dos tradicionais cursos de férias, embora não tenha ficado muito satisfeito com o impacto público do festival “Rotor”, que organizou, em 2009, em cooperação com o Ensemble Modern. Para completar, o Fundo Cultural Frankfurt RenoMeno, fundado na região para descentralizar e ampliar os horizontes regionais da cultura, está à espera de projetos adequados a um financiamento.

O Jack Quartet de Nova York, Foto: Justin BernhautAssim, a Bienal, realizada a partir de uma parceria entre todas estas instituições, possibilitou somar potenciais, expectativas e parcelas do público, multiplicando as possibilidades estéticas e preenchendo lacunas. O resultado foi uma ampla variedade de materiais ordenados tematicamente e apresentados em diferentes espaços, todos girando em torno de Iannis Xenakis como tema. Das apresentações musicais participaram o Ensemble Intercontemporain de Paris, o famoso Jack Quartet de Nova York, a Orquestra Sinfônica e a Big Band do Hessicher Rundfunk, o Ensemble Modern, bem como os músicos e compositores da International Ensemble Modern Akademie (IEMA).

Conceito sustentável

O trombonista Christian Lindberg, solista e diretor do concerto com a Big Band da emissora Hessischer Rundfunk, Foto: Mats BackerO conceito do festival “cresc.” foi desenvolvido de maneira abrangente e não se concentrou apenas em aspectos musicais. Uma exposição organizada pela Câmara de Arquitetos da Baviera no hall de entrada do auditório da emissora Hessischer Rundfunk mostrou, por exemplo, junto a um resumo biográfico de Xenakis, materiais sobre o Pavilhão da Philips, que ele e Le Corbusier projetaram para a Expo de Bruxelas, em 1958. Trata-se de uma intrincada construção espacial, baseada numa planta baixa que remete a um estômago humano, através de curvas hiperbólicas que também serviram de base à composição Metastasis, de Xenakis. O pavilhão foi equipado com um aparelho de som sofisticado, para o qual Edgard Varèse compôs seu “Poème électronique”.

O duplo talento artístico de Xenakis esteve, no entanto, apenas à margem do festival. Um simpósio intitulado “Xenakissplitter”, concebido pelo Instituto de Música Contemporânea da Escola Superior de Música de Frankfurt, promoveu uma avaliação discursiva do compositor filósofo, matemático e inventor, destrinchando os aspectos formais, mecânicos e plásticos da ideia de composição de Xenakis, assim como seu conceito espacial relevante para a música. O simpósio propôs ainda interpretações filosóficas e, por vezes, deixou entrever orientações de cunho mítico nas técnicas de composição algorítmica de Xenakis.

Do Ensemble Modern ao Jack Quartet

Ensemble Zeitkratzer, Foto: Karol GrygorukA parte performática do festival reuniu uma equipe excelente, sob uma curadoria cuidadosa, tematizando Xenakis dentro do contexto de sua época, junto a contemporâneos como Edgard Varèse, Olivier Messiaen, Karlheinz Stockhausen e Elliott Carter. Um concerto, que reuniu a competência tonal da Orquestra Sinfônica do Hessischer Rundfunk e do Ensemble Modern, apresentou a obra Terretektorh (1965) de Xenakis, para 88 músicos espalhados pela plateia – uma espécie de bem pensado processo natural com massas sonoras, ao lado da complexa composição Gruppen (1955–57), de Stockhausen, para três orquestras (com os três regentes Matthias Pintscher, Lucas Vis e Paul Fitzsimon). O local do evento foi o Böllenfalltorhalle, em Darmstadt, que envolveu a música e o público com seu charme pouco convencional de grande ginásio de esportes.

No Club 603qm, na centro da cidade, Reinhald Friedls apresentou Xenakis (a)live, um projeto sinestésico de música e filme, com o Ensemble “zeitkratzer” e o videoartista Lillevan ao vivo. Em um concerto marcado pela vitalidade e virtuosidade, o Jack Quartet apresentou quartetos de cordas de Xenakis (Tetora, 1990, e Tetras, 1983) junto a quartetos de Ligeti e Scelsis, esboçando, assim, à parte, um campo de tensão conceitual e multipolar da música da segunda metade do século XX.

Ensemble Modern, Foto: Manu TheobaldO concerto de encerramento, no auditório do Hessischer Rundfunk, remeteu ao tempo presente. Nele, o Ensemble Modern apresentou pela primeira vez seis obras surgidas num seminário de composição da Internationale Ensemble Moderne Academie, sob a direção musical de Pablo Rus Broseta e Johannes Kalitzke e a engenharia de som de Norbert Ommers, de importância essencial para o concerto. Seis estreias mundiais compõem um panorama musical de origem internacional, bem como de imagens do mundo e conceitos de arte, som e espaço nele contidos – como se a energia de um big bang tivesse se concentrado nas obras e ideias de Xenakis, funcionando até hoje como força motriz. Daqui a dois anos, não será fácil promover novamente nesta região um festival tão intenso e tão cheio de perspectivas. Mas a arte vive justamente de desafios.

Hans-Jürgen Linke
é jornalista freelancer e escreve regularmente para os jornais Frankfurter Rundschau, Frankfurter Allgemeine Zeitung e neue musik zeitung sobre música moderna e jazz.

Tradução: Renata Ribeiro da Silva

Copyright: Goethe-Institut e. V., Internet-Redaktion
Dezembro de 2011

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