Incentivo à leitura no Brasil: rapsódia em processo

Nas últimas décadas, toma-se o incentivo à leitura no Brasil como ideia consensual, em torno da qual agregam-se cada vez mais indivíduos, instituições públicas e privadas. Considerada motor de desenvolvimento econômico e de redução de desigualdades sociais, a leitura constroi consciência crítica e autonomia, atua sobre a subjetividade e provoca deslocamentos no campo social. O recente “Manifesto por um Brasil literário”, redigido e posto na web pelo escritor Bartolomeu Campos de Queirós, segue por essa via, e investe na ficção como força de configuração de alternativas, possibilidade de idealizar um cotidiano de liberdade e realização. A literatura deixa basicamente duas perguntas – por que e por que não? – e leitores são indivíduos que gostam de responder perguntas. A movimentação para respondê-las gera deslocamentos e novos sentidos são produzidos para a vida individual e coletiva. O desejo de um Brasil literário, calcado nas transformações que a leitura propicia, visualiza novas escritas. Pode-se falar que está em curso a composição de uma rapsódia para o incentivo à leitura, isto é, que se agregam, como na música, melodias conhecidas e temas populares em torno de um mesmo eixo?
Bens de leitura
Que variações de
tema, intensidade e tonalidade podem ser identificadas no panorama do acesso à
leitura em nosso país? Duas instituições fundadas durante o período ditatorial
modificaram de forma significativa essa questão. A Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil (FNLIJ) possibilitou o investimento na melhoria de qualidade
dos livros para crianças e jovens, tendo sido alcançada uma seriedade editorial
que nos coloca hoje como um dos países mais competentes nessa área, com dois
prêmios Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People
(IBBY), atribuídos às escritoras Lygia Bojunga e Ana Maria Machado. A
Associação de Leitura do Brasil (ALB) é responsável pela exposição e discussão
da leitura junto ao magistério brasileiro, realizando, dentre outras
atividades, o Congresso de Leitura do Brasil (COLE) que reúne em Campinas, a
cada dois anos, cerca de três a quatro mil professores.
Leitura como bem simbólico
O conceito de leitura como valor inscrito nas práticas culturais das comunidades afirma-se nessas ações, que mobilizam a sociedade brasileira em direção à consciência da leitura como bem simbólico, direito inalienável do ser humano. O surgimento, em 1992, do PROLER – Programa Nacional de Incentivo à Leitura da Fundação Biblioteca Nacional – configura-se como resposta do Estado a essa demanda. O PROLER sustenta-se com ações de dezenas de comitês em todo o Brasil. Por meio de convênio firmado com a Biblioteca Nacional, que orienta e discute o trabalho, promovem-se trocas teóricas e pragmáticas em encontros regionais e nacionais, e nesses últimos, anuais, costuma se proceder à avaliação do Programa. De assunto silenciado ou envergonhado na pauta pública há algumas décadas, a leitura é hoje tema de conversas amplas e interessadas, em diversos recantos do país. É saudável ler, e o acesso à leitura é considerado um direito de cidadania.
Leitura e saúde
Nem sempre foi
assim, sabemos. O analfabetismo ainda subsiste no país, o acesso a textos
impressos não se dá por igual em todas as regiões. E na história ocidental a
leitura esteve, com freqüência e por longo tempo, aliada à enfermidade, o que
era expresso por uma série de preconceitos. É no século XX, com a escolarização
universal ganhando relevo em muitos países, que a leitura conquista seu status de atividade vital no processo de produção do conhecimento, gerador
de avanços científicos e tecnológicos responsáveis pela riqueza das nações.
Nações autônomas e ricas dispensam significativa atenção à saúde. A carta de Ottawa, firmada por ocasião da Primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde (1986), estabelece que saúde é um bem-estar físico, mental e social, uma condição para a vida plena. Consoante esse conceito, surge em 1995, em iniciativa conjunta do Ministério da Saúde, Fundação Abrinq e Citibank, o projeto Biblioteca Viva em Hospitais, cujo objetivo é levar leitura literária a crianças em cuidados de saúde, internas ou em atendimento ambulatorial. Avaliações do projeto, feitas pelo próprio Ministério e pelos hospitais, eventos realizados a partir da relação que se estabelece entre leitura e saúde, como o I Seminário Nacional Saúde e Leitura, promovido em 2004 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), confirmam que a leitura traz alívio em situações de estresse de enfermidade, permitindo maior colaboração da criança por ocasião de procedimentos, contribuindo para seu restabelecimento e reduzindo tempo de internação.
Mais do que oferecer refúgio e consolo, a leitura expressa a condição do humano, com suas dúvidas e lapsos, e, ao ouvir as vozes presentes nos textos literários e sendo chamadas a ressignificá-las, as crianças têm nos personagens companheiros de jornada, e podem encontrar nos conflitos vividos por eles situações semelhantes às suas, o que possibilita tomar decisões para si, redirecionar valores e práticas. Evidenciado por vários profissionais da saúde, o valor terapêutico da leitura é confirmado por mediadores de leitura, comprovado por visitas a enfermarias e ambulatórios nos momentos em que se realizam leituras de histórias, e referendado por pesquisas acadêmicas.
A rapsódia
Se o hospital é um
espaço pródigo para incluir o valor de leitura na agenda dos indivíduos e das
famílias, para um país com o nível de desigualdades que o Brasil apresenta, a
escola deve ser o lócus privilegiado para valorização da leitura e sua inclusão
como bem simbólico nos desígnios da nação. E, dentro da escola, a professora e
o professor são atores determinantes na decisão de uma criança em tornar-se
leitora e levar a prática à sua família.
A formação de
leitores é assim o processo contínuo, gradual e consequente de incentivo à
leitura, que comporta ainda a promoção de
leitura, ação pontual, voltada a campanhas, e o fomento à leitura, presente no
apoio a atividades e eventos. Em nossa realidade, são bem-vindos todos esses
motivos para a composição da rapsódia, que, apesar de muitas notas desafinadas
ou totalmente fora da pauta, mostra a leitura como desejo e reivindicação da
sociedade civil brasileira.
é escritora, pesquisadora de leitura e escrita e professora da Universidade Federal Fluminense.
Copyright: Goethe-Institut e. V., Online-Redaktion
Janeiro de 2011
Você tem alguma dúvida sobre esse assunto? Escreva para nós!
feedback@saopaulo.goethe.org








