Ônibus-Biblioteca: acesso aos livros na periferia paulistana

Se formar leitores é um desafio no mundo altamente imagético em que vivemos, isso fica ainda mais difícil quando o preço do livro é alto e frequentar a escola ou deslocar-se até a biblioteca mais próxima exige sacrifício. Essa é a situação dos moradores de periferias na cidade de São Paulo, onde vive mais da metade dos quase 11 milhões de habitantes da capital – ou mais de um terço dos 19 milhões de habitantes da região metropolitana, formada por 38 municípios.
Os moradores dos bairros de periferia compõem as classes C, D e E (com renda familiar variando de um a três salários mínimos). Para esses moradores, que enfrentam grandes e penosos deslocamentos para ir e voltar do trabalho, a equação espaço-tempo torna-se algo difícil de ser resolvido, desestimulando a frequência aos equipamentos culturais urbanos – a maior parte situada na região central.
Nesse contexto, o projeto Ônibus-Biblioteca, vencedor do Prêmio Viva Leitura na categoria “Bibliotecas” em 2008, ano em que foi revitalizado, tem grande impacto: são cinco veículos a percorrer semanalmente 28 dos mais distantes bairros da extensa periferia paulistana. O ônibus estaciona em pontos fixos e permanece de 9h30 às 15 horas atendendo os leitores. O acervo total em circulação gira em torno de três mil títulos, entre literatura para todas as idades, publicações paradidáticas, ensaios e livros sobre saúde, quadrinhos, gibis e revistas.
Herança de Mário de Andrade
O projeto foi concebido há 80 anos pelo escritor Mário de Andrade, autor de Macunaíma e Pauliceia desvairada, quando à frente do Departamento de Cultura da Municipalidade Paulistana, embrião da Secretaria Municipal da Cultura. Naqueles anos 30 do século passado, o inquieto Mário, que tinha com São Paulo uma relação visceral, elaborou o projeto de unidade móvel para levar livros à população, então chamada “biblioteca volante". O primeiro veículo foi construído e doado à Prefeitura pela Ford, que havia se instalado no Brasil em 1919, nos primórdios da industrialização do país.
Interrompido em 1942 devido ao racionamento de combustíveis durante a Segunda Guerra Mundial, o projeto foi retomado apenas em 1979 com uma Kombi, ainda assim sem alcançar continuidade. Registros de sua presença no Largo da Concórdia, no Jardim da Luz e na Praça da República, com leitores reunidos em torno da caminhonete-biblioteca, encontram-se hoje estampados no vidro traseiro das cinco unidades da “frota biblioteca”.
Defesa da “bibliodiversidade”
Em 2008 o projeto foi retomado, com a doação de veículos pela Secretaria Municipal de Transportes e a parceria da Liga Brasileira de Editoras (Libre). Entre as bandeiras da Libre consta a defesa da bibliodiversidade – ou seja, a defesa do acesso à diversidade da produção literária e à ampliação de repertório, o que se expressa em catálogos que incluem também literatura produzida por minorias. A entidade assumiu uma programação mensal de encontros e oficinas com autores no próprio ônibus.Segundo a editora Renata Borges, presidente da Libre à época da assinatura do convênio com a prefeitura, “o Ônibus-Biblioteca demonstra grande vigor tanto em números de empréstimos quanto nas histórias de leitores que o frequentam. Existem bibliotecas espalhadas pela cidade, mas nenhuma é tão acessível ao leitor das periferias distantes como o ônibus, e nenhuma delas é tão feliz na mensagem simbólica que carrega”, conclui.
A voz dos leitores
Os funcionários envolvidos com o Ônibus-Biblioteca costumam ter pouco descanso no dia: o movimento de devoluções e novas retiradas de livros é constante, com a presença de leitores de 5 a 80 anos. Silene Neiva Miranda, que atende leitores, conta que “há regiões em que o número de cadastrados chega a mil.” No Jardim Mirian, por exemplo, uma das paradas do Ônibus-Biblioteca na cidade, a média de atendimento por dia é de 120 pessoas e a faixa etária varia da pré-escola à terceira idade, informa Miranda.
Ela explica também que cada roteiro tem suas características próprias. Em locais próximos de escolas, costuma surgir uma demanda maior por literatura infantil e juvenil. E já houve lista de espera por um exemplar de “Carandiru” em locais onde a criminalidade é alta. Apesar da vulnerabilidade das periferias, em geral os funcionários e escritores envolvidos com o Ônibus-Biblioteca não são incomodados. “A praça do Jardim Mirian costuma estar povoada de mendigos e usuários de drogas, mas ninguém mexe conosco”, afirma Miranda.
A experiência das oficinas
Alonso Alvarez, fundador da Ficções Editora, também filiada à Libre, e autor de títulos infantis e juvenis, entre eles A paixão de A e Z, já realizou 14 oficinas no Ônibus-Biblioteca, tendo contato com um público bem diversificado. Alvarez destaca que o projeto tem estimulado muitas mães a tirarem as crianças da frente da TV. Por outro lado, também já viu crianças de 9 anos de idade serem chamadas para deixar o ônibus e “irem trabalhar”.
O quadrinista Caeto, autor de Memória de elefante, já realizou diversos roteiros, entre eles o do Jardim Mirian. Lá ele ministrou uma oficina de ilustração em ímã de geladeira para qualquer idade, um sucesso de público. Na experiência, Caeto percebeu que “tem muita gente interessada em ler, é só ter oportunidade.”
A poeta e arte-educadora Selma Maria também já realizou oficinas no Jardim Mirian, para ela “um dos bairros mais carentes de tudo na cidade”. Ali ela encontrou crianças que nunca aprenderam que o lixo não deve ser jogado na rua, como também outras encantadas com o fato de estarem conhecendo uma escritora. Autora de Isso Isso e Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos, inspirado na cultura do sertão do escritor João Guimarães Rosa, Selma Maria afirma que gosta muito de trabalhar na periferia – “o sertão de Sampa”, segundo ela.
é jornalista, trabalha com projetos editoriais em São Paulo e é autora de "Flagrantes do Tempo - Poema-reportagem na Pauliceia".
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Fevereiro de 2011
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