Meio ambiente e sustentabilidade

Sustentabilidade: aspecto essencial no planejamento de eventos culturais

Copyright: Colourbox
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Artistas, produtores e instituições culturais compartilham questionamentos e experiências, na busca por formas de organização mais sustentáveis, solidárias e menos agressivas ao planeta.

Para garantir um mundo sustentável às gerações futuras, cultura e educação exercem um papel fundamental. No entanto, os próprios eventos culturais carecem de conscientização e precisam se adaptar, a fim de promover não apenas a arte em si, mas também a produção e as estruturas necessárias às manifestações artísticas de maneira sustentável. Transcendendo fronteiras e ideologias, o conceito de sustentabilidade já não se restringe ao desenvolvimento econômico e à conservação ambiental pura e simplesmente.

No Brasil, tendo em vista a ampla expansão da vida cultural no momento, é evidente a urgência de uma legislação que determine a responsabilidade ambiental de organizações e empresas envolvidas em eventos culturais e esportivos de pequeno ou grande porte. O desafio lançado pela Culture|Futures, rede atuante em diversos países do mundo e destinada a pessoas e entidades ligadas à cultura, motivou em São Paulo debates que giram em torno do tema sustentabilidade e planejamento cultural.

Criada em 2011 pelo Centro Cultural São Paulo, a plataforma ECOação Cultural reuniu na cidade instituições integrantes da rede Culture|Futures, a fim de pesquisar e desenvolver ações de sustentabilidade. A proposta é esboçar uma plataforma permanente para compartilhar ideias entre instituições e grupos de artistas, através da qual seja possível discutir temas afins.

Discurso e ações efetivas

André Soares bei der Ecoação in São Paulo. Copyright: Mateus MondiniO arquiteto e permacultor André Soares, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Ecocentro IPEC (Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado), presente no encontro em São Paulo, acredita que o tema da sustentabilidade ainda venha sendo tratado de maneira muito dividida, "entre o imaginário e o real". Soares é também responsável pela sustentabilidade do Boom Festival, que recebe 100 mil pessoas de 80 países em Idanha-a-Nova, uma pequena cidade em Portugal. Para ele, o discurso é importante, mas é urgente partir para realizações efetivas de sustentabilidade.

Durante uma semana, o festival em Portugal reúne pessoas em clima de festa: há grandes gastos de energia, água, alimentação e um enorme volume de resíduos. Através de práticas sustentáveis, a geração de energia, a disponibilização de água potável e o destino do lixo e dos dejetos humanos são assumidos pela própria organização do evento.

Do discurso à implementação concreta

Bernd Scherer bei der Ecoação in São Paulo. Copyright: Danila BustamanteMuitas vezes deixamos de agir porque pensamos demais nos impedimentos, observa Bernd Scherer, diretor geral da Casa das Culturas do Mundo, em Berlim, em debate durante a ECOação Cultural . Por isso, o lema para o festival Über Lebenskunst (SOBRE a arte de VIVER, que em alemão remete a um trocadilho com a palavra Überlebenskunst, ou seja, a arte da sobrevivência) é principalmente o de criar espaços livres de regras e conceitos predefinidos. Projetos práticos partiram de questões ligadas ao cotidiano urbano, sugerindo perspectivas diferentes nos âmbitos da mobilidade, alimentação e arquitetura. O SOBRE a arte de VIVER teve sua versão brasileira realizada em agosto último, no Centro Cultural São Paulo.

Discutir e desenhar propostas conjuntas é um passo importante para que seja criada uma cultura da sustentabilidade, que gere boas práticas ambientais, explica o alemão Scherer. Na versão original do evento, em Berlim, optou-se por soluções arquitetônicas para maior entrada de luz e menor consumo de energia no prédio, desenvolvimento de cursos sobre sustentabilidade em parceria com uma universidade de Berlim, seminário online envolvendo outras cidades do mundo (entre elas São Paulo), realização de um festival aberto à população com workshops, exposições de arte contemporânea, passeios de bicicleta, comida regional e albergues temporários montados para os participantes, além de um debate aberto à população com representantes políticos, que gerou 14 iniciativas sustentáveis para a cidade.

Outro exemplo de pensamento sustentável no planejamento de eventos culturais é a organização dos 12 maiores Festivais de Edimburgo, no Reino Unido, que promove a responsabilidade ambiental por meio de iniciativas em todas as áreas artísticas. A milhões de moradores da cidade e visitantes são apresentadas, desde 2007, novas experiências que contribuem para o bem-estar do planeta.

Arte: função é conscientizar

Ecoação, evento realizado em São Paulo. Copyright: Danila BustamanteNo Brasil, eventos culturais de grande porte também causam fortes impactos ambientais. No entanto, argumentou durante a ECOação Cultural André Palhano, organizador da Virada Sustentável, em São Paulo, é através de manifestações artísticas que são transmitidos valores e que se consegue sensibilizar o público para a relevância de seu papel nos processos ambientais. E uma vez que a arte deve ser uma ferramenta para conscientização e transformação, ela não pode entrar em contradição com suas próprias propostas.

Apostando nisso, a Matilha Cultural, primeira instituição em São Paulo que trabalha questões socioambientais, assume um compromisso que vai desde os materiais usados na arquitetura de construção, passando pelo tipo de alimentação oferecido até a cuidadosa seleção dos materiais utilizados na divulgação dos eventos. Por outro lado, oferece e estimula uma programação cultural variada a um público amplo, sem qualquer segregação. Pois acredita que verdadeiras transformações só acontecem quando as pessoas se unem.

Melhorias locais

Copyright: ColourboxEventos culturais de grande porte devem transformar o lugar que os abrigou em um espaço melhor para se viver, enfatiza Soares. Em relação à enorme quantidade de resíduos sólidos deixados pelos participantes do Boom Festival, por exemplo, já existem ótimas soluções de tratamento biológico da água e de saneamento, com 100% de reciclagem de dejetos humanos por meio de fossas secas. Para reduzir a quantidade de lixo, são utilizados materiais recicláveis, encontrados no ambiente local. E além de placas fotovoltaicas, a energia dos palcos é também gerada através de coleta de óleo vegetal pelos moradores da cidade que hospeda o festival. Uma atitude benéfica para o ambiente, para a economia local e para a produção, que tem os gastos reduzidos a cada novo evento, graças ao reaproveitamento criativo dos materiais utilizados.

Svea Kröner
é mestre em Comunicação e representante da Deutsche Welle no Brasil.

Copyright: Goethe-Institut Brasilien
Janeiro de 2012

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