Excerto da obra

O charuto apagado de Churchill

Miriam usava um vestido de festa de seda azul-escura, e também Mario, Óculos e o Gordo estavam tão bem vestidos como há tempos não se via e como não voltariam a estar por muito tempo depois do baile. Eles haviam até engraxado os sapatos. E assim, mais uma vez, rodopiaram sobre o parquê oitenta sapatos engraxados, e além deles os sapatos da senhora Schlooth e dos dois mariquinhas dançarinos de competição. Mas Micha e Miriam formavam o par. Micha também era o melhor dançarino. Ele conduziu Miriam soberanamente pelo parquê em todas as danças e sentia como ela se entregava a ele cada vez mais... porque ela se sentia segura junto dele. Era a primeira vez que se elevava dentro dele uma noção do que também significa ser um homem; e Micha passou a confiar em si e no fato de poder estar aí, na condição de homem, para uma mulher. Micha, que sempre olhara timidamente para aquilo que estava à sua volta, se sentiu sugado pelos olhos de Miriam naquela noite... Era uma verdadeira descoberta para ele o que podia ser experimentado tão-só através do olhar.
Miriam se deleitava em olhar nos olhos de Micha e fazer com que ele não percebesse nada a não ser ela. Assim, também, ele não ouviu o ronco de uma AWO que encostava lá fora, diante do salão de baile. Justamente durante o tango, a dança que Micha conhecia melhor. Sob o ritmo duro da famosa La cumparsita, o motor de uma AWO roncava calmo e ininterruptamente em ponto morto. E quando a música acabou, Miriam se despediu de Micha.
– É no auge que a gente deve parar – ela disse, apenas, deixando-o em pé no meio do salão.
Todos vêem o que acontece e ninguém quer estar na pele de Micha naquele momento. Até há pouco ele ainda era o príncipe da noite. Quando Micha se recompôs, correu para a estrada e gritou atrás dela:
– Não, quando a gente está no auge também pode continuar!
Mas ela já andava longe, abraçada firmemente ao dono da AWO. Por causa de seu vestido de festa, ela estava sentada no assento das damas. E sequer percebeu que Micha havia gritado algo a ela.
Quando Micha voltou ao salão de baile, um homem derrotado, todos estavam parados e fixaram os olhos nele.
Principiou o som de uma valsa, e o Canhão passou a calcular que tinha alguma chance. Mas Micha agarrou um dos dois mariquinhas dançarinos de competição e dançou a valsa com ele. Apenas uma volta, e em seguida ele deixou o mariquinha dançarino de competição em pé no meio do salão e se foi. Alguns acreditaram tê-lo visto chorando, outros disseram que ele estava vermelho e tremendo. Mas a valsa foi impecável. Aliás, foi Micha quem conduziu, tão bom dançarino havia se tornado.
Alguns dias mais tarde, Micha encontrou uma carta na caixa de correio, sem nome, sem remetente, mas fechada com um coraçãozinho vermelho. Micha arrancou imediatamente a carta de dentro do envelope e saiu de casa, onde ele deu um encontrão no ABV . A carta caiu das mãos de Micha, e como era um dia de vento, ela voou para longe. Micha quis correr atrás da carta, mas o ABV agarrou Micha pela gola e insistiu em fazer o controle. A carta simplesmente foi levada embora, até a faixa da morte, onde ficou presa à vegetação rasteira. Mas isso Micha não pôde ver. E ele o descobriu apenas mais tarde, quando vasculhou a faixa da morte com um espelho preso a um cabo de vassoura. Daquela carta ele não desistiria assim tão facilmente, e passou a tentar tudo para chegar até ela.
Era a primeira carta de amor que Micha havia recebido; e ela havia acabado na faixa da morte. Micha não tinha a menor idéia do que ela continha. Não sabia nem mesmo se a carta era de Miriam. Talvez a autora fosse o Canhão. Ou o mariquinhas dançarino de competição, com o qual Micha havia dançado a valsa. Talvez a carta também não fosse destinada a Micha, mas sim à sua irmã, Sabine. Naturalmente Micha desejava, mais do que tudo no mundo, que aquela carta fosse de Miriam. E nas semanas e meses seguintes, para Micha tudo girou em torno dessa carta. Ele queria chegar até ela a qualquer custo, e não queria, fossem quais fossem as circunstâncias, perguntar algo a Miriam, pois não seria capaz de admitir que a carta dela havia voado para a faixa da morte. Era tão ridículo e, no fundo, até uma ofensa, acreditava Micha. E se ela não fosse de Miriam, e ele lhe perguntasse sobre uma carta de amor, ele se tornaria ridículo também pelo fato de ter imaginado que ela lhe escreveria uma carta de amor.

Non, je ne regrette rien

Primeiro Micha tentou fisgar a carta com um anzol. No que teve a ajuda de Mario. Este segurava o espelho e dirigia o anzol de Micha ao lugar onde via a carta. Contudo, eles não usavam um anzol na ponta da linha, mas sim uma borracha de apagar embebida em Kitifix. A borracha cheia de cola deveria apenas tocar a carta. Então Mario e Micha esperariam alguns minutos até que a Kitifix tivesse endurecido e a carta pudesse ser içada por cima do muro.
Mario não sentia nem um pingo de ciúmes diante do sucesso de Micha com Miriam. É que ele mesmo acabara de “arranjar” algo: uma mulher, que ele havia conhecido na rua de Leipzig, no elevador. Ela parecia com aquilo que ele sempre imaginara que fosse uma parisiense: de cabelos vermelhos, que brotavam ondulados para fora da boina basca, blusão de gola alta e um livro de Sartre debaixo do braço. Era alguns anos mais velha do que Mario, algo em torno de vinte e poucos anos. Mario e Óculos discutiam mais uma vez sobre quais as faculdades apolíticas... Ou, muito antes, sobre o fato de não existirem faculdades apolíticas. Mesmo a Medicina não era apolítica, uma vez que no fundo os médicos tinham de fazer esforços dos mais especiais no caso de terem um oficial do Exército Popular Nacional sob o bisturi. Quando Mario e Óculos desceram no sexto andar e se despediram com um “tchau!” da leitora de Sartre, ela desejou “Uma boa noite!”. E a última coisa que Mario viu foi o sorriso prometedor e sutil dela atrás da porta do elevador que se fechava...
– Ela sorriu como a Mona Lisa! – disse Mario a Micha, quando eles estavam sentados sobre o muro. Micha quase havia esquecido que eles estavam esperando para que a kitifix secasse, tão interessado estava em saber como a história entre Mario e a Mona Lisa da rua de Leipzig havia acabado.
Mario tinha visto que ela apertara o 13 e correu para lá pela escadaria. E enquanto ele subia os degraus como um abestalhado, sentia-se feliz por ter de ir apenas até o 13º, pois Óculos lhe havia contado um dia que os prédios da rua de Leipzig tinham sido construídos a fim de cobrir a vista para o edifício Springer. Óculos parecia estar a par de tais coisas. O edifício Springer se localizava logo atrás do muro, no lado ocidental, e, se Mario tivesse tido azar, teria de subir mais alto do que a altura do edifício Springer. Antes que Mario pudesse desperdiçar mais pensamentos nisso, ele havia alcançado o 13º e, chegando, abriu num safanão a porta que levava até o corredor do andar. Bem ao fundo, pareceu-lhe que outra porta acabava de ser fechada...
E a mesma voltou a se abrir mostrando a mulher do elevador em pé na soleira, sorrindo para Mario. E mais uma vez ela sorria como a Mona Lisa. Mario reuniu todas as suas forças e chegou, totalmente esgotado, até ela. Sentia que tudo ficava escuro diante de seus olhos e que o fôlego o abandonava por completo.
– E o que foi que você disse a ela? – perguntou Micha, que podia imaginar a situação muito bem.
– Eu disse: você conhece uma faculdade que não seja política? Em vez de responder, a mulher do elevador sorriu de novo, e Mario disse, em seguida:
– Você sorri como a Mona Lisa. A mulher aceitou o elogio com tranqüilidade:
– Talvez porque eu seja pintora – ela disse e puxou Mario para dentro de seu apartamento. O apartamento mais parecia uma caverna, com grandes quadros nas paredes e lâmpadas que ela mesma decorava.
Eles conversaram durante todo o anoitecer, durante toda a noite. Tudo começou com a pergunta improvisada de Mario por uma faculdade que não fosse política e acabou em uma primeira aula sobre o existencialismo. Pois a conhecida de Mario sempre apenas sorria como a Mona Lisa... Ela era uma existencialista da cabeça aos pés. Ninguém precisa fazer algo que não quer fazer. A existencialista conjurou Mario. Todo mundo é responsável por si mesmo, e todo mundo também é culpado por sua infelicidade. Pois você tem sempre a liberdade de decidir, disse ela, e você não pode atribuir a ninguém a culpa por aquilo que você faz. Para Mario, tudo aquilo era uma coisa bem diferente, mas bem diferente mesmo... Era tudo tão novo e tudo tão GRANDE. Tratava-se de fato da liberdade, de algo especial, de tudo. E o fato de alguém, cuja janela dá para a faixa da morte, cantar o cântico da liberdade, chegando a conjurá-la, não apenas causava sensação em Mario, como inclusive mudou sua vida. Edith Piaf cantou Non, je ne regrette rien a noite inteira, sempre de novo, sempre de novo. Nós somos condenados à liberdade, exclamava a existencialista, depois de sacar a rolha da terceira garrafa de Sangue de Urso, sobre cujas etiquetas ela no entanto havia colado etiquetas de Château-Lafitte. Mario perguntou se eles também estavam condenados a ouvir aquela música para sempre. Sim, replicou a existencialista, pois, em primeiro lugar, o toca-discos não desliga e, em segundo, tudo continuará seguindo sua marcha eternamente mesmo se você não se levantar.
Ela se levantou e olhou para fora da janela, onde os postes de iluminação clareavam a faixa da morte. A existencialista já havia tomado mais de uma garrafa de vinho.
– Nós estamos condenados à liberdade – ela disse. – Você sabe o que isso significa para o muro? Sabe o que Sartre diria sobre o muro de Berlim?
Mario ainda não estava familiarizado com o existencialismo, e por isso teve de adivinhar:
– Que algum dia vou poder viajar ao Oeste.
– Não – ela disse –, exatamente o contrário.
– Que eu jamais poderei viajar ao Oeste? – perguntou Mario.
– Que um dia ele deixará de existir – disse a existencialista, e isso era tão monstruosamente grandioso para Mario que superava de longe o imaginável. Ele jamais poderia ter formulado sequer o pensamento de que o muro de repente pudesse deixar de existir. A existencialista desligou Edith Piaf e colocou Je t’aime... Ela sabia muito bem o que queria. Daí pra frente, ela apenas sussurrou.
– Você só se torna livre ao tornar todos os outros livres – ela disse e começou a libertar a si e a Mario. – Você entende o que estou querendo dizer? – ela sussurrou. – O que Jean-Paul quer dizer com isso?
Mario não entendia, mas compreendia um bocado e mais um pouco. Eles começaram à meia-noite e meia e terminaram por volta das cinco horas... Um caso genuinamente existencialista, e quando Mario acordou na manhã seguinte, ela estava sentada no canto da cama, nua, apenas com a boina basca sobre a cabeça, e sorria para Mario: “Ora, será que agora tirei sua virgindade?”

Tradução: Marcelo Backes
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