O vestido azul
A casa dele é grande e clara, nem comparação com o buraco pequeno em que ela vive, mas a decoração é tão mínima que Babette chega a pensar que alguém se mudou faz pouco para lá. Ele se apresenta como Thomas Kron, anestesista do hospital de Schwabing, ele diz isso de supetão, como se precisasse preencher uma ficha. Nesse momento, ela já poderia ir embora. O sol pálido de inverno cai na cozinha arrumada, uma xícara de café está na pia, uma só, Babette vê de imediato. Nenhuma flor, em lugar algum, nenhuma planta, aqui não tem nenhuma mulher, ela está quase certa. Ele está sentado à mesa e tirou sapato e meia. Aliviada Babette percebe que as unhas estão bem aparadas. A solitária xícara de café e as unhas do pé bem-manicuradas - com que rapidez ela reuniu todas as informações importantes!
Com cuidado ele toca o tornozelo gordo de tão inchado. Logo em seguida vou passar no nosso ambulatório, ele desdenha, não foi tão feio assim.
Ela ainda está usando o casacão de frio. Indecisa.
Tudo bem, ela diz, então vou indo ...
Você quer um café?, ele pergunta rápido.
Até que sim.
Ela mesma faz o café, a fim de evitar que ele fique mancando pela casa. Ele a dirige até o armário e as gavetas; ela deixa que ele o faça, satisfeita, sente-se um pouquinho como um cavalo que está sendo novamente arreado no estábulo depois de um longo tempo. Fazer café para um homem ... Preciso prestar atenção para não colocar direto dois torrões de açúcar na xícara, ela pensa, e percebe como um tranco perpassa o seu corpo e ele acorda como de um longo sono de inverno. Ela lhe serve o café com as mãos trêmulas e foge.
Eu me esqueci completamente que ... Deus, estou tão atrasada ... Então, boas melhoras ...
Ao chegar à rua novamente, ela está suando de nervoso.
Não, nunca mais, ela pensa. Por sorte ele nem ao menos sabe o meu nome.
À tarde, de volta do trabalho, ela está sentada à mesa da sua cozinha, pensando na mesa da cozinha dele.
As pombas arrulham na minúscula sacada da cozinha. Irada, ela abre a porta e bate palmas. Elas saem voando, indolentes. No chão de cimento há alguns raminhos mal dispostos em forma de círculo. Ela os junta com a vassoura e joga fora. As pombas aterrissam na calha e arrulham indignadas; esperam apenas que ela suma para poder construir um novo ninho.
Ela tapa os ouvidos.
Nos próximos dias ela não vai ao cemitério, embora ele não possa ir de jeito algum. Afinal, ele não consegue andar. Talvez ela devesse telefonar, pensa, perguntar-lhe como vai o pé. Não, ainda não estou nesse ponto. Nunca mais. Não. Não.
Em vez disso, ela vai ao Jardim Inglês, lotado devido ao clima quente da primavera. Lá a vida borbulha como numa banheira de hidromassagem. Ela sente falta das lápides, da presença da morte. Por todo lado há horrivelmente muita vida. Crianças gritam, casais de namorados se amassam nos bancos, patinadores tiram suas camisetas, as cervejarias ao ar livre estão abertas, os pássaros des-filam suas penugens de nidificação.
Babette busca refúgio no banheiro da cervejaria. Na parte de dentro da porta está escrito: "Procuro mulher que queira transar 10 x por dia. Pago pensão se ficar grávida. Meu pau é bonito. Respostas por favor aqui. Venho todo dia. Tenho 33 anos. Idade aparência tanto faz. Quando onde horário".
Babette começa a chorar. Ela chorou raramente, mas aqui, no banheiro da cervejaria, ela chora até os pulmões começarem a doer. Ela cambaleia para casa como se estivesse doente. Na cama ela escreve para Fritz, e, se ela não pensar muito, ele vai responder.
Querido Fritz, conheci alguém. Mas eu não quero conhecer ninguém.
Ah, minha pequena. Você bem sabe que eu não quero que você viva do jeito que está vivendo agora.
Mas eu não consigo mudar. Não quero toda a encenação, e no final o final chega inevitável.
Você é boba, e você sabe disso.
Me ajude.
Vá lá e pegue ele para você.
Eu não consigo.
Eu te amo.
Eu também.









