Excerto da obra

A mulher do meio-dia

A neblina jazia pesada sobre a laguna, os navios tocavam suas sirenes, que caíam umas sobre as outras, se misturando. Lá em cima, na cidade, o sol brilhava dourado e projetava longas sombras, o dia estava apenas começando.
Vamos catar cogumelos, explicou Helene naquele domingo livre, que haviam lhe concedido em consideração à criança depois de ela ter implorado repetidas vezes, e preparou seu cesto.
Não havia condições melhores do que aquelas, ainda no dia anterior chovera, e na noite passada fizera lua cheia. Metade dos moradores da cidade talvez estivesse correndo pela floresta, mas Helene conhecia muito bem as coisas, sabia onde encontrar os cogumelos, conhecia as clareiras solitárias. Uma toalha, duas facas, um jornal, pois os cogumelos não podiam bater nem esfregar um no outro, quando eram recolhidos e amontoados no cesto.
Eles foram de bonde até Messenthin, deixaram para trás bem rápido as casinhas de enxaimel cobertas de palha, Helene conhecia o caminho que levava até a floresta. Os pinheiros ficavam bem juntos, depois havia algumas faias e carvalhos. O ar estava fresco. O cheiro era de outono, cogumelos e terra. Folhas de faia, lisas e algumas já de cor bronzeada, os pequenos carvalhos secos. Helene caminhava na frente, em passo rápido, conhecia sua floresta e suas clareiras. Ela sentia fome, coisa que certamente não favorecia a procura. Seus olhares perpassavam a mata rasteira, as folhagens baixas, ali estava escuro demais, lá seco demais, eles tinham de entrar mais, lá onde as abelhas ainda pousavam sobre os troncos e se aquentavam junto à madeira, vagarosas em seus movimentos, já que o frio chegando as paralisava.
Mamãe, espere, você está caminhando rápido demais. Peter por certo já estava vinte, trinta passos atrás dela. Helene se virou para ele, ele era jovem, tinha pernas ágeis, não devia era ficar sonhando. Helene prosseguiu em seu caminho, passava por cima de galhos caídos, os ramos se quebravam debaixo de seus pés, ela não gostava de esponjas de árvore, elas podiam muito bem ficar em seus troncos podres, e ela seguiu adiante, queria encontrar cepes de Bordéus, cepes de Bordéus e marrons. A luz penetrava pelas árvores, mais adiante ela viu o verde, o verde suave e seco de uma pequena clareira, lá, com certeza lá ela encontraria um, dois, ela queria pilhar um círculo inteiro de cogumelos. Helene corria e mal conseguia ouvir Peter, que vinha tropeçando bem atrás dela e chamava. Ali havia um. Ele tinha um chapéu velho e grosso, marrom, que mostrava que o cogumelo já não tinha mais nada de fresco. Por acaso não chovera na noite anterior, por acaso não fizera lua cheia? O orvalho tardio ainda era visível na relva. Só podia ter acontecido uma coisa, alguém já estivera ali antes deles e revirara o mato que era dela, a orla que era dela, a clareira que era dela. Helene ficou parada, sem fôlego, e se virou. O galho ali atrás, será que não havia sido quebrado há bem pouco?
Espere, gritou Peter, que ainda não alcançara a clareira quando ela já queria se voltar e prosseguir em seu caminho pela floresta. Ela não esperou, apenas caminhou mais devagar. Ouviu o latir de um cão, ele vinha de longe, depois o trinar de um apito, e mais um trinar. Será que havia algum guarda-florestal caçando em pleno domingo? Coelho com cantarelos, Helene teve de pensar na carne tenra de coelho que havia preparado para Wilhelm certa vez, há muito, muito tempo. Seria bom se ela tivesse uma espingarda. Cantarelos eram ainda melhores do que cogumelos-manteiga, do que cepes de Bordéus. Os olhos de Helene passeavam pelo chão, se arregalavam, queriam saltar das órbitas. Um cogumelo-de-mosca de chapéu vigoroso, jovem e inchado como que pronto a ser fotografado para um livro de especialistas. Helene continuou a correr, Peter sempre atrás dela. Eles cruzaram a linha de trem. Um cheiro de atordoar os sentidos soprou ao encontro deles. O ar fedia a carniça, a urina e a excrementos. Sobre os trilhos, a alguma distância, havia um trem de carga animal. Os vagões enferrujados estavam trancados até a parte superior. Helene caminhou ao longo dos trilhos, Peter a seguiu, à distância ela reconheceu um policial. Era bem possível que a locomotiva estragara, e o gado morria quando o transporte demorava tempo demais. Um cachorro latiu e Helene se limitou a dizer: venha.
Ela pegou o caminho de volta à floresta. Eles tinham de dar a volta no trem, fazer um grande arco em torno dele, para escapar de seu cheiro e não dar de cara com os cachorros.
Por que você está correndo, mamãe? Peter não sentia o fedor? Ela sentiu ânsias de vômito, teve de respirar pela boca, o melhor mesmo seria não respirar, e Helene correu, os ramos se quebravam, os galhos batiam em seu rosto, ela segurava os braços diante dos olhos, se protegendo, debaixo de seus pés a madeira podre se quebrava, ela sentia que o chão ficava liso debaixo de seus pés e logo escorregou, ali havia um cogumelo, talvez apenas um cogumelo amargo, ela não queria ficar parada, não queria se abaixar, não queria esperar de forma alguma, só queria seguir adiante, fugir do fedor. Quando tivesse passado em volta do trem em direção noroeste, tudo ficaria melhor, o cheiro soprava em direção sudeste, o vento que vinha do mar o levava. Mais uma vez o trinar do apito chegou aos ouvidos de Helene. Talvez alguma cabeça de gado tivesse fugido. Talvez as vacas corressem pela floresta aos domingos, ou será que eram leitões? Helene sentiu fome, ela tinha de pensar em bolinhos de carne com cepes de Bordéus. As bolotas de faia saltavam debaixo da sola de seus calçados. Ela só não queria se abaixar, por mais bonitas que elas fossem, os chapeuzinhos cerdosos, os grãos lisos de três dobras, bolotas, o gosto delas era parecido com o das nozes, quando elas eram assadas, ela queria muito mostrar a Peter, mas não agora.
Ela conseguira. Ao que parece, havia dado a volta no trem, passando longe dele, o cheiro desaparecera. Silêncio na floresta, o zumbido de insetos. Um pica-pau.
Mamãe, estou vendo um esquilo.
Helene limpou o suor de sua testa com as costas da mão.
Em seu caminho jazia o tronco grosso e longo de uma faia, a casca ainda rebrilhava em cinza-prateado. Entre as cicatrizes nos galhos, os besouros chatos e pretos pontilhados de vermelho faziam a festa, enganchados aos pares; um me-empurra-que-eu-te-puxo dos mais divertidos. Pelo menos o livro em que se contava essa história ela poderia ler em voz alta a seu pequeno Peter, se não o Coração Frio, um conto de fadas que o aterrorizava demais, pelo menos a história do doutor Doolittle ela ainda haveria de ler, ele se alegraria com isso, mas ainda havia tempo para tanto, com certeza, eles ainda tinham tempo, algum dia isso aconteceria, ela precisava apenas voltar mais cedo do hospital, passar na biblioteca e achar o livro para retirá-lo. Um tronco como aquele estava no caminho para ser superado. Helene colocou seu cesto de lado e apoiou suas mãos sobre ele, tomando todo o cuidado para não amassar nenhum dos besouros, o tronco nem se mexeu. Mamãe, espere!
Helene tateou em busca de uma superfície lisa que fosse adequada, se apoiou com ambas as mãos sobre o tronco e passou uma das pernas por cima. O tronco era tão grosso e estava tão alto por causa de sua curvatura, que ela teve de se sentar sobre ele. Mas e como descer, agora? Ouviu um estalar. O tronco não podia quebrar, de jeito nenhum. O estalo foi bem perto. O fedor, ali estava ele mais uma vez, a garganta de Helene se estreitou, ela sentiu ânsias de vômito, engoliu em seco, e não quis mais respirar, nem mais um único hausto. Um horror, o cheiro. Não era de carniça, apenas estrume, o maldito estrume. Como podia ser, se eles já haviam fugido ao transporte de gado, ele já estava bem longe atrás deles, com certeza. Um espirro. Helene se virou. Abaixo do tronco, na vala, que as raízes que agora apontavam para o céu haviam deixado para trás, havia uma pessoa agachada. Helene abriu a boca, ela não conseguiu gritar. O susto foi tão grande, que nem o mais mínimo som saiu de sua garganta. A pessoa havia se abaixado, galhos cobriam suas costas, pois ela, sua cabeça não podia ser vista, ela fazia um buraco na terra, com certeza tinha a esperança de conseguir desaparecer, de desaparecer sem ser vista. E a pessoa tremia tanto que as folhas murchas dos galhos que amontoara sobre si, balançavam. Mais uma vez um estalo se fez ouvir. Ao que tudo indica estava sendo difícil para aquela pessoa ficar em silêncio, sem que nada a tocasse nem ela não tocasse em nada.
Mamãe? Peter já estava a menos de dez metros de distância. Seu sorriso maroto se abria ocupando o rosto inteiro. Você queria se esconder? Ele perguntou, já nem precisava mais gritar, tão perto estava. Helene se deixou escorregar pelo tronco da árvore, escorregou e correu ao encontro dele, agarrou sua mão e puxou-o de volta.
Posso ajudar você, mamãe, se você não consegue passar por cima do tronco, vou ajudar você, sei como fazer, você vai ver. Peter queria voltar ao tronco da árvore, não queria seguir em outra direção, queria mostrar equilíbrio e ensinar como era capaz de trepar sobre um tronco como aquele. Mas sua mãe continuava dando um passo após o outro, imperturbável, puxando Peter atrás de si.
Me deixe, mamãe, você está me machucando.
Helene não o largou, ela correu, ela tropeçou, teias de aranha colavam a seu rosto, ela corria e segurava o cesto diante de si, como se ele pudesse afastar as teias de aranha, a floresta ficou um pouco menos densa, samambaias e gramíneas já eram bem altas, ali não havia vento, eles não podiam parar, tinham de seguir sempre em frente. O gado era uma pessoa, talvez fossem pessoas as que estavam paradas sobre os trilhos e apodreciam e fediam. Prisioneiros, quem mais se encolheria tanto em roupas tão leves, tremendo debaixo dos galhos? Alguém que fugira. Possivelmente era um daqueles transportes que iam a Pölitz, e lá providenciavam reforços e reabastecimento. Desde o começo da guerra, o combustível produzido não se mostrava suficiente, os trabalhadores empregados não davam conta da demanda, prisioneiros eram obrigados a meter mãos à obra, levados às cargas. Mesmo mulheres, conforme os boatos que as enfermeiras repassavam umas às outras à boca pequena, trabalhavam nas fábricas, mourejavam até não conseguirem mais trabalhar, nem comer nem beber, e algum dia paravam de respirar. Será que ela vira mesmo o rosto do fugitivo, será que ele levantara a cabeça e ela olhara em seus olhos, seus olhos medrosos, seus olhos negros? Eram os olhos de Martha que Helene agora via. Os olhos medrosos de Martha. Helene viu Martha no vagão de gado, ela viu como os pés descalços de Martha resvalavam sobre os excrementos, como ela buscava se segurar em algo, os gemidos dos encurralados, os suspiros do fugitivo, seu tremor, a folhagem de carvalho e o espirro. Um tiro foi ouvido.
Um caçador, gritou Peter, em júbilo.

Tradução: Marcelo Backes
Links relacionados

Programa de apoio à tradução

Programa para fomentar a publicação de livros de autores alemães para uma outra língua