O acorde de Tristão

Então, depois de alguns anos de inatividade musical, Georg tentou a guitarra. O estímulo para seu entusiasmo pela guitarra foi um disco com um selo verde e a inscrição "Odeon". No disco, estava a primeira música dos Beatles de sua vida. Tinha dois minutos e vinte e sete segundos e se chamava "I want to hold your hand". A canção o impressionara de tal maneira que, assim que a ouviu pela primeira vez, soube: "sou um Beatle". Agora, só precisava aprender a tocar guitarra. De fato, a escola oferecia um curso de guitarra, e logo um grupo de mesma faixa etária se formou, composto de Johns, Georges e Pauls imaginários, como Georg. Nenhum deles jamais havia tido uma guitarra nas mãos, dispondo, portanto, dos melhores pré-requisitos para começar do zero a aprender o instrumento. A flauta doce propiciava sobretudo embaraço, demandava submissão e era totalmente inapropriada para uma carreira de artista pop. Coisa diferente ocorria com a guitarra, que possuía uma aura de rebeldia e na qual Georg depositava certas esperanças. Já não queria ser um flautista babão, mas um herói da guitarra. Contudo, logo as primeiras tentativas de dedilhá-la tinham, de certo modo, transformado o admirado instrumento de cordas em nova flauta doce. Num instrumento, portanto, que demandava sobretudo submissão. Georg sonhara eletrizar o ar, disparando raios de som rumo ao céu, mas, em vez disso, precisou esforçar-se por meses para conseguir dedilhar ao menos uma sofrida "Valsa do adeus", em versão mais do que simplificada. Como, a despeito de aplicados exercícios, jamais conseguisse de fato ir além dessa "Valsa do adeus", pendurou o instrumento na parede e passou a se dedicar à chamada "guitarra de ar". A guitarra de ar, como diz o próprio nome, consiste em cem por cento de ar. Prende-se a um cinto de couro, também de ar, e, como se trata em geral de uma guitarra elétrica, está ligada a um amplificador e a caixas acústicas de ar. Desnecessário dizer que a guitarra de ar é tocada diante de um público de ar. Só os mais corajosos a tocam defronte do espelho. Também Georg tocava diante do espelho, vez por outra. Até o dia em que viu refletido nele não um fulgurante virtuose da guitarra, mas um garoto pubescente um tanto gordinho, pálido, suado e desajeitado. Georg não quis tornar a encontrar aquele garoto. Cobriu o espelho com uma toalha e decidiu passar a apenas ouvir discos. Quando os ouvia, conseguia esquecer a imagem no espelho. E não só isso. Para ele, uma música dos Beatles ou de Jimi Hendrix era expressão não dos Beatles ou de Jimi Hendrix, mas dele próprio. Canções como "Hey Joe" ou "Do you want to know a secret?" eram testemunhos de sua personalidade e de sua criatividade. Assim como o jovem Werther de Goethe sentia-se o maior dos artistas quando em contato com a natureza, sentado no topo de uma colina e fazendo o sol nascer, também Georg sentia-se o maior dos artistas enquanto os discos giravam em seu toca-discos. Ouvir um disco era como dar um concerto. Ouvir música deitado na cama era um estado de ativa produção artística, era trabalhar na própria obra. Só que não resultava numa relação de obras próprias. Além disso, em algum momento o disco acabava. E, quando acabava, a felicidade da produção artística imaginária transformava-se em grande tristeza. Essa tristeza só podia ser enfrentada colocando-se de imediato um novo disco, o que resultou em que, nessa fase de sua juventude, Georg passava dias, semanas, meses não fazendo outra coisa senão ouvir discos deitado na cama e sentindo-se um criador. Que isso não era suficiente, seus pais foram os primeiros a perceber, ameaçando privar o filho, que parecia cada vez mais preguiçoso e apático, de seu toca-discos. Em algum momento, porém, ele próprio percebeu que uma vida na horizontal não lhe bastava. Mesmo quando ouvia discos. Esperava mais de si. Queria outra coisa. Mas o quê? Não levou muito tempo para saber exatamente o que era. Queria saber tocar piano. Antes, porém, de começar a tocar piano, Georg dedicou-se ao piano de ar. No piano de ar, sua peça preferida era o Concerto para piano no. 1 em si bemol menor, de Tchaikóvski, que ele ouvira inúmeras vezes em disco, para, enfim, poder tocá-lo na cabeça e no ar. Sobretudo os compassos iniciais o haviam encantado, parecendo-lhe que, pela primeira vez, tinham aberto seu caminho para o que era, verdadeiramente, a música: matéria invisível, mas dinâmica, conduzindo a grandiosos sentimentos; uma espécie de torrente de oxigênio, capaz de inflar o ouvinte e levá-lo às alturas. Ao mesmo tempo, ouvir Tchaikóvski proporcionara-lhe a sensação de ser um conhecedor, a qual Georg intensificou adquirindo uma segunda interpretação da peça: a primeira havia sido a de Sviatoslav Richter; a segunda, a de Van Cliburn. Ouvira muitas vezes o primeiro e com bastante freqüência o segundo disco, constatando apenas, no entanto, que o de Cliburn estava menos riscado do que o de Richter. No mais, ambos lhe pareceram absolutamente idênticos. Mas os amigos e conhecidos aos quais mostrara os discos confirmaram-lhe as supostas diferenças, não se cansando de expressar admiração pelo fato de a música, com efeito, depender em tão extensa medida do intérprete. De modo geral, Georg apenas acrescentava que atentassem sobretudo para o "ataque", o que a maioria, então, fazia, atestando seu próprio conhecimento, e o dele, com um "espantoso, espantoso". O professor de piano, porém, que ele logo encontrou, nem sequer queria saber do entusiasmo de Georg por Tchaikóvski. Era organista da igreja, e música, para ele, era sinônimo de Johann Sebastian Bach. Para definir o concerto em si bemol menor, tinha apenas duas palavras: música ligeira. Era só o que tinha a dizer a respeito. Embora o Deus do professor de piano se chamasse Johann Sebastian Bach, Georg teve de se contentar com um compositor chamado Josef Czerny. Tocar piano era tocar Czerny e seus "cento e sessenta exercícios de oito compassos". E Georg o fez por um período de tempo bastante longo, porque sabia que não havia caminho de volta aos instrumentos de sopro. Tinha de agüentar, se pretendia mostrar a si mesmo que era capaz, e agüentou até o professor de piano lhe dizer que estava pronto; pronto para Beethoven - para Bach, ainda faltava muito. Aos olhos do professor de piano, Beethoven valia menos do que Bach. Ainda assim, valia mais do que Czerny. Beethoven, pois, e uma peça para piano chamada "Pour Elise", em cuja execução Georg trabalhou longamente e que demarcou os limites de seu talento. Não que não acertasse as teclas. Mas não ia além daquilo que seu professor de piano chamou de "um martelar mecânico". "Melhor não chamarmos isso de música", dissera-lhe ele. Além disso, recomendou ao aluno que pensasse também nos pais, que, afinal, já tinham feito algum investimento na formação musical do filho e a quem ele não deveria fazer crer que era capaz de mais do que o já mencionado "martelar mecânico". Quando o professor de piano empregou pela segunda vez a expressão "martelar mecânico", Georg ficou tão destemperado que interrompeu as aulas de piano naquela mesma semana, mas não parou de tocar. O orgulho o proibia. E seu orgulho o fez adquirir o "Cravo bem temperado" e sonhar que, um dia, tocaria aquelas peças para seu professor de piano com tamanho virtuosismo que ele levaria um choque para a vida inteira. Infelizmente, não chegou a tanto. Chegou, sim, a uma leitura detalhada do "Cravo bem temperado", seguida de exercícios práticos. Georg começara bem do começo, com o Prelúdio no. 1 em dó maior, constatando, espantado, que Bach era mais fácil do que Beethoven. Conseguia tocar o Prelúdio no. 1, ao passo que "Pour Elise" não conseguia. Essa descoberta o inspirara de tal maneira que ele se pôs a tentar os outros prelúdios também, mas já o número 2 causou-lhe tantos problemas que ele voltou a se concentrar no número 1. Tantas vezes quantas, no passado, havia ouvido o Concerto para piano em si bemol menor de Tchaikóvski, tantas pôs-se agora a tocar o Prelúdio no. 1 de Bach. E quanto mais tocava, mais perfeita lhe parecia sua execução. Melhor do que estava tocando aquela peça era decerto impossível tocá-la. Mas Georg queria ser rigoroso. Queria mais. Então, passou a tocar mais rápido. Quanto mais rápido, melhor, dissera a si mesmo, e logo já reduzira à metade a duração normal do Prelúdio no. 1. Em seus melhores dias, conseguia ainda diminuir em cerca de mais dez segundos o tempo de execução, tendo se tornado, provavelmente, o mais rápido executor do Prelúdio no. 1 em sua cidade natal, quando não em toda a região do Ems.









