Excerto da obra

A violoncelista

De cemitério, não havia nem sinal. À minha pergunta sobre a direção a tomar, o taxista, um homem pesado e rabugento, com cara de passarinho, respondera com um gesto vago da mão direita, mas agora permanecia mudo, depois de ter reclamado a viagem toda e com crescente intolerância de um comentário provindo do rádio e da voz esganiçada e metálica da central. Antes tivesse deixado à espera o amável taxista que, uma hora antes, me trouxera do aeroporto de Budapeste para o hotel.
Oferecera-me de tudo: jovens mulheres, boates, música cigana - basta o senhor pedir que eu arrumo. Mas, como queria descansar uns dez minutos antes do funeral, mandei-o embora. Onde está o cemitério?, perguntei do banco de trás ao cara de passarinho, que, tranqüilíssimo, acendia outro cigarro na guimba do anterior, provocando uma chuva de faíscas sobre o pulôver de malhas largas. O táxi estava parado debaixo de uma árvore em frangalhos, as folhas pendendo sem forças e banhadas em fuligem; mais adiante, abria-se uma praça abandonada, na qual chocava um carro velho e sem rodas; na distância, duas ou três casinhas baixas. Gente e túmulos, não havia naquele deserto. Graças a Deus, o porteiro do hotel havia anotado o endereço do cemitério, e agora eu procurava o tal papel na estreiteza angustiante do carro esfumaçado, repleto de sons incompreensíveis, sob o olhar mal-humorado do motorista.
Comecei a suar em bica. Supunha que, em princípio, os taxistas daquela parte do mundo dedicavam-se a enganar os passageiros, razão pela qual concedera ao porteiro, que me confirmara essa suspeita, uma boa gorjeta; mas, que o letal taxista fosse simplesmente me abandonar em algum ponto daquela terra de ninguém, e apenas por prazer, isso estava acima da minha compreensão. Por outro lado, não podia irritá-lo, porque mal se via um carro por ali, que dirá um táxi - e, sobretudo, até onde minha vista alcançava, não se via cemitério nenhum. Eu procurava o papel, o homem fumava feito chaminé e tossia de boca aberta, absorto; então, abriu a porta do carro e cuspiu uma pesada gosma no chão poeirento.
A situação era, ao mesmo tempo, tão revoltante e humilhante que eu já estava a ponto de gritar-lhe o nome do hotel, para que me levasse de volta ao ponto de partida, quando, por fim, encontrei a anotação, toda amassada, no bolsinho do paletó, estendendo-a triunfante para ele. Aqui está o endereço, cemitério, clamei à muda criatura, que, de soslaio, espiou o estropiado documento e, circunspecto, pôs-se a assentir com a cabeça. Acionada novamente a partida, o homem voltou a resmungar e praguejar consigo, como se tivesse enfiado a chave da ignição no controle da fala. As perspectivas não melhoraram, sobretudo porque uma chuva fininha começou a cair, encobrindo com um véu cinzento aquela desolação.
A esperança de chegar ao cemitério meia hora antes do funeral - a fim de, por um lado, poder ter uma idéia de onde era o túmulo e, por outro, sondar as possíveis rotas de fuga - esvaiu-se naquela minha jaula fumegante. Quem poderia dizer se chegaríamos lá um dia? E isso porque, agora, vociferando e bufando, o motorista do veículo subia a rampa de acesso a um posto de gasolina, estacionando ao lado de uma bomba que não inspirava grande confiança. Desceu, pôs-se a revirar o porta-malas lá atrás e, só depois de tempo considerável, retornou a meu campo de visão. Abocanhava grandes pedaços de um portentoso sanduíche, segurando com a outra mão uma garrafa contendo um líquido turvo, provavelmente sidra. Enquanto ele mastigava e bebia ali em pé, já diante do radiador, pude ver que uma impigem vermelha e espraiada desfigurava-lhe o lado esquerdo do rosto, principiando acima do olho e vicejando pescoço abaixo, por dentro da gola do pulôver engordurado. Como o desfigurado não fazia menção de encher o tanque do carro, e tampouco se via frentista algum, arregacei casaco, paletó, camisa e pus-me a bater várias vezes com o indicador direito em meu relógio de pulso, equivocando-me na suposição de que aquele gesto haveria de ser entendido em qualquer parte, e, portanto, também ali. Ele não moveu sequer um músculo do rosto. Somente quando o sanduíche já desaparecera goela abaixo, e tendo a garrafa sido alojada de volta no porta-malas, foi que o homem se dignou a dar início ao processo de abastecimento. E quando, enfim, o marcador da bomba parou de girar, ensejando alguma esperança de afinal virmos a alcançar o destino rumo ao qual partíramos havia mais de uma hora, o homem escancarou minha porta e desatou a berrar palavras rudes. Só podia ser questão de dinheiro. Assim sendo, obedeci à ordem e puxei o maço de notas que, no hotel, uma cansada senhora me dera em troca de uma cédula de cem marcos; depositei uma nota de valor médio na mão estendida à minha frente. Que, no entanto, não se fechou mesmo depois do acréscimo de duas outras notas àquela primeira. Enquanto isso, um grupo mudo de maltrapilhos se aproximara, compondo um semicírculo em torno do motorista e passando a acompanhar com grande interesse aquela muda negociação.
O grupo contava inclusive com uma mulher usando gorro de lã, que, abusada, curvou a cabeça de cabelos desgrenhados rumo ao interior do carro e agora estendia a mão também, para quem sabe apanhar uma das cobiçadas notas. Eu não tinha idéia de quanto dinheiro havia dado e de quanto ainda tinha na mão, mas a hostilidade a que me via exposto não propiciava tempo suficiente para cálculos.
Precisava agir. Partir para o ataque era tudo que restava para libertar-me daquela situação. Assim, lancei as pernas para fora do carro, saltei do banco traseiro segurando firme o dinheiro restante, postei-me de pé, pernas abertas, diante do grupo que circundava o desfigurado taxista, contive-me por um instante e então gritei, tão alto quanto podia: se não me levarem ao cemitério imediatamente, vou chamar a polícia e botar todo mundo na cadeia. E, enquanto gritava, inflamando-me com meu próprio tom militaresco e orgulhoso de uma coragem que nem sabia possuir, passei a dar com o punho no peito daqueles seres assustados, varrendo até mesmo, com um golpe ágil, o abusado gorro da cabeça da mulher.
O próprio motorista pareceu impressionar-se. Agora, eu só não podia parar, perder o controle da situação. Quando, em minha fúria crescente, estava já pulando no pescoço do cabeça de passarinho, um homenzinho todo sujo de graxa se interpôs, indagando em perfeito alemão sobre o motivo da violenta desavença. Quero ir ao cemitério, bradei, onde fica o maldito cemitério, para onde este idiota não quer me levar nem com reza brava, mesmo já tendo me arrancado um bom dinheiro? É uma vergonha a maneira como visitantes são tratados neste país, que desrespeita as regras mais básicas da hospitalidade, a Hungria toda está minada por patifes para quem as leis da civilização não têm valor nenhum...
Cemitério? Cemitério?, perguntou o homenzinho cheio de graxa. O senhor quer ir para o cemitério? E já foi me desarmando com seu sorriso amistoso, enfiando-me de novo no banco traseiro, enquanto o taxista com a purulenta impigem retomava seu posto ao volante, acionava a partida e, sob o aplauso dos curiosos, rumava de volta à rua, na qual, de fato, passados uns poucos minutos, alcançamos o cemitério.
O senhor me espera aqui, ordenei. Esperar, entendeu? Apontei para meu relógio, ergui dois dedos e repeti ainda uma vez: espere aqui. Sobre dinheiro, não havia mais o que conversar. Depois de comprar um buquê de flores de uma adorável mulherzinha desdentada, lancei um último olhar para o táxi e ainda pude vê-lo dobrar a esquina, resfolegante e barulhento. Graças a Deus, pensei, melhor assim; e, como só podia supor que aquilo me pouparia uma montanha de dinheiro, depositei mais uma nota na mão calosa da mulherzinha do cemitério.
A chuva aumentou. Diante da câmara-ardente, uma construção já deteriorada, grandes poças haviam se formado, era impossível saltar sobre elas. Tinha-se de chapinhar pela água. Um homem uniformizado encontrava-se postado à soleira da porta, como se fosse o acompanhante dos mortos, sorridente, observando os esforços inúteis dos visitantes que buscavam manter os pés secos. Que cuidado diante da morte!
No meio da poça, desencorajado, girei sobre os calcanhares, dei um grande e desajeitado salto e, com os pés molhados dentro dos sapatos amolecidos pela água, caminhei por terra firme cemitério adentro. Somente após algum tempo de caminhada apressada, como que atraído por uma meta, pela extensão aparentemente infinita do estranho campo-santo, fui, aos poucos, reencontrando minha calma. A ordem muda das lápides, antigas e desaprumadas companheiras arqueando-se em parte sobre restos mortais austríacos, obrigou meus passos a um ritmo mais sereno e meus pensamentos, a uma agitação menos instável. Passados dez minutos, braços cruzados às costas, eu já havia me familiarizado de tal maneira com a morte que, por fim, pude me sentar num minúsculo banco ao lado de um túmulo desgrenhado, com o intuito de fumar um cigarro. A chuva havia parado. Bem acima de mim e do pequeno túmulo, as nuvens, compelidas pelo vento e como que salpicadas de canela, formavam agora a figura bizarra de um urso ereto, as patas erguidas. À beira da lápide que guardava os restos de certa Martha Lunkewicz, cresciam cogumelos de uma espécie muito pálida, do tipo dos que eu conhecia dos cemitérios berlinenses, só que mais carnudos. Comestíveis ainda, mas não por muito tempo. Martha desencarnara em 1956 - ou fora desencarnada, difícil dizê-lo em se tratando do ano em questão. Estivera neste mundo por dezenove anos. Por que não haviam inscrito seu local de nascimento na lápide?
À parte minha clara consciência de nada ter a ver com aquele lugar, sentia-me bem, sentado naquele banco baixo e oscilante, cujos pés já se haviam fincado bem fundo na terra, ao passo que meus pés molhados repousavam sobre a hera manchada. Eu depositara o maço de cigarros sobre o túmulo, a pedra rabugenta parecendo ostentar agora um quepe vermelho, e apagara a bituca enterrando-a com cuidado na grama do chão. Talvez Martha e Maria tenham sido amigas. O pai de Martha talvez fosse polonês, membro do partido; a mãe, de Budapeste. Talvez fossem vizinhas, tendo tocado juntas. Martha, mais velha, num vestido de veludo desbotado da avó, um broche de brocado no peito, ao piano. Maria, de meinhas brancas com os lacinhos já frouxos, ao violino. Todas as terças e sextas das duas às quatro; mais que isso, os vizinhos não permitiam.
Muito concentradas, a despeito do piano desafinado; Martha, às vezes, com má vontade, quando a parceira mais jovem não conseguia manter o compasso. Bartók. Depois de tocar, as duas ficavam ainda um tempo à janela, contemplando em silêncio a rua. O que você está vendo?, perguntava Maria. Nada, vinha a resposta, não estou vendo coisa alguma. Quando terminar o conservatório, como você imagina que vai ser nossa vida? Vamos morar em Paris, Martha dizia, sem um carro com dois homens parado diante da porta, abrindo os vidros a cada oito minutos para jogar fora as bitucas. Por que os policiais vivem fumando?
Certa vez, surpreendi Maria olhando fixo pela janela de um hotel de Varsóvia, como que petrificada, o braço direito erguido em diagonal sobre a vidraça, a mão esquerda servindo de apoio no parapeito, o que fazia com que a arquitetura de seu corpo parecesse escorregar. Ao entrar, vi que ela chorava, porque a vidraça embaçava-se sob a cabeleira ruiva, desenhando um círculo de leite cujo raio aumentava e encolhia ao compasso da respiração. Quando me aproximei e perguntei o que tinha acontecido, apontou em silêncio para um carro do outro lado da rua, dentro do qual três fumantes baixavam os vidros bem naquele instante, atirando na rua as bitucas, que ainda soltaram minúsculas faíscas antes de se extinguirem na neve semiderretida. Minha infância - mais não foi possível arrancar dela.
Também Judit postava-se com freqüência à janela, olhando para fora, até mesmo enquanto falava comigo. Um magnetismo que as janelas exerciam, uma compulsão genética que a impelia à janela mesmo quando o inimigo já não estava sentado num carro lá fora fazia muito tempo, mas detinha-se agora às suas costas, no mesmo cômodo, a um respirar de distância. Se, à época áurea dos terríveis tormentos, alguém a observasse a partir da rua, postada à janela com os braços erguidos e o semblante desfigurado, talvez a tomasse por uma atriz dramática num ensaio de Medéia, ou simplesmente por louca. Quando, então, para espairecer por uns poucos segundos, Judit pressionava a testa ou a palma das mãos contra a vidraça, tinha-se ali a perfeita imagem de uma mulher trancafiada. Uma vez, ao brigar comigo, ela, ao compasso de sua raiva, batia com tanta violência contra a janela a capa de um CD com os concertos completos de Beethoven para piano que a vidraça estilhaçou-se à altura do rondó do Concerto no. 2.
Talvez, pensei comigo, sentado diante do túmulo da desconhecida Martha, talvez Judit tivesse sentido instintivamente que, em virtude da proximidade com a mãe - que não era senão uma dependência conduzindo por vezes a uma imitação que beirava o ridículo -, ela jamais seria capaz de atingir plenitude própria como artista. Permaneceria sempre a imitação perfeita, o duplo de uma mãe genial. Você não é a filha da Maria? Talvez sua pretensão hipocondríaca de arrastar justamente a mim para o interior de seu círculo nada mais fosse que a tentativa de escapar da sombra de Maria sem precisar apartar-se dela de fato, porque Judit tinha a profunda convicção de que eu próprio jamais teria coragem para desgarrar-me da corte de Maria, estivesse vivendo com outra mulher ou sozinho. Estava infectado. Uma infecção sem cura, para toda a vida. Talvez Judit acalentasse a esperança de, a meu lado, poder se esconder de Maria por um tempo. Por outro lado, era inteligente demais para joguinhos dessa natureza.
Pobre Martha Lunkewicz. Tinha de ouvir todas essas confusas reflexões de um homem carregado a despejá-las em sua tumba. E ainda não era tudo. Uma grande pergunta pairava sobre a vastidão geral das demais que eu tinha a responder: por que Judit escolhera justamente a mim? Deus sabe quantas outras figuras na vida de sua mãe poderiam se prestar àquele propósito. Maestros, pianistas, compositores, críticos - todos necessitados de cuidados contínuos numa cultura adoentada, indo chorar no ombro de Maria e deixando-se consolar por ela, todos famosos, imaturos, inacabados, gente que hoje, soberana, entusiasma as salas de concerto; estavam todos ali, à disposição dela, não há dúvida de que teriam adorado servir aos caprichos de Judit. Por que fora ela escolher justo alguém acometido pelo demônio do fracasso, tendo o juiz já aberto a contagem, alguém que enfim encontrara a paz, porque nada mais queria? De súbito, ocorreu-me que ela talvez procurasse alguém a quem impor o que entendia por vitória. Precisava de um perdedor para testá-lo, alguém que lhe seria fácil vencer. Sim, porque tinha necessidade de ganhar sempre. Se íamos juntos a um concerto e um conhecido qualquer deixava de cumprimentá-la, eu logo me sentava e punha-me a examinar o programa, ao passo que ela permanecia em pé entre as fileiras de assentos até ser reconhecida. No intervalo, enquanto eu ainda aplaudia, ela era a primeira a abrir caminho da sala de concertos ao hall, para que todos a vissem. E se, afinal, encontrava alguém ainda absorto no que acabara de ouvir, punha-se sem a menor cerimônia a atormentá-lo com sua opinião acerca dos músicos e da obra, até ouvir apenas e tão-somente palavras de concordância. Lembrei-me de um concerto de Stockhausen a que assistira com ela, uma obra desconjuntada, à qual nem mesmo os músicos mais valentes haviam conseguido dar um nexo. Não obstante, já no intervalo Judit havia conseguido reunir um jovem círculo ao nosso redor, ao qual explicava com voz excitada e gestos esvoaçantes por que razão aquilo que acabáramos de ouvir era uma obra-prima, e, de fato, nos quinze minutos que tinha à disposição, conseguira inflamar de tal maneira a atmosfera reinante que, ao final do concerto, músicos estupefatos foram brindados com aplausos frenéticos e, sem sombra de dúvida, assaz exagerados.De repente, o maço de Marlboro estava vazio. Riscara o fósforo e o tinha aceso entre os dedos, mas deixei-o cair sobre o túmulo de Martha Lunkewicz, onde um sibilo extinguiu-o de pronto. Descanse em paz. Um sol tímido, mas capaz ainda de aquecer um pouquinho, abrira caminho entre as nuvens. Ao me levantar, ouvi estalar minhas juntas. Um velho ao lado de um túmulo estranho num cemitério de Budapeste. Com excessivo cuidado, abotoei o casaco, curvei-me um pouco sobre o túmulo cuja inquilina se transformara em testemunha de um singular autoquestionamento, o qual, no entanto, não conduzira a lugar algum. Eu precisava reviver aquela história toda, dia após dia, em busca da solução para o mistério. Tinha de haver uma chave.
Quando me virei, vi por entre as ralas árvores e arbustos um cortejo fúnebre vindo em minha direção. Só podia ser ela. Um enxame de abelhas negras seguindo um caixão adornado com flores, carregado por um pesado carro de madeira. Eu podia ouvir o cascalho sendo triturado pelas rodas. Ergui apressado a gola do casaco, enfiei no bolso o maço de cigarros vazio e parti na direção oposta à dos enlutados, rumo à saída. Estava no lugar errado, não havia dúvida. Em pé, diante da entrada do cemitério, estava o taxista, o cigarro fumegante no canto da boca, a impigem vermelha como sangue reluzindo à luz pálida do sol.

Tradução: Sérgio Tellaroli
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