Excerto da obra

A máquina de xadrez

O jogo terminou com um empate e dois perdedores, ou melhor, com dois vencedores, já que os aplausos para o barão János Andrássy e para o turco do xadrez de Kempelen foram ensurdecedores. Até mesmo aqueles que não conheciam bem as regras do jogo compreenderam instintivamente que jogadas tinham sido boas ou ruins para o seu favorito, e todos no salão aplaudiam quando Andrássy tirava uma figura branca do tabuleiro e gemiam quando o turco se vingava. Algumas damas ¬chegaram a se retirar do salão durante o jogo para poupar os nervos. Outras se refugiaram na varanda aberta. Tinha sido uma partida sangrenta! A cada dois lances caía uma peça de um dos dois lados. E como Andrássy desafiava o turco com o olhar! Apesar de estar sentado numa mesa separada, o hussardo olhava para os olhos falsos do andróide depois de cada jogada, e seus lábios, sob o bigode preto, esboçavam um sorriso, que não tinha nada de superioriedade nem de reconhecimento.
— A Áustria contra os turcos — murmurou Nádasdy-Fogáras, sem se dirigir a ninguém em especial —, o imperador contra o sultão, isto é uma segunda batalha de Mohács.
Andrássy levantou-se ainda enquanto o público aplaudia e se dirigiu à mesa do turco. Antes que Kempelen conseguisse impedi-lo, ele segurou a vulnerável mão esquerda do turco, sacudindo-a com suas duas mãos.
— Voltaremos a nos encontrar, meu amigo — disse ele. — Este não terá sido o nosso último duelo.
O príncipe Grassalkovich agradeceu a Kempelen não só pela sensacional apresentação, como também por ele ter regulado o mecanismo do seu autômato de forma a que ele conseguisse tão-somente um empate, não derrotando Andrássy.
Então o príncipe dirigiu a palavra aos seus convidados.
— Mesdames et messieurs, duque Albert, duquesa Christine, meus queridos convidados! Pelo visto, esta noite nos brindou com duas novas estrelas no firmamento: o barão Andrássy, que conseguiu infligir um memorável empate à invencível máquina do xadrez, fascinando-nos durante uma hora inteira com o seu jogo corajoso. — Andrássy recebeu os aplausos com a mão erguida. — E, naturalmente, o homem que permitiu que um monte de rodas e cilindros nos arrancasse o suor da testa e nos deixando em dúvida se somos realmente a coroa da criação ou se os autômatos a estariam disputando: o barão Wolfgang von Kem¬pelen, o mecânico mais habilidoso do nosso reino. Ou melhor: do mundo inteiro. Ele pode ficar tranqüilo no que diz respeito à imortalidade do seu nome!
Andrássy coroou seu aplauso berrando:
— Viva!
— Devo acrescentar — prosseguiu Grassalkovich depois que os aplausos diminuíram — que se tratava, até então, de um funcionário exemplar da minha Câmara Húngara. Como eu poderia saber que o senhor estava destinado a coisas maiores, se nunca me falou nada a respeito?
— Perdão, meu príncipe — respondeu Kempelen, sorridente, fazendo uma reverência.
O príncipe retirou a cobrança com um gesto.
— O senhor estará perdoado, meu bom Kempelen, se me prometer que vai continuar nos provendo com máquinas tão capazes. Pois estou convencido de que esta máquina é apenas a primeira de muitas. Leibniz nos deu a máquina que calcula, Kempelen a que pensa! Na minha opinião, muito poucos compreenderam o significado disso para o mundo. O jogo de xadrez é tão-somente um campo de provas. Tentemos imaginar as inúmeras possibilidades de utilização de máquinas pensantes: na administração… nas finanças… nas fábricas; e por que não no campo, e até mesmo na guerra? Eu digo: construa centenas de soldados mecânicos, barão de Kempelen, e mande-os no lugar dos nossos filhos para o combate. Eles não precisam de descanso nem de comida, desconhecem o medo, não cometem erros e sangram somente óleo! Vamos fabricar um exército de autômatos. Com ele, expulsaremos o Fritz novamente da Silésia e mandaremos os turcos de uma vez por todas de volta para o Bósforo! — Aqui Grassalkovich virou-se para o turco do xadrez e acrescentou, para gáudio de todos:
— Você pode ficar, naturalmente.

Tradução: André del Monte e Kristina Michahelles
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