Como o soldado conserta o gramofone
Quanto tempo precisa uma parada do coração para percorrer cem metros, quanto pesa uma vida de
aranha, por que o meu Triste escreve junto ao rio cruel
e do que o camarada-chefe
do inacabado é capaz como mágico.
Vovô Slavko mediu minha cabeça com a corda de estender roupas de vovó, euganhei um chapéu de mágico, um chapéu de mágico pontudo feito de cartolina, e vovô Slavko disse: na verdade eu ainda sou jovem demais e tu já estás demasiado velho para uma bobajada dessas.
Ganhei um chapéu de mágico com estrelas amarelas e azuis, elas arrastavam caudas amarelas e azuis e eu ainda acrescentei, recortando com uma tesoura, uma pequena lua crescente e dois foguetes triangulares, um deles pilotado por Gagárin, o outro por vovô Slavko.
Vovô, não vou ter coragem de sair para a rua com esse chapéu!
É o que eu espero!
Na manhã do dia em cuja noite acabou morrendo, vovô Slavko esculpiu uma varinha de condão para mim usando um galho de árvore e disse: tanto no chapéu quanto na varinha existe um poder mágico, se tu usares o chapéu e carregares a varinha, vais te tornar o mais poderoso mágico de capacidades entre os países que não fazem parte do bloco. Poderás revolucionar muitas coisas, na medida em que isso estiver em conformidade com as ideias de Tito e concordar com os estatutos da Aliança dos Comunistas da Iugoslávia.
Eu duvidava da magia, mas não duvidava do meu avô. A graça mais valiosa é a inventividade, a maior riqueza é a fantasia. Guarda isso, Aleksandar, disse vovô com seriedade, enquanto botava o chapéu em mim, guarda isso e imagina um mundo mais bonito. Ele me entregou a varinha. Eu não duvidava de mais nada.
É normal que de vez em quando a gente fique triste por causa dos falecidos. Entre nós, isso acontece quando domingo, chuva, café e vovó Katarina acabam se juntando. Nesses momentos, vovó sorve o café de sua xícara preferida, a branca, de alça lascada, chora e se lembra de todos os mortos e das coisas boas que eles fizeram antes de a morte se intrometer. Hoje, família e amigos vieram à casa de vovó, porque queremos nos lembrar de vovô Slavko, que há dois dias está provisoriamente morto, e assim continuará enquanto eu não reencontrar minha varinha de condão e meu chapéu de mágico.
Ainda não morreram na minha família: minha mãe, meu pai e os irmãos de meu pai - tio Bora e tio Miki. Nena Fatima, a mãe de minha mãe, ainda está muito bem, nela morreram apenas os ouvidos e a língua - ela é surda como um canhão e muda como neve caindo. É o que dizem. Tia Gordana também ainda não morreu, ela é a mulher de tio Bora e está grávida. Tia Gordana, uma ilha loura no mar de cabelos negros da nossa família, é chamada por todos de Tufão, porque ela vive quatro vezes mais vívida do que qualquer pessoa normal é capaz de viver, corre oito vezes mais rápido e fala catorze vezes mais ligeiro. Ela percorre até mesmo o espaço entre o vaso sanitário e a pia do banheiro na corrida, e na caixa da loja em que faz suas compras já calculou o preço certinho antes mesmo de a moça começar a digitá-Io.
Todos vieram por causa da morte de vovô Slavko, mas falam sobre a vida no ventre de titia Tufão. Ninguém duvida que titia dará seu filho à luz mais tardar no domingo, no máximo segunda-feira, com meses de antecedência, mas prontinho como se já estivesse no nono. Eu sugiro que o bebê receba o nome de Speedy Gonzales. Titia Tufão sacode seus cachinhos louros: somosmexicanosporacaso? Vaisêumameninanãoumcamundongo! EvaisechamarEma.
E Slavko, acrescenta tio Bora em voz baixa, Slavko se for um menino. O amor por vovô Slavko hoje é grande e pode ser encontrado em toda parte, entre os que vestem preto, que tomam café na casa de vovó Katarina e olham furtivamente para o sofá, no qual vovô estava sentado quando Carl Lewis bateu o recorde mundial, em Tóquio. Vovô morreu em 9 segundos e 86 centésimos, seu coração correu cabeça a cabeça com Carl Lewis - o coração parou enquanto Carl ainda corria como um louco. Vovô arquejou e Carl lançou os braços para o alto e jogou uma bandeira americana sobre os ombros.
Os convidados em luto trouxeram bombons e açúcar em cubinhos, conhaque e aguardente. Eles queriam adoçar o luto de vovó com doces e beber contra o que eles mesmos estavam sentindo. O luto masculino cheira a loção de barba. Ele está parado em pequenas rodas na cozinha e se embebeda. O luto feminino está sentado com vovó à mesa da sala, sugere nomes para a nova vida no ventre de titia Tufão e discute a posição mais saudável para dormir nos primeiros meses. Quando o nome de vovô é dito, as mulheres estão sempre cortando bolo e oferecem fatias umas às outras. Botam açúcar no café e o mexem com colheres que parecem talheres de brinquedo.
Mulheres sempre elogiam bolos.
Bisavó Mileva e bisavô Nikola não estão aqui, porque o filho deles vai visitá-Ios, em Veletovo, porque ele tem de ser enterrado na aldeia em que nasceu. O que uma coisa tem a ver com a outra, eu não sei. Todo mundo deveria poder morrer no lugar em que viveu muito e gostou de viver. Meu pai, debaixo do porão, que ele chama de "o ateliê", e que ele raras vezes abandona, coberto por suas telas e seus pincéis. Vovó pouco importa onde, contanto que as vizinhas estejam por perto e haja café e bombons. Bisavó e bisavô em seu jardim de ameixeiras, em Veletovo. Onde é que minha mãe ficou muito e gostou de ficar?
Vovô Slavko nas melhores histórias ou debaixo do escritório do partido. Eu talvez ainda consiga aguentar mais dois dias sem ele, até lá meus apetrechos de mágica haverão de reaparecer.
Eu me alegro com o fato de poder voltar a ver bisavô e bisavó. Desde que presto atenção nisso, eles jamais tiveram cheiro doce, e em média devem ter uns cento e cinquenta anos. Apesar disso, eles são os menos mortos e os mais vivos de todos na minha família, não contada titia Tufão, mas ela não vale, porque ela não faz parte dos seres humanos e sim das catástrofes naturais e tem uma hélice no traseiro. É o que diz tio Bora às vezes, beijando as costas de sua catástrofe natural.
Tio Bora pesa tanto quanto meus bisavós têm em idade.
Quem também ainda não morreu na minha família é vovó Katarina, ainda que ela, na noite em que o coração grande de vovô foi vitimado pela doença mais rápida do mundo, tivesse desejado morrer se queixando assim: sozinha, o que eu farei sem ti, sozinha eu não quero continuar, Slavko, meu Slavko, ai de mim!
Mais do que da morte de vovô, eu sentia medo daquele luto gigantesco a arrastar seus joelhos protagonizado pela minha avó, sozinha, como vou poder viver sozinha! Vovó batia contra o peito e implorava, aos pés de vovô morto, para não continuar vivendo sem ele. Eu só conseguia mais respirar se fosse rapidamente, e mesmo assim com dificuldade. Vovó estava tão fraca que eu tinha a impressão de que o corpo dela cairia ao chão e ali ficaria, totalmente mole, mole e redondo. Na televisão, uma mulher grande pulava na areia e se alegrava com isso. Aos pés de vovô, vovó gritou chamando os vizinhos, eles desabotoaram a camisa dele, os óculos de vovô resvalaram, sua boca estava torta - e eu recortei, como sempre fazia quando não sabia mais o que fazer, pequenas figurinhas de papel, mais estrelas para o meu chapéu de mágico. Apesar do medo, e tão pouco tempo depois de uma morte, eu via que o cachorro de porcelana de vovó havia caído de lado em cima da televisão, e que os pratos com as espinhas de peixe da noite passada continuavam sobre a toalha de mesa de crochê. Eu ouvia cada uma das palavras dos vizinhos perambulando pela casa e entendia tudo apesar dos gemidos e lamentos de vovó. Ela se agarrava às pernas de vovô, vovô escorregava para a parte da frente do sofá. Eu me escondia no canto, atrás da televisão. Mas mesmo atrás de mil televisões eu não teria conseguido me esconder do rosto desfigurado de vovó, nem de vovô virado, quase caindo do sofá, nem do pensamento de que meus avós jamais haviam sido tão feios quanto agora.
Eu bem que teria gostado de colocar minha mão nas costas tremelicas de vovó - sua blusa estaria molhada de suor - e dito: vovó, não! Tudo vai ficar bem. Vovô é do partido, e o partido está em acordo com os estatutos da Aliança dos Comunistas, eu só não estou conseguindo encontrar minha varinha de condão. Tudo vai ficar bem de novo, vovó.
Mas a loucura triste dela me deixava mudo. Quanto mais alto ela berrava, me deixem!, tanto mais desanimado eu ficava em meu esconderijo. Quanto maior era o número de vizinhos que se desviava de vovô para se voltar à vovó, tentando consolar a inconsolável, como se estivessem lhe vendendo algo de que ela não precisava de forma alguma, tanto maior era o pânico com que ela se defendia. Quanto mais lágrimas cobriam suas faces, sua boca, seus lamentos e seu queixo assim como o óleo cobre o fundo de uma frigideira, tanto mais detalhes eu recortava da sala: a estante de livros com Marx, Lenin, Kardelj, à esquerda, embaixo, O capital, o cheiro de peixe, os ramos no papel de parede, quatro gobelinos - crianças brincando numa rua de aldeia, flores coloridas num vaso de flores colorido, navio em mar soçobrante, casinha na floresta -, uma fotografia de Tito e Gandhi, que se dão as mãos em cima do navio e da casinha, e a frase: como vamos conseguir livrá-Ios dele?
O número de pessoas que chegavam aumentava, um roubava o lugar do outro como se fosse necessário recuperar algo ou pelo menos não perder mais nada e se mostrar o mais vivo possível nas proximidades de uma morte. A morte demasiado rápida de vovô incomodava os vizinhos ou fazia com que voltassem os olhos para o chão, conscientes de sua culpa. Ninguém conseguira acompanhar o coração de vovô, nem vovó, ai de mim, por que, por que, por que, Slavko? Teta Amela do segundo andar desceu, alguém berrou: pelo sagrado coração de nosso senhor Jesus!, e outro imediatamente amaldiçoou a mãe de Jesus, acrescentando alguns outros membros da família. Mamãe puxava nas calças de vovô, batia tentando acertar os dois enfermeiros que apareceram na sala com suas maletas, tirem as mãos daí!, ela gritava. Os enfermeiros vestiam camisas de lenhadores debaixo de seus aventais e afastaram vovó das pernas de vovô, como se arrancassem um mexilhão da pedra. Vovô só viria a morrer para vovó quando ela enfim o largasse. E ela não o largava. Os de avental branco auscultaram o peito de vovô, um deles segurou um espelho diante de sua boca e disse: nada.
Eu gritei dizendo que vovô ainda estava aqui, e que sua morte não estava em conformidade com os objetivos da Aliança dos Comunistas. Saiam do caminho, tragam minha varinha de condão e eu vou prová-Io a vocês!
Ninguém me deu atenção. Os enfermeiros-lenhadores reviraram a camisa de vovô e iluminaram seus olhos com um bastão. Eu puxei o cabo de energia e a televisão emudeceu. No canto ao lado da tomada havia fios de teia de aranha soltos. Quanto mais leve do que a morte de um homem é o peso da morte de uma aranha? Qual a perna de seu marido que a mulher-aranha abraça quando ele morre? Eu me propus a jamais voltar a trancar aranhas em garrafas para depois encher as garrafas com água aos poucos.
Onde estava minha varinha de condão?
Eu não sei quanto tempo fiquei parado a um canto antes que meu pai me pegasse pelo braço como se estivesse me levando preso. Ele me entregou a minha mãe, ela me arrastou pelas escadarias até o pátio. O ar cheirava a mira belas maceradas, no morro Megdan os fogos dos camponeses fazendo aguardente queimavam. Do Megdan, pode-se ver quase a cidade inteira, talvez até o pátio do prédio grande de cinco andares, para Visegrad ele já é um arranha-céu, no qual uma jovem mulher de cabelos longos e negros e olhos castanhos se curva em cima de um garoto de cabelos da mesma cor e de olhos amendoados como os dela. Ela soprou as mechas de sua testa, seus olhos se encheram de lágrimas. O que ela sussurrou ao garoto não pode ser ouvido no Megdan. Provavelmente também não podia ser reconhecido que o garoto, depois que a mulher o abraçou e o segurou por muito, muito tempo, assentiu. Como se assente quando se promete algo.









