Excerto da obra

O colecionador de mundos

O British Hotel em Bombaim não se parecia em nada com o hotel Britain em Brighton. Em Bombaim, exigia-se mais dinheiro por menos conforto; o hóspede tinha de sair à cata de cama, mesa e cadeira. Em Brighton, nenhum cadete bêbado de cabelo eriçado e hálito pútrido subia numa cadeira à noite para, por cima da parede de musselina, encarar boquiaberto os vizinhos de quarto. Burton, depois de horas sem conseguir pegar no sono, empurrou o mosquiteiro para o lado e arremessou no cadete o primeiro objeto que encontrou embaixo da cama. O projétil acertou-o bem no meio da cara. O cadete caiu da cadeira e praguejou baixinho, até que uma vela se acendeu e um grito ecoou: reconhecera o objeto, uma ratazana que Burton esmagara pouco antes com a bota. Somente a parede de tecido protegia o franzino cadete de suas próprias ameaças. Burton tornou a enfiar a mão embaixo da cama e retirou dali uma garrafa de brandy. Calangos davam sorte, ratazanas eram odiadas. Os calangos pendiam da parede como miniaturas coloridas. As ratazanas se escondiam. Às vezes, em vão.
Seu vizinho do outro lado era um enfermeiro militar em sua primeira missão. Sentado no parapeito da janela, contemplava o mar. Fitou-o tão longamente até o vento soprar-lhe no rosto. Atenção!, gritou para todo o salão, começou a soprar o assado indiano!, e seu grito desceu pela escadaria estreita e foi dar na testa do parse que, servil em demasia para com os hóspedes, cochilava. Fechem os olhos e as escotilhas. O parse abriu os olhos e sacudiu a cabeça, mal-humorado. Os malditos ghoras só suportavam a vista com o vento a favor.
O enfermeiro recusou-se a acompanhar Burton até o local de cremação. Devemos nos proteger da falsa sede de conhecimento, explicou ele, discípulo da pregação paterna recém-emancipado dos cuidados da mãe. Burton tentou entoar um canto de louvor à curiosidade, mas logo percebeu a pouca acolhida reservada a suas experiências anteriores — a infância na Itália e na França, como filho de um homem irrequieto, o período de internato na suposta terra natal. De todo modo, o enfermeiro deixou-se persuadir a ir além de Carnac Road, a fronteira entre o cérebro e os intestinos do Império, como Burton descobriu já ao primeiro jantar, na companhia de cavalheiros que administravam presunçosamente distritos inteiros, filhos de merceeiros do interior da Inglaterra, descendentes de oficiais de justiça, gente que era carregada por mãos pagãs da sombra ao frescor, mais rica e mais poderosa do que jamais imaginara ser, até mesmo em seus sonhos mais atrevidos. Suas esposas traçavam meticulosamente o mapa dos preconceitos vigentes. Cada uma de suas frases era uma espécie de placa de alerta, emoldurada com um Preste atenção, meu jovem! Haviam procedido a um mapeamento extensivo e agora tinham certeza das palavras que se aplicavam à Índia. O clima era “fatal”; a criadagem,“limitada”; as ruas, “pútridas”; e as mulheres indianas, tudo isso ao mesmo tempo, razão pela qual, preste bem atenção, meu jovem!, devem ser evitadas a todo custo, ainda que certos maus costumes tenham se estabelecido nos últimos tempos, como se fosse demasiado exigir de nossos homens um pouco de moral e de autocontrole. O melhor mesmo — e o cavalheiro não ouvirá conselho mais sincero —, o melhor mesmo é manter-se distante de tudo quanto for estrangeiro!
O calor apinhado das ruas. A cada passo, um contato. Burton via-se a todo momento obrigado a saltar para o lado, com a atenção voltada para carregadores, arrastadores e empurradores. Visíveis naquele mar de gente eram apenas as cargas, blocos grandes demais flutuando e oscilando sobre as ondas de cabeças a balançar. Lojas de trapos velhos. Oficinas e mais oficinas, todas iguais. Comerciantes sobre esteiras abanando o vento; atrás deles, entradas estreitas conduziam a cavernas barrigudas como a rotina, infestadas de mosquitos. Burton precisava quase implorar para que lhe vendessem alguma coisa, e, quando se dignavam a fazê-lo, ofereciam-lhe a pior qualidade disponível em estoque, juravam a excelência da mercadoria, pela qual empenhavam palavra de honra, até que ele aceitasse comprar o pequeno punhal ou a divindade de pedra. Depois, tinha início o cabo-de-guerra em torno do preço, acompanhado de novos suspiros e de novas caretas.
Você fala bem o dialeto desses sujeitos, notou o enfermeiro com uma ponta de censura. Burton riu: As damas de ontem teriam ficado horrorizadas. Na certa, acreditam que compartilhar uma língua é o mesmo que compartilhar uma cama. A Cidade Negra. De súbito deparam com um templo, uma mesquita salpicada de cores diversas, mas de ornamentação monocromática. O enfermeiro ficou enojado com a deusa deformada e sua cabeça grotesca, bem maior que o corpo. Alegre-se com a surpresa: seja como for, é a padroeira desta cidade que abriga tantas línguas, embora a deusa em si seja muda. Passaram, então, por uma tumba. Ao lado do corpo, coberto por um tecido verde bordado, clavas pendiam da parede. O instrumento mágico do santo Baba, explicou-lhes um guarda, cabaças africanas. Leprosos e cães intocáveis. Os membros murchos dos pedintes recobertos de cor sagrada; uma vaca disforme vagava por perto, a quinta pata, curta, pintada de laranja; um pouco mais adiante, um homem sem braços nem pernas sobre uma manta no meio da ruela que conduzia à entrada posterior da Grande Mesquita; em torno dele, moedas esparramadas como pústulas de varíola desprendidas. Um homem nu de pele escura detinha o tráfego. Dos pés à cabeça, estava lambuzado de gordura e, na altura da testa, tinha um lenço vermelho amarrado em torno da cabeça. Na mão, segurava uma espada. Uma enorme multidão reuniu-se em torno de seus gritos infundados. Mostrem-me o caminho correto, o homem gritava, e alçava a espada pelo ar. Um senhor mais velho ao lado de Burton murmurou algo que soou como a inerte monotonia de uma prece, enquanto o homem nu brandia a espada como se fosse um chicote, e a multidão foi pouco a pouco se transformando em sua inimiga. O que está acontecendo aqui, eu não entendo, o que é que há? O enfermeiro acocorou-se atrás de Burton. Com a espada estendida à frente, o homem começou a girar em círculos sibilantes, até que tropeçou, a espada escapou-lhe, algumas pessoas na multidão precipitaram-se sobre ele e puseram-se a socá-lo e pisoteá-lo. Não vá se meter, implorou o enfermeiro: você é grande, talvez seja forte também, mas não pode com estes selvagens. E se o matarem? Não é da nossa conta! Duas monções, Dick, disse o enfermeiro no caminho de volta: é a expectativa média de vida de um recém-chegado. Não se preocupe, Burton o consolou. Com certeza, isso só vale para os que vivem com excesso de cautela e morrem de obstipação. Obstipação?, murmurou o enfermeiro. Para isso, não estou nem um pouco preparado.

O CRIADO
Ninguém procuraria o lahiya àquela hora. Não naquele mês de seca. No templo, estariam de novo suplicando aos deuses por chuva, mas ele, o que tinha ainda a prometer a Ganesh? Na verdade, já podia desmontar suas tendas, fechar o escritório, escapar àquela poeira, mas sua cama fica demasiado longe. Papel e pena estão a postos. Ainda que ninguém vá procurá-lo. Não àquela hora do dia, não naquele mês seco. Para o sono do meio-dia, falta-lhe o sossego apropriado. Acostumou-se a não perder de vista os outros escrivães — aqueles chacais. E a ver como se digladiam pelos fregueses, tão logo um dobra a esquina — como testam sua insegurança, até que ele por fim se senta e solicita o serviço como se o suplicasse. Nunca vai notar como foi enganado por aqueles patifes sem honra. Quanto a ele, ainda o respeitam, ainda o temem um pouco. Não saberia dizer o que têm a temer, mas sua voz, mais firme que o corpo, os mantêm a distância. Em suas próprias forças, ele pode confiar: na aparência distinta, em sua reputação, na idade digna de respeito. Aquela hora do dia, aquela estação do ano, são desesperadoras. A Terra se aquece e nada se move. Ele estica as pernas. O calor se derrete na rua. Gruda nos cascos do boi que se recusa a ir adiante. Cansado, o condutor castiga o animal, um passo por golpe rumo ao fim do caminho. Aquele homem ali, no meio da rua, será um freguês? Logo o espiam de todos os lados, um homem alto, um pouco curvado, que baixa e levanta a cabeça e cujo corpo não oferece resistência às muitas mãos que o puxam. Parece ter fincado raízes no chão. Agora, levanta a cabeça. Um dos chacais desgarra-se do bando; outros o seguem. Desistem do homem, cuja altura suplanta a deles todos. O lahiya vê que os outros escrivães o apontam com seus dedos sabidos. O homem alto caminha em sua direção, o rosto marcado por orgulho obstinado e por um bigode ralo e grisalho. O lahiya sabe que, dessa vez, os demais escrevinhadores ficarão de mãos abanando, embora amarrem seus dhotis com indolência e comportem-se como se o mundo não lhes ocultasse segredo nenhum. Decerto, aquele homem quer alguma coisa que somente o velho lahiya lhe pode dar.
— Cartas às autoridades do Império Britânico são minha especialidade. — Não é uma carta comum...
— E também à Companhia das Índias Orientais.
— Mesmo a oficiais?
— Perfeitamente.
— Não se trata de carta formal.
— Escrevemos o que o senhor desejar. Mas certas formalidades devem ser observadas. Os cavalheiros insistem nessas formalidades. O menor erro de construção, o mais insignificante deslize no tratamento, e a carta não valerá um centavo. — Há muito que explicar. Assumi tarefas que nenhum outro...
— Seremos tão minuciosos quanto exija a ocasião.
— Fiquei ao lado dele por muitos anos. E não apenas aqui, em Baroda: acompanhei-o, quando foi transferido...
— Eu compreendo.
— Servi-o fielmente.
— Sem dúvida.
— Sem mim, estaria perdido.
— É claro.
— E o que recebi em troca?
— A ingratidão é a recompensa dos nobres.
— Salvei a vida dele!
— Permita-me perguntar a quem a carta deve ser dirigida?
— A ninguém.
— Ninguém? Seria incomum.
— A nenhuma pessoa em particular.
— Entendo. O senhor pretende fazer uso múltiplo da carta?
— Não. Ou melhor, sim, isso mesmo. Não sei a quem entregá-la. Todos os angrezi da cidade o conheceram, isso já faz muito tempo, tempo demais, talvez, não sei, alguns ainda estão em Boroda, com certeza. Ainda agora de manhã vi o tenente Whistler. Passou por mim em seu coche, um desses coches novos, com meia capota de couro, um belo carro. Quase me atropelou. Reconheci o tenente Whistler de imediato. Esteve conosco algumas vezes. Corri atrás do coche, que haveria de parar logo. Perguntei ao cocheiro.
— E?
— Não, ele disse, este é o carro do coronel Whistler. Não me enganei. Meu senhor fazia piada com o próprio nome.
— Escrevemos, portanto, ao coronel Whistler!
A fim de demonstrar solicitude, o lahiya abre o vidrinho de tinta, toma a pena na mão, mergulha-a no frasco, rabisca para experimentá-la, debruça-se para escrever algumas linhas e, então, se detém. A poeira levantada pelo recém-chegado assentou-se. Da parca luz à qual o lahiya já não deseja nem sequer piscar, a voz vacilante começa a narrar. Suposições transformam-se em sugestões, as sugestões vão desenhando silhuetas, e das silhuetas surgem pessoas; desconhecidos tornam-se seres humanos dotados de nome, qualidades e rostos. O lahiya segura a pena com firmeza entre os dedos, mas não vê nem começo nem fim na história de vida que o homem lhe conta. Não tem sentido registrar contornos tão confusos.
— Escute, meu senhor. Dessa forma, não chegamos a lugar nenhum. Exponha-me primeiramente alguns pensamentos, algumas notas, um esboço, e eu lhe farei sugestões de como poderemos dar forma a esta carta.
— Mas... Preciso saber quanto vai custar.
— O senhor me paga duas rúpias, naukaram-bhai. Depois, avaliaremos o custo apropriado.

Tradução do Sérgio Tellarolli.
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