Excerto da obra

A menina sem qualidades

A fada de gelo em seu banho noturno

Nada indicava que seria em uma quinta-feira. Longe das ocorrências regradas das cidades, longe do cotidiano escolar, do jornal matutino e das notícias televisivas à noite, os nomes dos dias da semana perderam sua importância com tanta velocidade, que todo mundo se perguntava se eles algum dia tiveram o direito de carregar a designação pela qual eram conhecidos. O tempo saltava para fora de seu corpete, se estendia e se esticava conforme a vontade, e fazia com que a suposição de que haviam chegado a Dahlem havia apenas um dia e meio parecesse apenas um truque tolo-insolente da capacidade de recordação. Em tempo sentido, haviam passado duas semanas desde a chegada, e Ada já começava a considerar sua vida comum algo indigno de crédito. Com um pouco mais de experiência, ela teria reconhecido na pronta perda de plausibilidade da própria origem, um talento bem atual para a vagabundagem. Mas, sendo como era, ela considerou o efeito uma consequência da solidão inabitual entre pessoas, que se caracterizava, diante da habitual solidão sem pessoas, pelo gasto de energia sensivelmente mais alto.
Por volta das 10 horas da noite, Smutek finalizou os preparativos para um passeio fictício pela cidade de Viena. Nas diferentes salas da casa, grupos de alunos preparavam a apresentação de lugares turísticos e, oximoro aqui e lá, de importantes acontecimentos históricos, pintavam paredes, ensaiavam cenas dramáticas, colavam fotos e cartões-postais nos tabiques. Ada havia pedido, devido à falta de capacidade para o trabalho em grupo, para decorar um trecho de Musil e apresentá-Io. Quando Smutek dispensou os alunos com voz alegre e movimentos generosos das mãos, ainda se revolvia dentro dela um rolo de pensamentos não pensados até o final, de modo que a expectativa de passar a noite seguinte entre cápsulas humanas de conteúdo desconhecido lhe parecia insuportável. Sem que alguém a visse, ela chegou ao haIl de entrada, calçou os tênis e fugiu para a liberdade.
O ar noturno estava fresco e claro como a água. A fim de não se perder, Ada foi pelo caminho que já percorrera na excursão durante o dia. Ela respirava profundamente, inspirando pelo nariz e expirando pela boca, e a floresta inteira com seus habitantes em pele e couraça, com sua neve asperamente congelada, suas plantas encurvadas, seu musgo esponjosamente úmido e suas cascas de árvore amolecidas ficou registrada em sua língua como um gosto peculiar. A lua fazia sua própria sombra se adiantar ao papel de batedora. Depois de alguns minutos, Ada sentiu que o calor vindo de dentro a aquecia, uma nuvem de vapor a envolvia, a terra se mostrava flexível, as árvores à beira do caminho se dissolviam em massas negras, se aproximavam umas das outras e se davam as mãos lá em cima até obscurecer a lua. Atrás de Ada a escuridão se fechou em paredes à prova do olhar.
Quando uma clareira se abriu a sua direita, ela diminuiu o ritmo e por fim parou. Durante o passeio do dia, ela havia visto o lugar da estrada e imaginado como seria vir à noite até ali. O cenário estava como que pronto para as cenas de um filme de fantasia, um ponto de encontro para lobo e coelho se aconselharem acerca da essência das coisas, um gramado seguro para os filhos de elfos, além do alcance de seus pais, palco para a apresentação de fontes falantes e cogumelos pensantes de grandes chapéus marrons. A relva era baixa como se fosse cortada regularmente. No meio, havia um pequeno lago do tamanho de um campo de hóquei, envolto por árvores paradas em grupinhos como times discutindo suas estratégias para os próximos minutos do jogo. A superfície do lago estava congelada e pálida e coberta de neve. Ada atravessou a vala ao lado do caminho e arrancou os espinhos dos ramos secos de amora que haviam se prendido a sua roupa com tanto cuidado como se eles fossem as mãos de seres minúsculos. Percorrendo a clareira em diagonal, ela seguiu um rastro pouco nítido, que de primeiro considerou ser o da trilha pouco visitada de animais selvagens, e de súbito se viu diante de um espetáculo que penetrou na central de comandos de seu sistema nervoso e a pôs totalmente fora de combate por vários segundos. Impossível chegar a um pensamento, quanto mais encaminhar um movimento. Ela estava em pé, silenciosa, no prado iluminado pela lua, e olhava. E não estava sozinha. A segunda pessoa estava no lago, generosamente emoldurada pelas bordas de um buraco em forma de estrela. Ela apoiava os braços sobre a beirada da cobertura de gelo como se fosse o parapeito de uma janela, e tinha o corpo imóvel pendurado na água. Ada viu a natureza do perfil, percebeu que ele mantinha os olhos abertos e dirigidos ao vazio, e acreditou perceber um sorriso ... As comissuras da boca estavam nitidamente viradas para cima. Ela havia surpreendido uma fada de gelo em seu banho noturno.
Quando passou o tempo necessário ao juízo e aos sentimentos para chegarem a um acordo em momentos de choque, Ada reconheceu a linha reta de rastros de pés sobre o gelo coberto de neve. As quinas denteadas do buraco haviam sido originadas por diversas tentativas de se alavancar para fora da água, apoiando os braços ao gelo, que a cada tentativa voltara a quebrar. Com poucos passos, Ada chegou à margem e chamou a sílfide. Nem o menor reflexo de algum movimento se desenhou no rosto branco, demoniacamente aberto em um sorriso da Sra. Smutek.
Enquanto Ada tirava casaco e pulôver e desatava os cadarços de seus tênis, refletiu se era Deus ou o Diabo que a obrigavam a pular para dentro da água congelada sob uma temperatura negativa. Além de medo e excitação, e um coração que se debatia duramente contra as paredes de sua caixa torácica, Ada sentia uma espécie de entusiasmo, que apenas o Diabo poderia ter originado. A situação bem logo e de forma indubitável a coroou déspota de seu Estado-Eu. Suas ordens, ela as deu agudas e inequívocas, tirar os tênis, manter a calça, respirar vagarosamente, e ela constatou satisfeita que o corpo, igual a um soldado bem treinado, correu ao encontro do perigo sem titubear. Deus teria recomendado utilizar um ágil par de pernas para voltar correndo ao albergue a fim de buscar ajuda, e Deus, como sempre, teria chegado tarde demais. Ada se jogou ao chão, rolou como um cãozinho novo o corpo quente sobre a neve, a fim de amenizar o pavor térmico que teria diante de si, se colocou de pé, saltitou algumas vezes sem sair do lugar e correu pela margem íngreme do lago e depois sobre o gelo.
Já depois de 2 metros, sentiu que a dureza da cobertura sob seus pés cedia.
A Sra. Smutek havia adentrado a poça pelo outro lado, pesava menos e havia chegado bem mais longe. A velocidade conseguiu carregar Ada mais alguns passos sobre o fundamento a se estilhaçar, depois o gelo se rompeu definitivamente e ela afundou. A água a recebeu com choques elétricos por todos os lados; impossível decidir se ela estava fervendo ou se era fria, e essa incerteza era mais fácil de ser suportada do que o choque térmico que ela havia esperado. Ada ainda sentia o fundo do lago sob os pés, mas saltitou e se jogou algumas vezes com o tronco contra a superfície a estalar e a cantar, que cedia de imediato e depois nadava sobre o lago em torrões finos. Quando a água não dava mais pé, as pernas começaram automaticamente a fazer pequenos e agitados movimentos de natação, enquanto os cotovelos se lançavam à frente e abriam uma faixa negra na superfície clara. Ela atravessou o buraco denteado com os espasmos rápidos de alguém que não sabia nadar, acompanhada do balanço e do tinir incomodado dos pedaços de gelo a sua volta.
Um segundo antes de enfim conseguir tocar a mão estendida da Sra. Smutek, ela se perguntou pela primeira vez como conseguiria levar para a terra um corpo tão apagado. Desde que o primeiro contato com a água havia feito a raiva se levantar dentro dela, o frio sugava sem parar a energia de seus braços e pernas, confundia os sentidos e tocava com seus dedos suaves diretamente no cérebro. Ora, relaxa, deita-te, eu vou te carregar, vai ser tão bonito. Um instante depois, Ada havia alcançado a fada de gelo, levantou um braço da água, bateu no ombro dela e sentiu a resistência leve e abrupta da matéria congelada, e embaixo dela um membro que estava frio e duro como uma pedra. Com um movimento cheio de vagar e bondade, a Sra. Smutek virou a cabeça, mostrou um rosto venturosamente paralisado, e voltou os olhos sob as pálpebras semicerradas para a direita e para a esquerda, sem ver nada.
- Nie wiedzialam, ze to tak latwo - ela disse, e sua voz soava normal de um jeito quase ridículo. Ada não entendeu, sabia de antemão que a outra, falando na sonolência, jamais se lembraria de qualquer das palavras que dissera, e deixou a frase se perder. Agarrou o tronco esguio com ambas as mãos e puxou-o para a água, afastando-o da cobertura de gelo. A Sra. Smutek afundou e logo voltou a aparecer, sorridente, na superfície, os cabelos negros lisamente penteados pela água. - Nada - berrou Ada no ouvido dela. - Vamos, nada!
E também a Sra. Smutek ouviu como um bom soldado. Ela nadou, obediente, com movimentos ziguezagueantes e automáticos, cabeça a cabeça com Ada, como se estivessem ambas presas ao mesmo sistema nervoso. Ada continuou falando a fim de perder os sentidos, falava com elas duas como se fossem uma só pessoa, assim está bem, muito bem, boa menina, nada, simplesmente nada, maldição, nada ... De medo de romper o fio que as unia, Ada não ousava tatear o chão com os pés, mas sim nadava adiante, até que arranhou a barriga nas pedras já perto da margem e conseguiu agarrar as plantas do solo com as mãos. Ela chegou à terra, a Sra. Smutek ficou deitada, pálida, na água, como um réptil morto, e Ada percebeu que ela devia ter corrido à floresta vestindo apenas uma blusa fina, calça de pano comum e sem calçados. Em nenhum lugar, à beira, podia ser vista alguma peça de roupa que não pertencesse a Ada.
Agarrando com uma das mãos os cabelos negros e encharcados, e pegando-a sob os braços com a outra, Ada puxou a Sra. Smutek à terra. A ligação havia sido interrompida; nadar havia funcionado, ficar em pé não. Ada caiu sobre os joelhos e carregou a fada gélida, que de repente se fazia pesada como cinco homens, sobre seus ombros; os longos cabelos chegavam às coxas e colavam à pele como plantas aquáticas nas rochas da margem quando a maré está baixa. Ada conseguiu arrastá-Ia alguns metros, socou o chão, inflexível, seguindo seus próprios rastros, e, de tanto esforço, sentiu que se aquecia. Quando não conseguiu mais seguir adiante, elas estavam no meio da clareira, uma seminua abraçando o peito da outra, vacilando e sussurrando, testa a testa como um casal de amantes alucinado. Ada deslocou o peso a fim de livrar o braço direito, levantou-o e começou a bater na Sra. Smutek, sempre no rosto, uma vez, várias vezes, ora com a palma, ora com as costas da mão, e a cada golpe ela se sentia melhor, até que a Sra. Smutek soltou um gemido e tentou se virar.
- Anda - berrou Ada -, anda! E ela andou, ela correu. Em pernas que mal se deixavam controlar, em passos cambaleantes como se fosse uma marionete libertada das cordas que a prendiam, pesando imensamente com seu braço sobre os ombros de Ada, sempre de novo caindo e levantando para ser arrastada adiante. Assim elas passaram pela vala, assim elas chegaram à estrada, e assim desceram a estrada. Ora conseguiam avançar melhor, ora pior, e nesses momentos Ada berrava com ela, batia nela, escoiceava-a com seus pés nus e golpeava-a como se fosse um animal semimorto obrigado a avançar mais alguns metros. O albergue estava à vista, quente, a porta de vidro da entrada iluminava esperanças. Reunindo as forças ainda disponíveis, Ada jogou a si mesma e à outra em direção à luz, a porta se abriu em um solavanco, a claridade chamuscou os olhos, uma falange de sapatos de alunos se interpôs no caminho. A Sra. Smutek caiu ao chão fazendo estardalhaço. Cheiro de gente. Casacos nos cabides. Por um momento, Ada quis estar mais uma vez na floresta.
Ela contraiu o corpo para um último esforço e gritou, e, uma vez que não lhe ocorreu nenhuma palavra a dizer, ela gritou o que gritara ainda a pouco: anda!, esticando a palavra em tom uivante, anda!, até que a escada no fim do hall de entrada começou a ribombar e Smutek apareceu em seu campo de visão de baixo para cima, primeiro as pernas, depois os quadris e o tronco. Atrás dele Höfi, com os olhos vidrados de horror.
A Sra. Smutek desapareceu, levantada ao ar, e Ada, que há tempo caíra sobre os joelhos, resvalou ao chão de todo e ficou deitada durante minutos sobre o capacho. Insubordinação. Em seus braços e pernas havia apenas geleia sem ossos. Höfi, que não conseguiu erguê-Ia, ficou agachado ao lado dela, passeando os dedos adejantes sobre seu rosto, e quando algo quente pingou em suas faces, ela compreendeu que ele estava chorando, encolhido como sobre uma criança morta, lamentando um infortúnio distante ou sua própria fraqueza, e desenrolando coisas que ela não entendia. Quando Smutek apareceu mais uma vez, Höfi havia ido embora, desaparecido como um fantasma, e Ada pairava bem alto acima do chão, e olhava direto ao queixo de Smutek, a essa ameixa gêmea carnuda e dividida ao meio.
- Obrigado - sussurrou ele, enquanto a carregava nos braços através da casa. - Eu te agradeço muito. - Não foi ao senhor que eu ajudei - disse Ada -, mas à sua mulher. A voz soava como sempre, Ada a reconheceu sem mais como sendo sua, mesmo sem saber como e com que ela era produzida em seu corpo. Smutek parou, e a olhou no rosto à queima-roupa. Não contada a palidez artificial, ela não parecia doente, mas fria e arrogante mesmo naquela situação. Smutek sentiu despertar em si a resistência do alemão contra toda espécie de sentimentalismo, e lutou contra a nostalgia do polonês por elevações, nas quais se pode subir, e profundezas nas quais se pode mergulhar. Por um momento, não soube o que fazer, teria gostado de beijá-Ia ou de chamá-Ia à ordem com severidade, e por fim seguiu adiante, abrindo portas a pontapés, e só voltou a falar quando estava diante da última. - Ok, Ada - disse ele. - Com isso quero te agradecer em nome da minha mulher.
Ela acenou, concordando: ok. Por todos os lados havia um denso vapor de água, paredes azulejadas nas quais os regatos de líquido condensado corriam abaixo, uma janela negra e embaçada; lá fora, por certo a noite. Eles se encontravam em um dos banheiros do andar superior, onde dormiam os empregados da vigilância. Smutek a depôs sobre a tampa da privada e lhe tirou as meias, elas estavam endurecidas do gelo e caíram como tábuas sobre o azulejo. Livrou-a da calcinha, puxou seu sutiã, e Ada já se debatia antes de ele erguê-Ia mais uma vez nos braços. Quando um ombro ficou a seu alcance, ela o mordeu. Smutek lançou um gemido contido à força, e mesmo assim deitou Ada vagarosa e cuidadosamente na banheira. A água quente doeu como óleo fervente, mais insuportável do que tudo o que acontecera até então. Ada acreditava que continuava a gritar quando há tempo já silenciara, dominada pela dor, pronta a perder os sentidos, quando disse ainda uma coisa: Vá pegar meus tênis, por favor, eles ainda estão lá fora ... E por fim também ela se foi ...

Tradução: Marcelo Backes
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