Novos autores de língua alemã

Mesmo assim, não podemos constatar muita euforia nos livros das gerações mais jovens entre vinte e quarenta anos. »E assim contávamos à noite, depois de transar, quando estávamos deitados acordados, as histórias mais tristes de nossas vidas« consta no livro de contos »Minibar«, a primeira publicação de Kolja Mensing, nascido em 1971. No romance » Die Stunde zwischen Hund und Wolf [A hora entre o cão e o lobo]« de Silke Scheuermann a »vida boa« parece somente uma visão que não pode ser alcançada. »O colorido da vida«, constata uma protagonista pessimista, forma uma espécie de »cor suja«. São palavras ríspidas. E estas são ainda mais surpreendentes e provocadoras pelo fato de serem articuladas quase sempre em um cenário de riqueza e abundância.
Após a virada do século pudemos constatar uma mudança radical do clima literário. A literatura pop, que havia se tornado uma palavra-chave a partir de meados dos anos 90, saiu da moda. Ela se perdeu com a crise na bolsa e os atentados ao World Trade Center. Junto com o choque houve insegurança e desilusão. Desde então domina na literatura mais jovem – ao menos latente – uma forte consciência de crise. Katharina Hacker descreveu em seu romance »Die Habenichtse [Os que nada têm]« essa sensação de crise de toda uma geração. Em 2006 ela foi agraciada com o Prêmio Alemão do livro para esse romance.
Mesmo assim, muito acontece entre Hamburgo e Munique, Berlim e Colônia, Frankfurt e Leipzig. A vida literária na Alemanha, turbulenta e com alternâncias, como ela é, pode ser descrita da melhor maneira como algo entre uma recepção e uma balada. Isso em tempos remotos teria sido completamente impossível. Nos anos 50, 60 e 70 teríamos falado mais em grupos de trabalho, grupos de vanguarda, ou laboratórios experimentais, teríamos mencionado clubes revolucionários, círculos terapêuticos, de esquerda e de direita. Hoje, no entanto, conhecemos um tipo de encontro aberto, informal, com muitos especialistas em seus próprios temas, sem metas definidas em conjunto, sem programas ou fronteiras estáveis.
E é esse o aspecto de nossa recepção, de nossa balada literária, para a qual também estão convidados os austríacos ou os suíços de língua alemã, sem temerem a perda de sua individualidade. Dentre muitos críticos encontramos também alguns grandes nomes da literatura alemã, os quais, todavia, observam cuidadosamente uma distância entre si: Günter Grass, Christa Wolf, Martin Walser, Hans Magnus Enzensberger, Jürgen Becker ou Dieter Wellershoff, que ao mesmo tempo comemora o seu comeback. Apesar da fama, muitos deles são um tanto polêmicos. Günter Grass, por exemplo, face à sua coletânea de poemas »Dummer August [João bobo]«, precisa se defender contra as acusações devido a sua breve participação na força de elite waffen-SS, há pouco confessada. Martin Walser é atacado há anos por violar as normas lingüísticas politicamente corretas.
Por vezes ouvimos os membros das gerações intermediárias reclamarem da atenção dispensada aos mais velhos. E os autores como Matthias Politycki, Helmut Krausser ou Ulrich Peltzer, deverão estes permanecer sempre à sombra dos seus antecessores literários? Qual será a grande diferença entre as gerações mais velhas das mais novas? É a dimensão histórica. A biografia dos mais velhos ainda está intimamente ligada aos dramas da história alemã: o nacional-socialismo, a guerra, a guerra fria, as esperanças socialistas e a ditadura do socialismo real, assim também como a politização após 68. Esse ambiente histórico-literário ainda é complementado pela participação no grupo 47, a associação fundadora da literatura na República Federal da Alemanha. Quando discutimos sobre Günter Grass ou sobre Martin Walser que publica atualmente os seus diários, estamos ao mesmo tempo discutindo a história contemporânea da República Federal da Alemanha. O mesmo vale para a RDA, considerando o relatório de Erich Loest » Prozesskosten [Custas do processo]«, no qual ele deixa claro que o »processo histórico« estava intimamente vinculado aos processos de repressão política.
Os convidados mais jovens da balada observam essas histórias com respeito, mas ao mesmo tempo com a consciência de que isso é passado. Muito diferente é o relato do austríaco Josef Haslinger. Ele narra em seu relatório real »Phi Phi Island« como ele, sua esposa e dois filhos se tornaram vítimas do tsunami no Oceano Índico em dezembro de 2004 – e como todos sobreviveram. Esses eventos, assim como o 9/11 mudam a consciência e a sensação de vida atual, como também ocorreu com o terremoto de Lisboa em 1755, que chocou Voltaire e os iluministas. Com uma expressão alemã antiga poderíamos dizer: Aqui, o lado sério da vida retornou. Ficou evidente: o mundo não é um jogo do pós-modernismo, não é uma simulação da mídia, mas sim uma realidade difícil, muitas vezes fatal. Por isso encontramos em muitos livros da geração de autores mais novos uma atitude voltada aos fatos mais básicos da vida humana. O crítico Ulrich Greiner observou que os netos e as netas se ocupam novamente com entusiasmo da »narração do destino do ser humano«.
Em especial, a enfermidade e a idade avançadaS têm um papel predominante como experiências-chave. Sabine Gruber retrata em seu romance »Über Nacht [Da noite para o dia]« um mundo de experiências em crise e fragmentado, no qual as doenças e a procura do amor estão no foco. No romance de Katja Lange-Müller »Böse Schafe [Ovelhas más]« os assuntos doença, vício, amor e fracasso se sobrepõem. Há obras que tematizam a velhice a partir de uma experiência própria, a doença e a morte dos pais ou o envelhecimento da sociedade em geral.
Mas o que surpreende é o grande número de histórias sobre famílias. Aparentemente, a família oferece no mundo desregulado e globalizado uma das poucas unidades sociais concretamente registráveis, proporcionando uma linha coerente para a narração. Em 2007 o Prêmio Alemão do Livro foi concedido pela segunda vez a um romance de famílias e gerações. No livro »Die Mittagsfrau [A mulher do meio-dia]« Julia Franck vincula a triste história de família de sua protagonista com as duas guerras mundiais, com a perseguição e o exílio.
O passado continua sendo o grande tema alemão na mídia e na literatura. Às vezes esse é até mesmo vinculado a experimentos formais bastante corajosos. Assim, o jovem autor Kevin Vennemann renovou em seu livro »Mara Kogoj« de forma interessante os modelos dos anos 70: experimento literário, antifascismo e politização. Michael Köhlmeier desenvolve em seu livro »Abendland [Oriente]« com o seu talento para fabulações pós-modernas um enorme panorama do século vinte. E o grande construtor lingüístico Michael Lentz, por sua vez, experimenta em » Pazifik Exil [Exílio pacífico]« toda a sua criatividade com a retratação dos perfis de alguns refugiados de renome da ditadura nazista: de Heinrich e Thomas Mann, Franz Werfel, Arnold Schönberg, Bertolt Brecht. Apesar do assunto pesado, há momentos bastante engraçados.
E de fato: há bastante humor na mais recente literatura alemã, de qualquer forma situações cômicas de tirar o fôlego. Dois autores que receberam o Prêmio Büchner Wilhelm Genazino (»Mittelmäßiges Heimweh [Medíocre nostalgia]«) e Arnold Stadler (»Komm, gehen wir [Vamos indo]«) não só dispõem de uma fantasia narrativa inconfundível, mas possuem antes de tudo um humor existencial de primeira categoria.
Em todas as ocasiões discute-se muito, na recepção dos mais velhos e na balada dos mais novos. Na avaliação da literatura há uma forte discussão de opiniões. Quem está aliado com quem ou contra quem – para descobrir isso há a necessidade de um faro de detetive. E isso não falta, ao menos dos livros. O Ibope continua alto para policiais e detetives. Já é notório que o policial é uma compensação para o romance social realista, tão pouco desenvolvido nos países de língua alemã. Afinal, os diferentes sujeitos podem ser tratados de forma excitante no gênero policial. Dieter Kühn escreveu em seu livro »Geheimagent Marlowe [Agente secreto Marlowe]« um policial histórico-literário. Andrea Maria Schenkel retoma em seu livro »Kalteis [Gelo frio]« um caso da época do nazismo. Veit Heinichen, como amante e conhecedor da cidade de Trieste, adotou esta como cenário para os seus romances policiais (assim como Donna Leon em Veneza).
Também dentre os audio-books o policial é um dos gêneros mais procurados. O mercado dos audio-books já se estabeleceu com taxas de crescimento cada vez maiores. Muitas novidades literárias são publicadas ao mesmo tempo na versão gravada. Isso provavelmente alterará em determinado grau os costumes de recepção. Mesmo para os autores contemporâneos estamos diante da pergunta: ler ou ouvir? Além disso, são acrescentados novos aspectos de criação e efeito quando um texto é encenado acusticamente com a apresentação oral. Assim a literatura oferece ainda mais assuntos para o debate.
Mas de repente, lá no bar, uma gritaria. O povo discute a censura do romance de Maxim Billers »Esra«. A ex-namorada do autor entrou na justiça, pois acredita ter perdido a sua privacidade por conta do livro. Mas no mais: o amor é obviamente sempre um assunto. Nas relações amorosas estão retratadas as situações do mundo. E as histórias de amor das gerações mais novas são um tanto complicadas. Os protagonistas do romance de Thomas Lang »Unter Paaren [Entre pares]« vivem em situação de riqueza, mas eles não conhecem o próprio objetivo: sentimentos inexatos em um ambiente elegante. Somente Hanns-Josef Ortheil, nascido em 1951, com o seu romance »Das Verlangen nach Liebe [Em busca do amor]« ainda ousa afirmar, que o grande amor é possível.
A globalização já alcançou há muito tempo a literatura alemã. Muitos autores pesquisam na trama fina da nova situação do mundo, em novas possibilidades de movimentação, mas também nos problemas inerentes a estas. Por outro lado, o mundo globalizado também é um mundo já completamente descoberto, viajado e desmistificado. Por isso os autores já usam há muito tempo o recurso dos documentos originais ou dos relatórios de viagem históricos para resgatar o charme das aventuras na era das descobertas, ao menos em seus livros. Isso também vale para o livro »Usambara« de Christoph Hamann e »Eine Frage der Zeit [Uma questão de tempo]« de Alex Capus. Com isso os romances sobre a África e a época da colonização se estabelecem (após Gerhard Seyfried com seu livro »Herero«) aparentemente como tendência.
E como está a situação do cidadão do mundo que migrou para a língua alemã? Eles se posicionam – independente de sua origem – especialmente como autores de personalidades independentes com histórias próprias, interesses e talentos. Claro que muitas vezes apresentam novas matérias, assuntos e tonalidades. Mesmo assim, os autores com um denominado »histórico de migração« estão sujeitos a mecanismos semelhantes a todos nós. São aceitos como participantes do discurso literário-cultural. Como eles se posicionam depende muito mais do gênero de seus textos do que de sua origem. Por isso a questão, se realmente existe algo como um corpo compacto de literatura de migração, é polêmica.
Em relação aos problemas atualmente discutidos como migração, integração, multiculturalismo ou islã os autores com perspectivas transculturais estão certamente muito à frente dos demais. A relação entre a política e a literatura ainda é uma questão não resolvida para a maioria dos autores mais jovens. No entanto, os problemas globais e sociais começam a se inserir no espaço literário. Em alguns romances já é tematizada a re-politização, um retorno da radicalidade: no romance de Ulrich Peltzer »Teil der Lösung [Parte da Solução]« do livro »Tod eines Trüffelschweins [A morte de um porco de trufas]« de Thomas Weiss e »Der bewaffnete Freund [O amigo armado]« de Raul Zeliks.
Por isso nos parece ainda mais impressionante, o que acontece nos espaços mais feudais. Lá se comemora, sob os candelabros, Martin Mosebach, agraciado com o Prêmio do Livro Büchner em 2007. Em seu discurso de agradecimento ele destacou a crueldade desumana e destrutiva dos massacres revolucionários. Como melhor caminho é recomendada a tradição. Em seu novo romance »Der Mond und das Mädchen [A lua e a menina]« podem ser estudadas as possibilidades e os limites de sua arte do tradicionalismo elegante de forma divertida.
Podemos observar a algum tempo as retomadas bem pensadas das formas tradicionais na poesia. Aqui a mensagem de Robert Gernhardt, falecido em 2006, mostrou efeito. Ele enfatizou a piada e a melodia das palavras. Outro classicista, Durs Grünbein, priorizou por sua vez a disciplina formal e a reflexão histórica. Jan Wagner e Ron Winkler também atuam na renovação de formas líricas e gêneros já aposentados pelos tempos modernos.
Formalmente quase tudo é possível, independente de falarmos de poesia ou prosa. Nesse aspecto o clima na balada alemã da literatura é bastante alegre e descontraído. Mais importante do que as formas são os materiais e os temas, contanto que sejam oferecidos de forma plausível. No entanto, essa liberdade também tem o seu lado negativo: alguns autores se satisfazem com um convencionalismo profissional, mas não inspirado.
Um espírito de empreendedorismo altamente inspirado mostram os jovens e novos fundadores de editoras. Quando alguns anos atrás as últimas editoras de renome foram compradas pelos grupos, chegou novamente a hora das editoras de pequeno porte independentes. Quanto mais forte o mainstream, mais corajosos aqueles que o abandonam. Os nomes das editoras são Kookbooks, Verbrecher Verlag, Tisch 7, blumenbar, Luftschacht, Liebeskind, Mairisch Verlag ou SchirmerGraf. Estes certamente são uma riqueza, uma vez que permitem outros recursos sensoriais e funcionam de forma economicamente diferente.
Há um grande movimento na balada da literatura, as pessoas saltam de um assunto para outro. Muitos se perguntam: Como a literatura pode obter novamente maior significado no discurso público? Mas apesar da balada – trabalham muito. Muito admirável é a criatividade, a virtuosidade, assim como a ingenuidade e a riqueza de artifícios com os quais hoje se narra ou se faz poemas. Geograficamente a literatura alemã é originária dos espaços pequenos, seja da Alemanha, da Áustria e da Suíça. No entanto, a riqueza de materiais e temas, de conflitos negociados é bastante grande. Precisa ser grande por motivos históricos e deve ser grande, pois em todos os três países se olha com grande saudades além dos próprios limites. Talvez esses sejam os principais motivos, porque essa literatura também pode ser interessante em outros lugares do mundo.
Prefácio de Eberhard Falcke para a revista "Novidades Literárias da Alemanha" (Feira do Livro de Frankfurt).









