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03.07.2017

Foto: Acervo particular


Neo Muyanga: “A Europa e sua posição no mundo futuro” a partir de uma perspectiva do Sul

Em entrevista, o músico sul-africano fala sobre o novo papel a ser desempenhado pelas nações do Sul Global e reflete: “está na hora de o mundo, portanto, encarar o fato de que o que está aí hoje foi construído pela apropriação forçada de recursos de certas áreas e pelo acúmulo deles em outras”.

Katharina von Rückteschell-Katte: Seria interessante ouvir suas ideias e conselhos a propósito da posição – e também das responsabilidades – da União Europeia no futuro. A UE está hoje numa situação muito difícil e talvez em risco de se esfacelar. Especialmente agora a UE tem que examinar novos modos de, por um lado, salvar a União; por outro lado, encarar as novas constelações em movimento no mundo. As velhas ordens Ocidente e Oriente, ou Norte e Sul, não existem mais. O filósofo alemão Peter Sloterdijk, por exemplo, afirma no livro Se a Europa Despertar que a questão decisiva para a política europeia na ordem mundial pós-bipolar é se a Europa será capaz de criar uma nova forma política para além daquela do império. “A função fundamental da constituição europeia depende de um mecanismo de transcendência do Império”.

Neo Muyanga: Deixando de lado por um momento a questão da “Europa oficial”, uma das maneiras como os europeus médios tentam expressar uma autorreferência/reverência é demandar que aqueles que eles chamam de “estrangeiros” se deixem absorver naquilo que é, com efeito/afeto, pensado como “europeidade”. Essa “europeidade” é ilustrada com muita frequência ao proclamar-se alguma espécie de direito original de posse sobre conceitos como “democracia”, “cristianismo” ou “igualdade de gênero”. Esse é um passo em falso semelhante, na minha opinião, ao de alguns sul-africanos quando reivindicam para si a fundação do conceito de Ubuntu (grosso modo, esse conceito pode ser pensado como algo próximo de “tratar os outros com cortesia”); existem sul-africanos que sustentam a visão ilusória de que têm os direitos autorais sobre o Ubuntu. Essas ilusões assustadoras – a do Ubuntu, como a da “invenção” da democracia, do cristianismo ou da igualdade de gênero – têm como premissa a falácia de que existe, para começar, essa coisa que se chama de “estrangeiro”. Em termos oficiais, acredito que a Europa, bem como outras dessas entidades que se vêem como “Estados nacionais”, terá primeiro que aceitar a necessidade de rever todo o fundamento do Estado nacional como ideia sociopolítica porque o fato é que qualquer fronteira é permeável àqueles que pretendam atravessá-la a partir de dentro E de fora. Sabemos por que as pessoas cruzam fronteiras. Elas vão em busca de novas possibilidades em outro lugar, pois talvez não tenham condição ou permissão para buscá-las no lugar onde se encontram. Essa busca de outras possibilidades é frequentemente uma questão de vida ou morte, e muitas vezes a coerção se origina na própria noção de Estado-nação.

Há, portanto, desafios muito concretos com os quais os países europeus têm que lidar no momento. Observando os refugiados que chegam à Europa a partir do Norte da África, parece que a UE fracassou ao lidar com isso. Mais de três milhões de pessoas estão fugindo de algum lugar para outro em todo o mundo. E há uma grande migração Sul-Sul. Por que todo país lida com isso fechando as fronteiras?

O temor de ver o que a gente considera nosso direito inato tomado à força por pessoas que a gente encara como marginais anônimos de “outro lugar” sempre suscita em todos nós um desejo de erguer muros de proteção; cercas que eletrocutam o aspirante a invasor. Mas está na hora de o mundo – não existe algo como o primeiro, o segundo ou o terceiro mundo, ao contrário do que diz a imaginação desvairada dos que erguem os muros: existe apenas um mundo –, está na hora de o mundo, portanto, encarar o fato de que o que está aí hoje foi construído pela apropriação forçada de recursos de certas áreas e pelo acúmulo deles em outras. Nossa ideia de direito de nascença coincide aqui com certas ideias muito absurdas sobre o direito ao luxo e ao consumo.

Achille Mbembe mencionou certa vez que é difícil, para nós, aceitar a diferença e que, ao tentar “integrar” pessoas numa cultura ou numa sociedade, o que se faz é forçá-las a se sentir como o Outro – a ser diferente. Como poderia a UE lidar adequadamente com “o Outro”, com a diáspora?

Um dos desafios que se apresentam à Europa hoje é que os europeus precisam encarar com coragem a realidade sociopolítica de uma sociedade europeia multicultural, e reconhecer que qualquer pretensão de fazer voltar o relógio para um momento imaginário na história em que a Europa era “pura” ou estritamente homogênea não se baseia em fato histórico algum. Estou pensando aqui na presença norte-africana e árabe na Europa na Idade Média, bem como na Renascença; estou pensando na presença dos turcos e africanos (e de outros imigrantes) que vieram participar do trabalho de fazer da Europa um dos centros de conhecimento técnico e progresso ao longo do século 20, só para ficar nuns poucos períodos-chave.

A Europa tem a tendência de lidar com esses problemas a seu modo, acostumada a estar entre os países proeminentes que dão conselho, em vez de achar necessário recebê-los. Por ser tão egocêntrica, ela não reconhece o papel que outras potências estão assumindo. A China, por exemplo, assumiu um papel muito importante, sobretudo no Sul global, que não parece estar sendo reconhecido pela Europa. Muitos países europeus ainda têm o hábito de tratar com paternalismo o resto do mundo – especialmente suas ex-colônias. Agora a China parece estar adotando esse papel. Qual seria a tarefa da UE ao lidar com essa nova “China potência colonial”?

Há quem agora considere as ações que a China está atualmente empreendendo nas áreas de investimento e extração de recursos naturais e humanos na África, por si sós, como o novo front do colonialismo. A China também está sendo acusada de despejar tanto bens como os membros indesejáveis de sua sociedade em países onde o país é convidado a construir obras de infraestrutura, como Angola, Moçambique, África do Sul e outros lugares. Essa trajetória, se for mesmo esse o caso, parece repetir o colonialismo europeu e, portanto, apresentar perigos não apenas para as relações China-África, mas para as relações econômicas e culturais de todo o globo. A Europa deveria assumir seriamente o papel estratégico que ela poderia desempenhar ao aconselhar e defender trocas mais progressistas e equitativas, se não para o bem do mundo fora da Europa, ao menos por seu próprio proveito estratégico.

A relação triangular entre África-Europa-América do Sul foi moldada pela exploração e pela conquista. Por outro lado, provocou estímulo cultural mútuo. Como na África, os laços da América do Sul com a Europa são muito mais firmes e mais frequentes do que com qualquer outro continente, embora as situações sejam muito mais similares entre muitos países do Sul. De que maneira poderia o “Sul” – neste caso a África e a América do Sul – constituir um novo relacionamento com a Europa formando alianças e estruturas entre si? Não digo como uma oposição, mas como, por assim dizer, uma ordem pós-colonial de igual para igual. Há um papel futuro para esse triângulo no mundo?

Sim. Acredito que haja certamente um novo papel a ser desempenhado pelas nações do Sul global, e isso pode apontar para uma reconfiguração do que o mundo percebe como centros de criação de conhecimento. Acredito que o mundo seria melhor servido por uma maior colaboração econômica e cultural enraizada entre nações do Sul Global que poderia fazer avançar nosso entendimento global e nossa ação para mitigar as precárias condições atuais relacionadas ao alívio da pobreza, à sustentabilidade ambiental e ao consumo excessivo. Uma mudança de mentalidade é necessária em termos do que o Sul Global deve almejar como progresso e desenvolvimento. O Norte Global de hoje certamente não é o que deveríamos considerar um exemplo reluzente de progresso em todos os aspectos. Precisamos de espaços que moldem um caminho diferente para as relações homem-outras espécies-meio ambiente, e esse novo contexto experimental poderia existir num Sul Global cada vez mais colaborativo.

Neo Muyanga trabalha como regente e faz turnês com várias companhias e produtores, incluindo a Royal Shakespeare Company, Handspring Puppet Company, Paco Pena’s Flamenco e William Kentridge. Além de ser “compositor residente” no Instituto Wits de Pesquisa Social e Econômica (WISER) da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e no Instituto de Pesquisas de Humanidades (HRI) da Universidade da Califórnia, sua pesquisa enfoca a estética negra no gênero operístico.


Katharina von Ruckteschell-Katte, Diretora Regional do Goethe-Institut para a América do Sul, conduziu a entrevista.

Tradução: José Geraldo Couto