50 anos Goethe-Institut Porto Alegre

Instituto Cultural Brasileiro-Alemão / Goethe-Institut

Carol de Góes
Carol de Góes

Em 1824, iniciou-se a vinda sistemática de alemães para o Rio Grande do Sul. No decorrer do tempo, sua presença tornou-se tão significativa que, em torno de 1930, calculava-se que aproximadamente 20% da população gaúcha eram de descendência alemã. O estado, portanto, sempre apresentou marcas significativas de cultura alemã, e também se cultivaram, sistematicamente, contatos e intercâmbios com a Alemanha. Esta sempre manteve, por aqui, um consulado na Capital, e, até a Segunda Guerra Mundial, inclusive assim chamados vice-consulados, no interior do estado.

Mesmo que Brasil e Alemanha tenham estado em guerra de outubro de 1917 a novembro de 1918, foi o confronto na guerra de 1939 a 1945 que teve o maior impacto negativo nas tradicionalmente boas relações entre os dois países. Essa situação, obviamente, refletiu-se tanto sobre a vida dos cidadãos de descendência alemã quanto sobre o cultivo de atividades que denotassem traços de cultura alemã.

A profundidade dos problemas gerados durante o conflito fez com que o restabelecimento de uma convivência normal, depois de 1945, tanto com a Alemanha quanto com a população de origem alemã, fosse lento e gradativo. Interessantemente, a primeira pessoa que retomou o ensino da língua alemã em Porto Alegre foi um cidadão que havia vindo para cá como refugiado do regime nazista, em 1935, Dr. iur. Herbert Caro.

Luiz Eduardo Robinson Achutti

Até sua morte, em 1991, foi um importante divulgador da cultura alemã no Brasil, com destaque para suas traduções para o português, em vernáculo de alto nível, dentre as quais se sobressaem livros de Thomas Mann.

Mas somente mais de dez anos após o final da guerra – em 12 de outubro de 1956 –, foi fundada, aqui em Porto Alegre, uma entidade que se propunha a retomar o fomento e a divulgação da tradição cultural alemã, voltando a estreitar laços com a Alemanha, nos campos da cultua e da ciência. Essa entidade, primeira desse gênero no Brasil do pós-guerra, foi denominada Instituto Cultural Brasileiro-Alemão (ICBA). Além de destacados gaúchos de descendência alemã, como Edgar Luiz Schneider, que fora candidato a governador do estado em 1950, fizeram parte personalidades do mundo político e acadêmico que não possuíam sobrenome alemão. Entre estes, cabe citar, sobretudo, conhecidos juristas como João Leitão de Abreu, Ruy Cirne Lima, e acadêmicos de outras áreas, como Francisco Machado Carrion. Seu primeiro diretor foi o dicionarista e professor da UFRGS Leonardo Tochtrop; mais tarde, o mesmo cargo foi exercido pelo médico e também professor da UFRGS Ervino Diefenthaeler, durante um longo período.

Desde 1959, o ICBA procurou adquirir uma sede própria para suas atividades, que consistiam, basicamente, em ministrar ensino da língua e promover palestras sobre cultura alemã. Esse objetivo foi alcançado em 1961, com a aquisição de salas num prédio da Rua Dr. Flores, 330. A partir do ano seguinte, as atividades se instalaram nesse endereço, onde permaneceriam por muitos anos.

A iniciativa de fundar o ICBA recebera, desde o início, apoio da representação diplomática da República Federal Alemã, a assim chamada Alemanha Ocidental. E esse apoio foi aprofundado com uma ajuda financeira para a aquisição da citada sede do Instituto. Quase simultaneamente, iniciaram-se contatos para uma aproximação com o Goethe-Institut (GI), com sede em Munique. Este fora fundado em 1951 para fomentar o ensino da língua alemã fora da Alemanha. E, desde a virada da década de 1960, ampliara o espectro de suas atribuições, assumindo funções mais amplas, que, além do ensino da língua, passaram a incluir o intercâmbio cultural entre a Alemanha e os países anfitriões do Instituto.

A aproximação efetiva, formal, entre o ICBA e o GI iniciou em 1963, através de um contrato pelo qual um representante deste último passava a coordenar os cursos de língua alemã aqui ministrados, conferindo-lhes o reconhecimento oficial desse órgão alemão. Mas a colaboração não deveria restringir-se ao ensino da língua, pois o contrato estipulava que seu objetivo era consolidar os objetivos do ICBA, estabelecidos em seus estatutos desde a fundação, em 1956: “cultivar as boas relações entre a Alemanha e o Brasil, em especial pelo aprofundamento do intercâmbio artístico, literário e científico entre os dois países”. Claro, o ensino da língua alemã era, e continua sendo, uma das atividades de destaque, não só dentro do próprio Instituto, mas também fora dele, no sentido de promover o aperfeiçoamento de professores na área, tanto através de cursos ministrados no Brasil quanto através do envio de alguns deles para a Alemanha.

Finalmente, em setembro de 1965, institucionalizou-se uma nova situação, aparentemente contraditória. As atividades de ensino – e também parte dos eventos culturais – passaram a ser administradas pelo GI, e este deixava de repassar verbas ao ICBA para desenvolvê-las. Mas, inversamente, essa ação do GI só se tornaria possível graças ao suporte jurídico que o ICBA lhe daria para atuar no Brasil (como pessoa jurídica, com CNPJ, devido à impossibilidade legal de existência de instituições estrangeiras no país). As atas das reuniões do Conselho do ICBA registram a preocupação de alguns de seus conselheiros no sentido de que, com isso, se perderiam as taxas escolares, ficando as receitas restritas às semestralidades dos sócios. Além disso, essa situação poderia colocar em risco sua autonomia, e até sua própria identidade como instituição autônoma brasileira. Apesar das potenciais tensões daí decorrentes, a convivência dos dois institutos, porém, transcorreu sem atritos maiores, registrando-se, pelo contrário, um prolongado período de colaboração em atividades diversificadas. Nesse sentido, ata de reunião do Conselho do ICBA de 24 de fevereiro de 1967 registra que, para o referido ano, estavam programadas “conferências sobre temas filosóficos e literários, exibição de filmes culturais, concertos”.

Essa situação manteve-se por aproximadamente 15 anos, com algumas atividades que acabaram sendo marcantes para a cena cultural de Porto Alegre. Assim, para exemplificar, em 1975 foi patrocinada a encenação da conhecida peça de teatro “Mockinpott”, de Peter Weiss, peça com uma temática significativa para o contexto político em que o Brasil vivia naquele momento – um homem sai de casa para comprar um jornal, e é detido pela polícia, sem motivo aparente. Em maio de 1978, durante uma semana inteira, foi promovido um festival cinematográfico com filmes dos então inovadores e críticos cineastas Rainer Werner Fassbinder e Volker Schlöndorff.

Na década de 1980, entrou-se numa nova e decisiva etapa da vida do binômio Instituto Cultural Brasileiro-Alemão – Goethe-Institut. Enquanto essas entidades, até então, tinham sua sede em andar alto de um prédio sem identificação externa, na rua Dr. Flores, em 26 de outubro de 1981 foi inaugurado prédio próprio, na Av. 24 de Outubro, 112, construído exclusivamente para esse fim.

Goethe-Institut


Lançamento da Pedra Fundamental do prédio da Rua 24 de outubro

Com isso, até a visibilidade física deu um salto qualitativo muito grande. Nas novas instalações, foi reservado espaço para uma biblioteca, que vem sendo atualizada, de forma ininterrupta, e que atende a um público significativo. Mas a preocupação não se restringe à biblioteca do próprio IG – ele vem fomentando também bibliotecas de escolas públicas e privadas pelo Rio Grande do Sul afora. Além disso, cabe destacar o auditório, com espaço para um público de cerca de 130 lugares, no qual, ao longo dos anos, se realizaram eventos muito marcantes para a vida cultural e científica de Porto Alegre – e não só aqueles promovidos pelo ICBA-GI.

A nova casa até incluiu um bar, que, no decorrer do tempo, também adquiriu certo prestígio como ponto de encontro. Mas, sobretudo, as instalações para todas as atividades agora eram novas e modernas. Havia também espaço para abrigar entidades afins – nesse sentido, cabe referir o fato de que a Associação dos Ex-Bolsistas da Alemanha (AEBA) pôde estabelecer sua sede no prédio, aumentando a rede de grupos dedicados ao cultivo do intercâmbio científico e cultural entre Brasil e Alemanha.

Enquanto o prédio estava sendo construído, circulou uma sugestão de que fosse denominado “Casa da Alemanha”. Mas os conselheiros do ICBA manifestaram seu desacordo com essa denominação, e ele acabou recebendo o “apelido oficial” de “Instituto Goethe – ICBA”. À época da transferência para a nova sede, o Goethe-Institut era dirigido por Kurt Scharf, cuja gestão deu orientação definitiva às atividades no sentido de que não se visava a atender à demanda por um tipo específico de “cultura alemã” por parte da assim chamada “colônia alemã” local, mas sim para difundir essa tradição cultural num sentido o mais amplo possível, e isso justamente para o público brasileiro em geral. Ademais, o GI passou a caracterizar-se como um local em que se podia expressar livremente ideias, sem as restrições políticas em voga, na época. Essas orientações tornaram-se, desde então, marca registrada, e caracterizaram as intensas ações desenvolvidas nos últimos 35 anos.

Martin Streibel Fotografia


Auditório do Goethe-Institut Porto Alegre na década de 80

Várias delas foram marcantes. Literatura, teatro, cinema, dança, filosofia, ciências diversas, produzidos na Alemanha, foram apresentados e discutidos aqui em Porto Alegre, seja através da apresentação de obras, seja através da presença física dos próprios autores dessas obras, muito frequentemente com a participação efetiva de colegas brasileiros. Alguns exemplos ilustram a situação. Em 1985, o conhecido escritor Hans Magnus Enzensberger esteve em Porto Alegre, onde sua obra foi debatida com a participação de escritores locais como Luís Antônio de Assis Brasil, Moacyr Scliar, Armindo Trevisan. Günter Wallraff, o conhecido crítico de aspectos da sociedade alemã contemporânea, Ingo Schulze, figura de destaque como escritor originário da República Democrática Alemã, a jovem escritora Jasmin Ramadan – a passagem de todos eles por Porto Alegre, como convidados do GI, teve considerável repercussão na imprensa local.

Em 1989, um dos mais influentes filósofos da atualidade, Jürgen Habermas, dialogou, em sessões públicas no GI – ICBA, com intelectuais locais. No ano seguinte, situação semelhante repetiu-se com a presença do conhecido cientista social Niklas Luhmann, um dos mais destacados representantes da Teoria dos Sistemas. Porto Alegre também teve a oportunidade de conhecer um intelectual de destaque como Vilém Flusser, que fugira muito jovem de sua terra-natal, a Tchecoslováquia, para estabelecer-se no Brasil, onde foi, durante algum tempo, professor na USP, para, mais tarde, retornar à Europa.

Rubens Mano / Ag.Folhas


Filósofo Jürgen Habermas em Porto Alegre
(setembro de 1989)

Incentivos à atividade teatral ocorreram em diversas oportunidades, a exemplo da encenação de Dr. Fausto pelo grupo local “Ói nós aqui traveiz”, em 1994, ou da vinda do “Volksbühne Theater” de Berlim, em 1999 com a peça “Murx” do Christoph Marthaler e em 2008 o Deutsches Theater Berlin trouxe a encenação de Os Persas de Aischylos, adaptada por Heiner Müller, dirigido por Dimiter Gotscheff, para mencionar só duas apresentações internacionais inesquecíveis.

Na dança, Porto Alegre teve a oportunidade de apreciar, por iniciativa do GI, a arte de bailarinas tão renomadas quanto Pina Bausch, Susanne Linke e Sasha Waltz. Artistas plásticos locais tiveram oportunidade de divulgar seus trabalhos num concurso, e os apreciadores do gênero foram brindados com uma exposição do conhecido pintor, escultor e fotógrafo Gerhard Richter, cujas obras são consideradas as mais valorizadas entre os artistas vivos.

No campo da música, obviamente, o GI foi responsável pela apresentação das mais diversas tradições daquilo que se costuma chamar de “música clássica”. Mas não se pode esquecer que também importantes experiências alternativas puderam ser apreciadas na capital gaúcha. Entre elas, cabe citar a demolidora banda Einstürzende Neubauten, o mix de música clássica com jazz da Andromeda Mega Express Orchestra, ou o jazzista Jürgen Friedrich.

Andromeda Mega Express Orchestra © Bresadola


Andromeda Mega Express Orchestra

Quando Porto Alegre tornou-se mundialmente conhecida através da organização do Fórum Social Mundial, a partir de 2001, o GI – ICBA teve participação significativa, trazendo destacados pensadores alemães para debater temas diversos. Na virada para o século XXI, também se realizaram seminários muito importantes sobre “ética e genética”, congregando cientistas alemães e brasileiros. Em 2010, foi promovido o 1º Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, com a presença de reconhecidos profissionais alemães da área.

Por tudo isso, uma afirmação do atual presidente do ICBA, Gerhard Jacob, feita há quase 20 anos, continua plenamente válida: “A associação indelével entre o ICBA e o Goethe certamente foi fundamental para o sucesso de grande parte das realizações, e essa ‘simbiose’ altamente positiva deve ser preservada no futuro (e não há razão alguma para que não o seja)”.

“A independência sistemática e consciente da programação do Goethe de influências político-partidárias (sempre transitórias e de relevância ocasional), assim como a preocupação constante com a qualidade dos eventos, devem ser ressaltadas e louvadas, pois certamente constituem fatores dos mais importantes para o sucesso de suas atividades”.

“Finalmente, parece inteiramente lícito concluir que, ao fundar em 1956 o Instituto Cultural Brasileiro Alemão, e ao associá-lo [...] ao Goethe-Institut”, seus fundadores deram “uma contribuição altamente positiva à vida cultural do Rio Grande do Sul, e de sua Capital, Porto Alegre”.

E esse trabalho, iniciado há 50 anos, certamente ainda produzirá muitos frutos, justamente pelos princípios que sempre guiaram as ações. A atual diretora do Goethe-Institut, Marina Ludemann, destaca que “nós não somos uma empresa que funciona via internet, que importa exposições, séries de filmes ou ofertas de palestras prontas da Alemanha. Nós, pelo contrário, desenvolvemos projetos comuns com nossos parceiros locais. Esta foi e continua sendo a razão da qualidade do trabalho cultural do Goethe-Institut”.

René E. Gertz é historiador e professor da UFRGS e PUCRS.