50 anos Goethe-Institut Porto Alegre

“Arte é linguagem em sua essência”
Uma entrevista com Élida Tessler

Goethe-Institut

No âmbito das comemorações dos 50 anos do Goethe-Institut Porto Alegre e dos 60 anos do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão do Rio Grande do Sul, Marina Ludemann, Diretora do Goethe-Institut Porto Alegre, realizou uma breve entrevista com a artista e professora. Confira:

Goethe-Institut Porto Alegre:  Você fundou e coordenou, junto com Jailton Moreira, de 1993 a 2009, o Torreão - espaço de arte contemporânea em Porto Alegre – um projeto que teve participaçao do Goethe-Institut durante um bom período. Você atua principalmente na área de arte contemporânea. O que significa para você "contemporaneidade"?

Élida Tessler: É sempre bom lembrar da forma como o Torreão foi criado por mim e por Jailton em junho de 1993, pois naquele momento não pensávamos em um projeto de longa duração nem em um perfil específico que pudesse defini-lo como um espaço de arte contemporânea. Poderíamos dizer que o Torreão foi uma conjugação de necessidades e aspirações estimulada por uma longa conversa que eu e Jailton já vínhamos mantendo ao longo de nossa convivência na UFRGS, principalmente como professores da Escolinha de Artes da Associação de Ex-Alunos do Instituto de Arte. Cada um de nós teve uma formação diferente dentro e fora da Universidade, mas sempre com atenção e curiosidade compartilhadas. Há muitos anos, o Jailton realiza viagens para conhecer diferentes lugares e as mais variadas culturas. Durante minha estadia em Paris para realização do Doutorado entre 1988 e 1993, tivemos o prazer de nos encontramos em duas ocasiões. Foi quando nos aproximamos ainda mais, reforçando algo que indicava para uma estreita amizade e para a vontade de mantermos uma proximidade afetiva com possibilidade de trocas de ideias em torno do que estávamos pensando a respeito da arte naquele momento, mesmo sem saber muito bem como isso se daria. O fato é que, ao retornar para Porto Alegre, o Jailton me propôs imediatamente a parceria, já tendo encontrado a casa para alugar. Desta forma, o Torreão nasce efetivamente como um espaço de convivência, aberto para o público, com atividades relacionadas à pesquisa em artes visuais, ao ensino, à orientação de projetos artísticos e a intervenções de artistas no conhecido espaço da torre, isto é, uma sala de 4 x 4 m nos altos da casa, com 12 janelas e suas outras características arquitetônicas singulares que tanto estimularam os artistas em suas intervenções. Nos 16 anos de intensa atividade, tivemos a participação de 89 artistas, de diferentes gerações e origens, cada um imprimindo a sua versão para o mesmo espaço.

Arquivo pessoalÉlida e Jailton durante a última intervenção do Torreão, em 16 de setembro de 2009

Foi neste contexto que o Projeto Artist in Residence em parceria com o Instituto Goethe iniciou em 1997 e estendeu-se até 2008. Foi um privilégio para nós ter recebido dez artistas alemães neste período, um a cada ano, com tempo de residência em torno de um mês, estabelecendo uma interlocução plena em torno de projetos específicos. Da troca de ideias à compra de materiais, das refeições compartilhadas a passeios que escapavam ao circuito turístico, de participações em aulas do Instituto de Artes da UFRGS a conversas abertas ao público no próprio espaço do Torreão ou do Instituto Goethe, das noites de abertura do trabalho à sua documentação, de tudo isso resultou uma densa camada de afetos e aprendizagens. Agora é o momento de manifestar mais uma vez o nosso agradecimento especial pela possibilidade desta parceria que, espero, possa sempre ser lembrada como um efetivo intercâmbio entre pessoas e culturas dos dois países.

GI-POA: Qual foi a tua experiência com os artistas alemaes que vieram através do Instituto Goethe para uma residência em Porto Alegre?

Élida: Cada experiência foi única, como toda boa experiência. Arte é linguagem em sua essência. Então, apesar de eu não saber o idioma alemão e ter apenas um conhecimento básico do inglês, criávamos formas de comunicação que nos permitiam o diálogo e o desenvolvimento dos projetos. Gostávamos de ser os anfitriões da casa e, junto com a equipe do Instituto Goethe, os primeiros cúmplices do trabalho. A aposta sempre era excitante, a começar pelas reuniões que antecediam a escolha do artista para cada ano. Tudo isso gerava um bom debate em torno da arte contemporânea, mesmo sem a necessidade de saber o significado de “contemporaneidade”. Buscávamos o risco, a ousadia, a incerteza, e não algo que já pudesse estar estabelecido e que seria transportado e reinstalado em novo local. A cada ano, esta premissa ficava cada vez mais forte e evidente. Cada artista pode usufruir do espaço em sua amplitude, isto é, não apenas como um local para a realização da intervenção propriamente dita, mas também como ateliê, convívio com os alunos do Jailton, participação nas aulas e acompanhamento de outros projetos em curso. Há algo muito particular que acontece quando nos dispomos a conhecer melhor outros processos de trabalhos e outras visões de mundo. No fim, a cada novo contato, adquiríamos outra forma de olhar para si mesmo.

Goethe-InstitutOs artistas alemães, bem como todos os nossos outros convidados, contribuíram imensamente para minha formação e criação de questionamentos pontuados por cada proposição. Em particular, tive aproximações maiores com três artistas com os quais viajei junto por razões de trabalho. O primeiro deles foi Axel Lieber, que nos acompanhou em uma residência organizada pelo curador Agnaldo Farias reunindo cem artistas brasileiros em Faxinal do Céu (Paraná). Quando eu e Jailton fomos convidados a participar do chamado “Faxinal das Artes”(2002), Axel estava realizando sua residência no Torreão. O curador absorveu imediatamente a ideia de uma “Residência em Residência”, incluindo o Axel como o 101° artista convidado. Foi um excelente e promissor convívio. Aliás, Axel é o único dos dez artistas alemães que tive a oportunidade de reencontrar em uma viagem à Berlim em 2009. A segunda artista foi Eva-Maria Wilde que, em meio ao seu projeto a partir de fotografias de fachadas de prédios em grandes centros urbanos, interessou-se por conhecer São Paulo. Como eu tinha uma exposição marcada na época (junho 2004), viajamos juntas, estabelecendo um contato mais estreito. O terceiro foi Stephan Sous que, em parceria com o Alpendre e com o Instituto Goethe de Fortaleza, participou de um debate junto comigo no auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste. Aponto esta particularidade da viagem dentro da viagem como uma forma diferente de aproximação, sem diminuir a importância das relações criadas com os outros artistas que fizeram parte do projeto. Cada um deles é lembrado por suas proposições, atitudes e generosidade em compartilhar pensamentos: Jörg Herold (Germany Sapata Sul, 1997), Jochen Dietrich (Torre dos relógios,1999), Rolf Wiecker (Rooms in residence, 2001), Bernard Garbert (Small, 2003), Agnes Meyer-Brandis (Search Paths,2006), Anja Scharey (Selbst/Próprio, 2007) e Matthäus Thoma (Mata-junta, 2008). Esperamos reencontrá-los um dia.


GI-POA: Você è uma artista e historiadora da arte que viveu e trabalhou em muitos países (França, Itália, Austrália, México, EUA). Você acha que contemporaneidade significa outra coisa no Brasil, na Europa ou nos EUA ou há uma “contemporaneidade universal”?

Élida: Pensar a contemporaneidade como conceito unificador é algo muito complexo. Separar a arte contemporânea do tempo contemporâneo é totalmente impossível para mim. E ser contemporâneo é assumir a pluralidade das culturas, das ideias, das dúvidas. É difícil, mas isto implica em tentar se manter aberto às diferenças. Seria exagero dizer que já vivi e trabalhei em muitos países, quem dera! Todas as minhas viagens estiveram ligadas ao estudo, à pesquisa e às exposições. Que se multipliquem as viagens, dentro e fora do Brasil!

O maior tempo de permanência que tive em outro país foi na França, onde realizei o doutorado em história da arte e onde pude manter um ateliê participando de exposições durante os quase 5 anos do curso. As demais foram residências de poucos meses ou algumas semanas, mas todas elas me oferecem a possibilidade de não distanciar a matéria da história da arte de uma prática artística. Este é o ponto em que me apoio em todas as minhas atividades: criar cruzamentos entre teoria e prática, onde se possa criar um pensamento articulado com o tempo contemporâneo. Foi desta forma que também alimentei as minhas ocupações e minhas inquietações, meus entusiasmos e minhas dinâmicas, tanto junto ao Instituto de Artes da UFRGS quanto no Torreão ao lado do Jailton.


GI-POA:
Qual o seu conselho para o Goethe-Institut Porto Alegre para os próximos 50 anos?

Élida: Em primeiríssimo lugar, felicito o Instituto Goethe pelo aniversário de 50 anos e sua atuação tão importante em Porto Alegre! Este é o tempo que merece ser comemorado. Os meus amigos sabem o quanto gosto de criar listas, e eu poderia aqui citar uma longa relação de eventos e encontros proporcionados pelo Instituto Goethe pelo menos nos últimos 30 anos, que certamente marcaram a vida cultural da cidade. Mas, certamente, vocês já estão com esta listagem pronta em uma cronologia digna de todo respeito. Então, só me cabe salientar meu carinho pelos espaços de convívio que o Goethe vem nos oferecendo e o desejo de continuidade dos projetos que envolvem as artes visuais, a música, o teatro, o cinema, a biblioteca, o Bar do Fernando e todas as boas conversas que se estabelecem neste ambiente. Que todos nós tenhamos mais 50 anos de vida para comemorar o 100° aniversário de vocês. PARABÉNS!


Élida Tessler: Artista plástica e professora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Élida Tessler realizou doutorado em História da Arte Contemporânea na Université de Paris I - Panthéon-Sorbonne (França), Pós-Doutorado na EHESS-Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e junto ao Centro de Filosofia da Arte - UFR de Philosophie - Université de Paris I- Panthéon – Sorbonne e atualmente é pesquisadora do CNPq, desenvolvendo pesquisa em torno das questões que envolvem arte e literatura, relacionando a palavra escrita à imagem visual.