Literatura

Experiência única

O escritor e tradutor Curt Meyer-Clason, que morreu no dia 13 de janeiro, aos 101 anos, tem um lugar de honra na história das relações do Instituto Alemão de Lisboa - o Goethe-Institut, do qual foi diretor entre 1969 e 1976 - com a vida cultural, literária e política do nosso país. Dois anos antes, ele e a mulher tinham passado férias em Lisboa, hospedados em casa de Ruben A., que tinham conhecido no Brasil. O anfitrião teve alguma responsabilidade nessa iniciação jubilante do casal à cidade. Mas foi uma inesperada contingência administrativa que ditou o convite a Meyer-Clason, cerca de dois anos depois, para vir dirigir o Goethe em Lisboa. Havia um motivo forte no currículo do convidado para que em Munique tivessem julgado que era o homem adequado para o lugar: tinha vivido vinte anos no Brasil, de 1936 a 1955, e traduzido grandes autores da literatura brasileira do século XX: Guimarães Rosa (com o qual teve uma grande proximidade), João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre e outros. Foi, aliás, no Brasil que Meyer-Clason, desembarcado no continente americano em atividade comercial, fez a sua iniciação literária e passou a ter uma segunda vida que ele descreveu como uma reeducação.

O interesse pela literatura lusófona e uma competência sólida da língua portuguesa foram, pois, as certidões com que este alemão se apresentou como diretor do Goethe-Institut, sediado então, na Avenida da Liberdade. Os sete anos que viveu em Portugal foram para ele "uma experiência única", como dirá nos "Diários Portugueses" ("Portugiesische Tagebücher"), um livro que publicou em 1986 e do qual Leonard Koppelmann fez uma peça radiofónica para celebrar o centenário do autor. O que fascinou este alemão em Portugal foi uma vida plácida, anacrónica, com uma dimensão romântica (e uma gastronomia fabulosa), onde nem faltava a "mentalidade fin-de-siècle da classe dominante". Mas este ambiente pré-moderno e sobrecarregado de tipicalidade tinha uma contrapartida escura e pesada que constituiu para Meyer-Clason um desafio: a censura, a vigilância política, o fechamento cultural. Podia ter-se mantido, até por razões diplomáticas, afastado das lutas e resistências ao regime, mas muitos dos seus recentes amigos faziam parte dos círculos da oposição, e foi para aí que ele foi atraído. Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Namora, Sttau Monteiro, Carlos de Oliveira, Almeida Faria e outros escritores e artistas passaram a frequentar o Goethe.

E de quase todos eles virá a ser tradutor (mas também traduzirá clássicos como Camilo e Eça). O Instituto Alemão torna-se, então, um lugar de acolhimento e de convívio de gente ligada ao teatro, às artes, à literatura, em oposição ao regime. Mas o papel de Curt Meyer-Clason foi muito mais ativo do que o de um simples anfitrião que gozava de imunidade diplomática e gostava deste jogo subversivo com as autoridades portuguesas. Ele também fez do Instituto um lugar de passagem de escritores e de apresentação de espetáculos, numa altura em que o fechamento a tudo o que se passava lá fora era enorme. Convidados pelo Goethe, passaram por Lisboa alguns dos maiores escritores contemporâneos de língua alemã, entre os quais Thomas Bernhard, Günter Grass, Heinrich Böll (convidado para um jantar com Snu Abecassis e Mário Soares), Hans Magnus Enzensberger (também ele escreverá algumas páginas sobre Portugal, muito menos indulgentes do que as de Meyer-Clason).

Uma das iniciativas que recorda no seu diário como "grandiosa" consistiu numa semana dedicada à poesia portuguesa. Outra, cheia de consequências, foi a representação de uma peça de Peter Weiss, "O Canto do Papão Lusitano", acontecimento a que a polícia política não fechou os olhos, tendo obrigado o embaixador da então República Federal da Alemanha a pedir contas ao diretor do Instituto por atividades culturais hostis ao regime. Podemos assim perceber que o Goethe foi então uma espécie de enclave na vida cultural de Lisboa, respondendo a exigências do momento histórico português. No dia 25 de abril, uma filha dos Meyer-Clason regressou a casa logo pela manhã (nesse tempo, as crianças ainda iam para a escola a pé e sozinhas) e anunciou, à porta do escritório: "Papá, a escola fechou porque há uma revolução." O pai pensou que ela estava a brincar e respondeu: "Fecha a porta que eu quero trabalhar."
Nota - Este texto resulta de uma conversa com a mulher de Curt, Christiane Meyer- Clason, em sua casa, em Munique, no final de 2010, e da leitura os "Portugiesische Tagebücher".

António Guerreiro
Jornal Expresso, 28 de Janeiro de 2012, pág. 36

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