Laymert Garcia dos Santos: “Os Yanomami não são um povo arcaico”
O que “Amazônia – teatro música em três partes” trouxe para os Yanomami? Como a ‘Ópera Amazônia’ foi recebida na Alemanha? E no Brasil? O sociólogo Laymert Garcia dos Santos fala sobre a cultura dos Yanomami, sobre preconceitos europeus e entusiasmo brasileiro.
Sr. Laymert, como professor de sociologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), o senhor se ocupa do tema: sociologia das tecnologias. Desde os anos 80, o senhor defende as populações indígenas do Brasil. Como surgiu o contato com os grupos indígenas? Tratava-se de um interesse puramente científico?
Laymert Garcia dos Santos: Para mim, tratava-se inicialmente de um trabalho político, acima de tudo. Nós lutávamos pela igualdade de direitos e pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas. Mais tarde, passei então a estudar a forma como os xamãs trabalham com imagens. O contato com os Yanomami no contexto de “Amazônia – teatro música” aumentou ainda mais esse interesse. A ligação entre os xamãs e o Centro de Arte e Mídia (ZKM), em Karlsruhe, abriu a possibilidade de confrontar dois métodos completamente diferentes de traduzir sons e imagens.
O senhor está satisfeito com o andamento de “Amazônia – teatro música”? Acredita que esse projeto tenha mudado a situação dos Yanomami?
Estou muito satisfeito com o andamento do projeto, tanto do ponto de vista estético, como do político. “Amazônia – teatro música” conseguiu destacar esteticamente a complexidade e a profundidade intelectual da cultura Yanomami. Essa forma de reconhecimento é de importância fundamental para o estabelecimento dos objetivos políticos dos Yanomami. Depois desse projeto, sabemos que os Yanomami não são um povo arcaico. Muito pelo contrário: sua sociedade é tão complexa quanto a nossa, mesmo que de uma forma completamente diferente.
Muitos críticos alemães não gostaram da ‘ópera’. Em sua opinião, por que razão “Amazônia – teatro música” não conseguiu convencer uma grande parte da mídia alemã?
Como não falo alemão, só tomei conhecimento de alguns pontos levantados pela crítica. Mas acho que uma parte da crítica se baseia em preconceitos tipicamente europeus, que se manifestaram sob dois diferentes aspectos. Primeiro, a expectativa de que os xamãs fossem aparecer no palco e representar a si mesmos. Isso é absolutamente inconcebível. Nenhuma obra musical que trate seriamente a cultura dos xamãs pode colocar xamãs no palco.
E, em segundo lugar, a suposição de que a cultura dos Yanomami não seria uma cultura contemporânea, mas sim, arcaica – razão pela qual sua integração/contraposição dentro de um projeto musical contemporâneo e vanguardista teria necessariamente de falhar por razões estéticas. A crítica de que a segunda parte da ópera só refletiria deficitariamente a filosofia dos Yanomami, é absolutamente incorreta. Até hoje, não houve um único projeto cultural, que tenha travado um diálogo tão constante e frutífero com os Yanomami durante um período de três anos, para representar no palco sua visão, da forma mais correta possível.
A meu ver, muitos críticos também não compreenderam a dimensão da terceira parte. A tentativa de Peter Weibel e sua equipe de traduzir em música molecular a floresta tropical, com toda a sua densidade de informações em sons e imagens, tem um fundo revolucionário. Houve ainda outro equívoco – o de que a conferência representada na terceira parte introduziria no teatro música um elemento trágico. Há muito que o mundo vem discutindo uma solução para a salvação da floresta, mas, nas inúmeras conferências em torno do problema, parece não existir a vontade política de deter o desmatamento florestal.
Isso significa que o senhor fracassou em sua tentativa de destruir os clichês existentes na cabeça dos espectadores europeus sobre povos indígenas da região amazônica?
Esse trabalho só pode ser feito pelo próprio espectador. Se o público – como em qualquer forma artística complexa, contemporânea - não se esforça para entender a obra, a tentativa só pode falhar. Nesse sentido, muitos críticos na Alemanha foram tão pachorrentos quanto os brasileiros, pois, não se informaram detalhadamente sobre os bastidores de “Amazônia – teatro música”.
E qual foi a reação no Brasil?
A reação da mídia foi muito decepcionante. Não houve nenhuma reportagem séria. Os jornalistas brasileiros não se ocuparam do tema. Muitos pareciam nem mesmo entender que se tratava de um tema genuinamente brasileiro. Embora tenhamos nos esforçado para contar toda a história do projeto nos contatos com a imprensa.
Em compensação, o público vibrou. Muitos dos que gostariam de assistir ao teatro música, não conseguiram mais ingressos. E, até hoje, ainda encontro pessoas que gostaram muito das apresentações.
“Amazônia - teatro música” também deverá ser apresentado em Manaus. Por que esse lugar é tão importante para o projeto?
É imprescindível que a visão bipolar da Amazônia, que é representada no teatro música – a visão técnico-científica e a visão paralela dos Yanomami – seja apresentada na região amazônica. Com isso, a mensagem de que a cultura indígena é parte da nossa cultura contemporânea, também chegaria à elite influente na região.
O senhor já está planejando um novo projeto. Do que ele trata?
Foi-me dada a possibilidade de construir um centro de pesquisa dedicado a questões essenciais da cultura e da tecnologia, principalmente à interligação de redes culturais digitais e não digitais. Com isso, também daremos sequência ao trabalho com os xamãs, iniciado no âmbito do projeto “Amazônia – teatro música”.
Laymert Garcia dos Santos
é professor de filosofia e sociologia na Uiversidade de Campinas (UNICAMP), São Paulo. Ele nasceu em 1948, em São Paulo. Estudou jornalismo, sociologia e ciências da informação e documentação no Rio de Janeiro e em Paris. Fez sua livre docência na UNICAMP, onde também iniciou sua carreira acadêmica como professor assistente na Faculdade de Educação. Um dos pontos principais do trabalho de pesquisa de Laymert Garcia dos Santos é o diálogo com a população indígena da região amazônica, pela qual ele também se engaja politicamente.
é professor de filosofia e sociologia na Uiversidade de Campinas (UNICAMP), São Paulo. Ele nasceu em 1948, em São Paulo. Estudou jornalismo, sociologia e ciências da informação e documentação no Rio de Janeiro e em Paris. Fez sua livre docência na UNICAMP, onde também iniciou sua carreira acadêmica como professor assistente na Faculdade de Educação. Um dos pontos principais do trabalho de pesquisa de Laymert Garcia dos Santos é o diálogo com a população indígena da região amazônica, pela qual ele também se engaja politicamente.
Entrevista realizada por Tilo Wagner.
Novembro de 2010
Novembro de 2010




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