Fale com a mesa – entrevista com o artista multimídia Bernd Lintermann

O artista multimídia Bernd Lintermann projeta o palco interativo para a ópera Amazônia. Na entrevista, ele descreve uma mesa, que, através de som e imagem, apóia os argumentos dos que se sentam ao seu redor, sobre o seu trabalho no ZKM e seu software “xfrog” que, via algoritmos, abre inúmeras possibilidades de configuração.
Sr. Lintermann, o senhor atua como artista multimídia desde meados dos anos 90. Qual dos seus projetos tem especial importância para o senhor?
O software xfrog. Com este programa, criei diversas instalações, como a SonoMorphis e a Sketches of Utopia, por exemplo. As duas podem ser vistas atualmente no ZKM. Xfrog é um software, que comecei a escrever bem cedo – já em 1995. Ele possibilita a criação de objetos complexos a partir de pequenos módulos. Por trás de cada um desses módulos há um algoritmo, ou seja, um pequeno programa que é executado quando chega a sua vez. Um módulo pode produzir geometria visível, ou geometria múltipla, gerada pelos outros módulos. E, dessa forma, podem surgir objetos bem complexos. Os algoritmos do software imitam estruturas naturais. As formas daí surgidas, quase sempre, lembram plantas.
Na instalação SonoMorphis, os módulos são ordenados por um gerador aleatório. O usuário pode criar diversas variações de um objeto visível selecionando a opção “Mutation”. Estas variações são mostradas numa barra, como pequenos “previews”, que o usuário pode acessar individualmente. No “preview” ele também pode escolher componentes adicionais que influenciam a geometria do objeto tridimensional. Com isso, o usuário utiliza o acaso no mecanismo evolucional, acionando “Mutation” e “Selektion”.

Então o usuário pode brincar de Deus?
Graças ao mecanismo evolucional, o usuário tem à disposição um número extremamente elevado de possibilidades de combinação, quase comparável ao número de átomos que formam o universo. Ao mesmo tempo, é muito fácil operar o programa. Minha decisão pelo mecanismo evolucional foi puramente prática. A idéia de que o usuário poderia brincar de Deus não desempenhou nenhum papel neste caso.
“SonoMorphis” foi mostrada pela primeira vez em 1997, com um único projetor, por ocasião da inauguração do ZKM. Em 1998, Torsten Belschner produziu o som para este trabalho. Em 2009, a instalação pode ser vista em “Panorama-Screen”, uma tela em formato de semi-círculo de 180º e 8 metros de diâmetro, durante a exposição comemorativa do jubileu do ZKM. Os seus trabalhos continuam a se desenvolver com as novas possibilidades de apresentação que surgem rapidamente e nunca são realmente concluídos?
Meus trabalhos andam junto com a técnica. No caso de SonoMorphis, eu mesmo continuei a desenvolver a técnica. A apresentação tridimensional em Panorama-Screen serve para intensificar a percepção sensorial do usuário. Antes de entrar na instalação, ele coloca óculos 3D, que lhe permitem ver um objeto orgânico, tridimensional, voando ao seu redor e que ele pode alterar como quiser.

Uma das suas “Panorama-Screens” será utilizada em Dezembro de 2009 durante a Conferência do Clima em Copenhague. O senhor vende a tecnologia, ou a coloca gratuitamente à disposição de artistas que queiram utilizá-la em seu trabalho?
Desenvolvemos tecnologias no ZKM e as colocamos à disposição de artistas. Como o orçamento dos artistas é, geralmente, bastante limitado, temos de oferecer, dentro do possível, tudo o que precisam para realizar o trabalho idealizado por um custo razoavelmente baixo. Produzimos duas telas e meia, que podemos oferecer a artistas que queiram utilizar este tipo de superfície de projeção em seu trabalho.
Desde que o considere um bom artista.
É necessário que haja um mecanismo de seleção. Não se pode fazer tudo. O trabalho que tudo isso envolve, tem de ser justificado. Entre outras coisas, a relevância e a qualidade da obra são fatores decisivos.

Qual a sua participação na ópera Amazônia?
Sou responsável pela tradução dos temas desenvolvidos por Peter Weibel para a ópera Amazônia para a linguagem de mídia visual. Simplificando: sou responsável pelas imagens no palco. O palco, que estamos montando no Instituto de Mídias Visuais do ZKM, é formado por uma escada, sobre a qual serão projetadas imagens dinâmicas. Sobre essa escada ficarão os cantores. Também estamos projetando uma mesa de conferências interativa. Nesta, os protagonistas da ópera discutirão o tema Amazônia. A mesa tem um tampo digital, que funciona como Multitouch-Screen. A mesa interativa produz imagens e sons que reforçam e esclarecem graficamente os argumentos discutidos.
O que o motivou a trabalhar no projeto?
Como artista multimídia, trabalho com tecnologias. O palco, para mim, é uma área, para a qual ainda não existem tecnologias, principalmente, digitais, adequadamente desenvolvidas e utilizadas. O palco tem um imenso potencial para a utilização de tecnologias. Elas poderiam propiciar o surgimento de conteúdos e formas de utilização totalmente novos, que transformariam completamente o próprio palco.
Desde 2005, Bernd Lintermann dirige o Instituto de Mídias Visuais do ZKM, em Karlsruhe. O artista multimídia, nascido em 1967 em Düsseldorf, é professor da Escola Superior de Design de Karlsruhe. Ele próprio estudou informática em Karlsruhe. Atualmente, projeta o palco multimídia para a ópera Amazônia.
Entrevista conduzida por Verena Hütter.
Novembro de 2009
Novembro de 2009









