A linguagem dos peixes – Entrevista com José Wagner Garcia
Em 2006, em São Paulo, José Wagner Garcia e Joachim Bernauer conceberam juntos a idéia de uma ópera sobre a Amazônia. Pouco antes da concretização desta idéia – a estréia da ópera em maio de 2010 em Munique – o artista multimídia fala sobre o diálogo entre homens e peixes, sobre a junção de arte e ciência, e explica por que ninguém precisa, necessariamente, da visão para se orientar.
Sr. Garcia, na terceira parte da Ópera Amazônia, atualmente em produção no ZKM - Centro de Arte e Mídia - em Karlsruhe, o senhor deu ao peixe elétrico um papel principal. O que é o “peixe elétrico”, e o que ele faz?
José Wagner Garcia: No terceiro ato da ópera, será utilizado um banco de sons que foi obtido a partir de um processo de tradução de campos elétricos (emitidos por peixes amazônicos) em padrões sonoros. Explicarei rapidamente o que são estes peixes.
Em função das águas barrentas de alguns rios amazônicos (como o rio Solimões, e das águas negras de baixíssima visibilidade da bacia do rio Negro), determinadas espécies de peixes que possuem certa atrofia nos órgãos responsáveis pela visão foram “obrigados” a encontrar saídas evolutivas que fossem independentes da visualidade. Tais peixes compensaram a perda da visão com o desenvolvimento de um órgão específico que emite um campo elétrico e é por este campo que estes animais se comunicam com o ambiente (e nele se orientam). O campo elétrico é para o peixe um elo semiótico com a natureza amazônica.

Portanto, a escolha deste elemento como algo a ser inserido na linguagem sonora da ópera foi uma maneira que encontrei para manter este elo semiótico, ou seja, de alguma forma (que passa longe de ser uma mera metáfora) haverá, no âmbito sonoro do terceiro ato, um dialogo concreto entre humanos e peixes. Digo que não é metáfora porque os sons que serão ouvidos na ópera estão calcados na concretude dos campos elétricos que são utilizados pelos peixes. O que fizemos foi traduzir estes campos elétricos em padrões sonoros com a finalidade de, na ópera, podermos utilizar estes sons para construir uma linguagem poética.
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Electric Fish Movie, vídeo: José Wagner Garcia
Em seu trabalho artístico, o senhor se ocupa, principalmente, de temas técnicos e científicos. Por que os converte em artemídia e não em pintura, por exemplo?
Desde o inicio de minha trajetória como artista (ainda no inicio anos 80) eu já trabalhava com media art. Naquela época eu percebi que estas mídias davam ao artista a oportunidade de lidar com técnicas em estado nascente. Para um artista este frescor da técnica é uma provocação, é uma espécie de chamado para agir (no mundo). É como se fosse uma linguagem em estado nascente, num estágio de hesitação fulgurante no qual seria mais fácil a construção do inaudito, a concepção de mundos possíveis. Neste estado, os impulsos criativos do artista parecem poder bailar com mais liberdade.
Por que decidiu encenar o projeto em forma de ópera? Por que não compila seus conhecimentos em uma publicação, ou os insere em uma peça de teatro?
Uma ópera por excelência é uma operação hiper-midiática, ou seja, nela podemos incorporar qualquer tipo de linguagem (como artes do corpo, música, cinema, etc.) e em qualquer tipo de suporte. Eu simplesmente achei que o único tipo de “gênero” que seria capaz de suportar a diversidade amazônica seria uma ópera. Só mesmo uma ópera poderia tentar traduzir poeticamente todo aquele turbilhão geo-bio-socio-antropo-ideo-lógico.

Que objetivo o senhor tem em mente com o projeto Amazônia?
Geralmente as abordagens ao complexo amazônico são restringidas por visões fragmentárias ou reducionistas. A abordagem científica à Amazônia é ainda hoje marcadamente “analítica”, isto é, a ciência (por sua própria natureza) tende a desmontar a complexidade dos fenômenos amazônicos em aspectos cada vez mais elementares para poder “observá-los melhor”.
A proposta que eu tinha em mente desde que procurei o Joachim Bernauer no Goethe Institut (em São Paulo) no ano de 2006 era criar uma ópera bi-nacional (Brasil-Alemanha). Esta proposta só pôde ganhar corpo com a sensibilidade e solicitude de Bernauer, que apresentou o projeto para instituições alemãs e brasileiras. O que eu propunha era que a ópera deveria nascer de um conhecimento artístico e cientifico que seria compartilhado entre essas duas nações. Felizmente, viemos obtendo êxito neste processo de compartilhamento graças aos seminários, palestras, works-shop realizados tanto no Brasil como na Alemanha. É extremamente forte neste projeto a ideia de estabelecer não só um espaço que possibilite a convivência entre arte e ciência mas, sobretudo, de apresentar uma obra que seja fruto de uma mentalidade hibrida, uma mente artistico-científica. Óbvio está que neste projeto, tal mentalidade foi representada pela comunidade de artistas e cientistas tanto do Brasil como da Alemanha.
Acredito que só mesmo uma mentalidade como esta, uma ou diversas mentes que operem segundo uma lógica híbrida seriam capazes de fazer uma tradução poética de um objeto tão colossal como a Amazônia. Neste sentido, as contribuições do artista e pensador Peter Weibel foram fundamentais para que pudéssemos elaborar uma ópera com esse fôlego.
Na verdade, esta ideia que parece animar todo o projeto da ópera já vem sendo desenvolvida por mim em pesquisa de pós-doutorado sob o nome de ciência artística.
José Wagner Garcia nasceu em 1956, em São Paulo, onde estudou arquitetura, design, semiótica e ciências da comunicação, doutorando-se posteriormente em arte e biosemiótica. De 1988 a 1991, foi bolsista no CAVS (center for advanced visual studies) e no MEDIALAB do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em 2001 atuou como pesquisador no Santa Fé Institute. Como arquiteto, José Wagner Garcia projetou mais de 250 edifícios. Também realizou numerosos projetos de filmes de arte e publicou o livro “Amazing Amazon – Evolutionary Aesthetics”. Atualmente ele atua, sobretudo, como arquiteto e artista multimídia.Entrevista concedida a Verena Hütter em março de 2010.








