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«Notes of Berlin» A economia berlinense do bilhete

Jaqueline FreireTroca de casa | Foto (excerto): © Joab NistRefilam por causa de uma bicicleta roubada ou procuram o grande amor – os berlinenses também comunicam entre si através de editais aparentemente estranhos. O bloguista Joab Nist coleciona estes papelinhos, publica-os na internet e mostra como Berlim pode ser absurda e variada.

Felix viaja de elétrico pelo centro de Berlim, na mesma carruagem vai sentada Johanna. Ele repara nela, mete conversa e cavaqueiam durante alguns instantes, até que um deles tem de sair. Um encontro casual, como acontece diariamente em Berlim. Mas o que Johanna não sabe: Felix teve de recorrer a toda a sua coragem para meter conversa com ela. É precisamente isso que ele escreve numa folha de papel branca, que copia e pendura pelo bairro de Prenzlauer Berg, com o objetivo de descobrir Johanna: «Eu seria o Felix mais feliz de todo o Prenzlberg se nos voltássemos a ver.»

Notas da vida real

Joab Nist | © Leon KopplowQuando o neoberlinense Joab Nist, nascido em 1983 em Munique, percorre a Schönhauser Allee em 2010, vê um dos bilhetes de Felix e comove-se. «Identifiquei-me com a busca, pois eu próprio reparei uma vez numa rapariga no metro e não me atrevi a meter conversa com ela», recorda-se Nist. «Então, o que é que fazemos numa cidade grande e anónima para encontrarmos alguém? Isso, escrevemos um bilhete.»

Desde então, Joab Nist percorre Berlim e coleciona esses bilhetes, que surgem pendurados em semáforos, postes de iluminação, entradas de prédios, na universidade ou em bares. São editais nos quais os berlinenses anunciam o seu amor por alguém, amaldiçoam o roubo da sua bicicleta, queixam-se junto dos vizinhos ou procuram uma nova casa. Na maior parte dos casos as mensagens são engraçadas e absurdas, por vezes, desesperadas ou irritadas. Em algumas delas surgem comentários deixados por transeuntes ou vizinhos.

Zangados, românticos e diretos

Em breve Nist decide partilhar os bilhetes colecionados com os outros. Em 2010 desenvolve o blogue «Notes of Berlin», no qual publica diariamente várias mensagens em papelinhos. «É verdade que a maior parte delas são absurdas, mas não têm necessariamente de ser engraçadas para entrarem no blogue. Interessa-me ilustrar a multiplicidade de Berlim, mostrar destinos individuais e capturar o ambiente da cidade», explica Nist.

Joab Nist incita os utilizadores do seu blogue a enviarem-lhe as suas próprias descobertas. A página transforma-se rapidamente num projeto coletivo e torna-se um «arquivo de bilhetes» abrangente. As editoras reparam no projeto e em 2012 surge o primeiro livro de bolso com as melhores «Notes of Berlin». O cientista cultural Nist ocupa-se dos editais no seu trabalho de mestrado na Freie Universität de Berlim, enquanto a página de Facebook do blogue cresce constantemente. No final de dezembro de 2015 tinha mais de 100 mil fãs. Entretanto, Nist publicou três livros e um calendário. Transformou o seu passatempo numa profissão, da qual consegue hoje em dia viver.

Os bilhetes mostram a mudança da cidade

Com base na sua coleção não é apenas possível reconhecer o caráter de Berlim e dos seus habitantes – ruidosos e zangados, idealistas, por vezes ingénuos e românticos, mas sempre diretos. Os bilhetes mostram também como Berlim mudou nos últimos anos. «Quando comecei, enviavam-me muitas coisas sobre o tema do “ódio aos suábios”», diz Joab Nist. «Os novos residentes vindos do sul da Alemanha, que conquistaram Prenzlauer Berg, eram muitas vezes considerados responsáveis pelo encerramento dos clubes noturnos e pelo brotar imparável de lojas biológicas.» Hoje são a gentrificação e o aumento do preço das rendas que acicatam os ânimos: «Existe uma procura de casa muito maior e mais criativa, que não raramente oferece uma grande recompensa em caso de intermediação bem-sucedida. Há cinco anos isso ainda seria impensável.»

Se o Felix de Prenzlauer Berg voltou a encontrar a sua Johanna, isso Nist não sabe. Mas o bilhete de Felix proporcionou uma viragem decisiva à sua própria vida.

Joab Nist: „Heute geschlossen wegen gestern. Die kuriosesten Zettel der Stadt“ [«Fechado hoje por causa de ontem. Os bilhetes mais curiosos da cidade»], Goldmann Verlag, 2015


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Thomas Blecha
Thomas Blecha vive e trabalha como jornalista e redator freelance em Berlim.

Copyright: Goethe-Institut e. V., redação de internet
Fevereiro de 2016

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