Música

O drama do criador

(c) Rita Carmo© Rita Carmo
O título pode parecer algo malicioso, mas na realidade não o é, quero com ele apenas expor cabalmente as dificuldades passadas por quem é responsável pelo divertimento da nossa sociedade. Quando a sociedade vê concertos e festivais cheios durante todo o verão, crê preconceituosamente que os criadores de música vivem num paraíso e não passam por dificuldades.

Contudo, os músicos portugueses da nova geração sentem dificuldades para viver da sua música. Por um lado, precisam de tempo e de meios para viverem apenas da música que produzem, por outro, são confrontados com um sistema que monopoliza a produção de espetáculos e de grandes festivais, criando assim enormes fronteiras entre os artistas mainstream de renome internacional e nacional, quase afogando por completo as produções pequenas.

© Luís Conde-Nataniel, dos Terrakota, uma banda de estilo world music que surgiu em finais dos anos 90 e que é muito bem conhecida do público português, Miguel Oliveira, dos Artemata, coletivo de hip hop que surgiu há bem pouco tempo mas que junta elementos com um grande andamento neste estilo, e Sérgio, dos Skalibans, banda de ska muito popular hoje em dia, concordam em vários aspetos quando lhes são colocadas questões pertinentes sobre os problemas comuns às bandas portuguesas.

Quando questionados sobre as dificuldades que encontram quando lançam um álbum, os Skalibans acreditam que a questão de não terem editora leva a que o investimento seja feito pela banda, surgindo, por conseguinte, problemas na promoção e na distribuição. Adotar uma filosofia DIY possibilita um maior controlo e liberdade sobre todo o processo, mas tem como desvantagem o facto de o tornar trabalhoso e dispendioso.
Também a questão dos espaços que acolhem as bandas nacionais não escapa ao olhar crítico dos Terrakota, que consideram que toda a estrutura das câmaras municipais que organizava os eventos culturais está praticamente extinta. Dessa forma, sobram apenas os grandes festivais mainstream, patrocinados pelas grandes empresas, que querem gerar mais dinheiro e não desenvolver a cultura.

© brunomartins.pt Por outro lado, numa apreciação geral do panorama musical nacional da atualidade, os Artemata veem coisas boas e coisas más, como em tudo na vida. No entanto, de há uns anos para cá têm vindo a assistir a uma valorização da música feita em Portugal e cantada em português, e cada vez veem-se mais artistas a irem buscar influências à nossa cultura, às nossas raízes. Por essa razão, pelo menos no que toca a criatividade, estamos a passar por uma fase muito positiva, concluem.

Outro problema, por mim verificado é o das editoras nacionais, que, na minha opinião, por terem tomado medidas meramente comerciais e com vista ao lucro fácil, não conseguiram ou nem sequer se esforçaram para expandir a nossa música. Isso levou a que muitas falissem e a que outras estejam em vias de extinção, por falta de estratégias, o que fez com que o mercado digital as engolisse. Do meu ponto de vista, a nossa indústria discográfica apenas apoiou uma pequena elite de artistas nacionais, o que contribuiu para que houvesse um desfasamento entre uma geração de artistas e a seguinte.

Assim, podemos concluir que há muita coisa que não nos é percetível na música feita pelas bandas portuguesas que ouvimos todos os dias. Uma dessas coisas é o tempo de que elas dispõem para a criar, a rigidez por parte das autoridades, que dificulta o licenciamento de todas as produções independentes, e a famosa crise em que vivemos. A tudo isso acrescenta-se a falta de divulgação da música dos artistas desta nova geração por parte dos meios de comunicação e um afluxo desmesurado de música estrangeira em todas as rádios, televisões e, principalmente, festivais, relegando para a marginalidade o verdadeiro fruto desta terra e a verdadeira nata da cultura portuguesa.
Ainda assim, ou mesmo por isso, somos obrigados a gritar: SOU PORTUGUÊS E COM MUITO ORGULHO!
Zinho the Earthquake.
Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Músico, compositor, guitarrista e líder dos One Sun Tribe. E DJ.
Já tocou com grandes bandas nacionais e internacionais e em vários festivais nacionais, entre os quais Sudoeste, Creamfields, Delta Tejo e muitos outros. Em 2011 esteve em digressão pela Europa do Leste, atuando na Letónia, na Estónia e na Lituânia.

Copyright: Tudo Alemão
Outubro 2013

Língua original: Português.

     

     
     

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