Música

Lisboa no ouvido - 1ª Parte

© arquivo particular de António Manuel Ribeiro© Corinna LawrenzNão deve haver outra cidade tão cantada e com tanto sentimento como Lisboa. Quem deambula pela Feira da Ladra, o maior mercado de artigos em segunda mão de Lisboa, ou se senta numa das aprazíveis pracetas a beber um café à sombra das árvores, rapidamente ficará com a impressão de que todas as colunas de som da cidade foram feitas para apregoar a sua beleza através do fado. No entanto, Lisboa não é, de modo algum, a única cidade para a qual foram compostas odes musicais: muitos músicos inspiraram-se, por exemplo, em Berlim, como descreve Franziska Gerlach para o “tudo alemão” neste artigo (Berlim no ouvido).

Porém, enquanto Berlim raramente é apresentada de modo romântico, mas antes, muitas vezes, de forma crua e rude em estilos como o Punk, o Rock Alemão e o Dancehall, Lisboa é quase sempre cantada com um olhar declaradamente romântico e uma voz melancólica. São as vozes do Fado, uma música urbana que sofreu as mais variadas influências culturais, que invocam, pelas esquinas e vielas da cidade, a sua Lisboa ao mesmo tempo turbulenta e tranquila, saudosa e alegre – Lisboa, a bela cidade sobre sete colinas, lugar de saudade junto ao Tejo. Mas não só! Existem também outros géneros musicais e músicos que, como iremos ver, ocupam o seu lugar na história musical de Lisboa.

Carlos do Carmo: Lisboa, menina e moça

© Marc Paulino Não obstante, a ligação entre o Fado e a capital portuguesa parece indissociável: “Não há Lisboa sem fado, não há fado sem Lisboa”, canta Carlos do Carmo em conjunto com a sua mãe, a fadista Lucília do Carmo, em 1974. Este cantor inicou a sua carreira nos anos 60 e, nos anos 70, alcançou também o reconhecimento internacional. Em 1976, participou no Festival Eurovisão da Canção em Haia com o tema “Uma flor de verde pinho” – mas foi o Fado ”Lisboa, menina e moça”, do mesmo ano, que se tornou num dos seus maiores sucessos e permanece inesquecível até aos dias de hoje. Tal como muitos dos seus sucessos, também este teve origem na pena de José Carlos Ary dos Santos e Fernando Tordo – e, como em muitos Fados, Lisboa é explicitamente feminina e não é detentora de uma beleza imaculada, mas sim uma mulher da rua, louvada enquanto “mulher da minha vida”. Apenas um ano mais tarde, surge o álbum conceptual “Um homem na cidade”, que leva o ouvinte numa viagem pela metrópole e explora novos caminhos para o Fado, no âmbito da nova liberdade artística do pós-25 de abril. Em 2010, Carlos do Carmo foi embaixador da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade – em conjunto com Mariza (uma das fadistas da nova geração com as quais trabalha), que, entre outras, faz também uma nova interpretação de ”Lisboa, menina e moça”.

Amália Rodrigues: Cheira bem, cheira a Lisboa

© Corinna LawrenzPor outro lado, a rainha do Fado, Amália Rodrigues, pisa os palcos internacionais precisamente com um hino a uma outra cidade portuguesa. “Coimbra”, mais tarde também conhecido como ”Avril au Portugal”, torna-se no seu primeiro grande êxito e é até hoje uma das canções em língua portuguesa mais divulgadas pelo mundo. Mais de uma década mais tarde, surge uma das suas canções mais conhecidas sobre Lisboa, a cidade onde nasceu – ”Cheira bem, cheira a Lisboa”, na qual os cheiros da cidade têm o papel principal: o cheiro a ervas aromáticas, café, castanhas, frutos, flores e mar, mas também, no sentido metafórico, o cheiro da Lua e da solidão. A sua popularidade mantem-se até hoje: não há Festas de Santo António (Manjerico e sardinhas) sem esta canção. Além disso, a compositora belga Wendy Nazaré lança, em 2012, com a sua canção ”Lisboa”, uma homenagem à cidade do seu avô português que, pelo menos no refrão, se orienta pelo texto do tema de Amália.

Hoje em dia, por outro lado, a canção “Cheira bem, cheira a Lisboa” tem uma exibição um pouco mais duvidosa ao nível musical quando é entoada no Estádio da Luz do Benfica, em dia de casa cheia – não deve haver outro fado que seja tocado tantas vezes e gritado a plenos pulmões como este.

Thilo’s Combo & Teresa: Lisboa à Noite

As novas influências da cena musical portuguesa nos anos 60 provêm, entre outras origens, da Alemanha. Thilo Krasmann, nascido em Bremen em 1933 e docente de Música em Lisboa desde o final dos anos cinquenta, trabalha, entre muitos outros artistas, também em conjunto com Carlos do Carmo, cuja exibição no Festival Eurovisão da Canção de 1976 orquestrou. Com a sua própria banda, “Thilo’s Combo”, que, no entanto, nunca chegou a ser muito conhecida, lança uma adaptação em Jazz do fado “Lisboa à noite”, que foi selecionado em 1999 pela Thievery Corporation para uma compilação da sua própria empresa discográfica, surgindo aí sob o nome “Teresa”, da cantora Teresa Pinto Coelho. Esta versão, não muito conhecida do público, tem uma nova exibição em 2012, enquanto tema principal do filme angolano “O Grande Kilapy”, de Zézé Gamboa.

Há ainda outra artista de Jazz que escreveu recentemente a sua ode a Lisboa, “a paradise beside the sea”: nesse mesmo ano de 2012, surge o tema ”Lisboa” no álbum ”The absence”, de Melody Gardot, uma artista inspirada por Lisboa, muito para além desta canção.
Corinna Lawrenz,
nascida e criada em Nuremberga, sempre gostou de explorar o mundo de caderno e câmara na mão. Depois de terminar o ensino secundário, viveu meio ano no Paraguai, regressando então à Alemanha para estudar Ciências dos Média e Ciências da Cultura em Düsseldorf. A seguir viajou novamente para sul, para prosseguir os seus estudos em Lisboa, onde frequenta um mestrado em Estudos de Cultura e escreve para o tudo alemão, revelando o que mais a fascina no seu novo local de residência.

Copyright: Tudo Alemão
Setembro de 2014

Este texto é uma tradução do alemão.
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