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Hanôver e Lisboa – Robert Enke, exposições mundiais e outros pontos em comum

Ursula Kuhlmann© Marc PaulinoHanôver? Quem conhece esta cidade? Não são só os portugueses que fazem esta pergunta, quando se fala da capital da Baixa Saxónia, um estado federal da Alemanha. E, no entanto, Hanôver é a única grande cidade na Alemanha na qual os homens podem passear com as suas esposas (ou as mulheres com os seus maridos) pela trela. (Passamos a explicar: o rio que atravessa Hanôver chama-se “Leine”, que em português significa “trela”.)

Muitos dos habitantes de Hanôver gostam da sua cidade, apesar de alguns alemães a consideram uma cidade de província, sem qualquer caráter especial, na qual, no máximo, se pode dar um agradável passeio a pé ou de bicicleta num dos seus muitos parques, como o Eilenriede, ou junto ao lago Maschsee. Mas Hanôver tem mais para oferecer!

Além das zonas verdes em abundância, o visitante pode também deambular pela encantadora parte antiga da cidade, caminhar ao longo das margens dos rios que a atravessam, o Ihme e o Leine, ou dos lagos que existem à sua volta, ou passar pela feira de antiguidades que tem lugar todos os sábados perto do centro, junto ao rio Leine. Hanôver tem ainda uma oferta cultural interessante, e os muitos estudantes que frequentam os seus institutos e universidades dão-lhe vida e transformam-na numa cidade jovem e simpática.

© Marc PaulinoApesar de tudo, a imagem duvidosa que existe da cidade persiste e reflete-se também nos cânticos dos adeptos de futebol nos estádios, quando a equipa local, o Hannover 96, joga fora: “Nichts ist doofer als Hannover” (“Nada é mais parvo do que Hanôver”), é a frase que ecoa nas bancadas adversárias. No entanto, aquele que era considerado um clube “cinzento” (embora, paradoxalmente, a alcunha da equipa seja “Die Roten”, em português “Os Encarnados”), conseguiu, nos últimos dois anos, feitos memoráveis, tornando a imagem de Hanôver um pouco mais colorida. Desde que Mirko Slomka se tornou treinador da equipa e o clube passou a ser gerido de forma profissional e talentosa, tendo em vista o sucesso a longo prazo, pelo presidente Martin Kind e pelo gerente Jörg Schmadtke, os Encarnados acabaram por se transformar, logo a seguir ao bicampeão Borussia Dortmund, naquele que pode ser considerado o clube-surpresa dos últimos dois anos.

É também há dois anos que esta equipa participa na Liga Europa, onde já alcançou resultados notáveis. (Perderam apenas nos quartos de final contra aquele que veio mais tarde a ser o campeão, o Atlético Madrid e, neste ano, também já ultrapassaram com sucesso a fase de grupos.)

(c) Ursula Kuhlmann

Esta evolução da equipa torna-se ainda mais surpreendente se tivermos em consideração os tempos difíceis pelos quais este clube, bem como todo o meio envolvente, passaram em 2009. A razão para isso foi personificada por um nome bem conhecido de muitos portugueses, do tempo que passou no Benfica: Robert Enke. O guarda-redes da seleção alemã, que retemperava forças no seu clube, Hannover 96, foi também uma figura muito querida em Portugal. O eco provocado pelo seu suicídio ouviu-se também em Portugal, e muitos dos seus antigos colegas do Benfica, como é o caso de Nuno Gomes, vieram a público falar sobre as suas qualidades, tanto enquanto jogador de futebol, como enquanto pessoa.

“O Enk”, como era chamado em Portugal, foi, devido ao seu modo de estar, sempre simpático e afável, em combinação com o seu talento fora do comum como guarda-redes, um dos jogadores alemães mais estimados pelo público português. Robert Enke tinha a intenção de regressar a Portugal para terminar a sua carreira no Benfica. No entanto, infelizmente, o lado mais escuro da vida interpôs-se e o agravar do seu estado depressivo acabou por conduzir, no dia 10 de Novembro de 2009, à morte demasiado precoce deste jogador de 32 anos, que permanecerá na memória de muitas pessoas na Alemanha e em Portugal e que, com toda a certeza, gostaria de ter dado continuação ao seu caminho entre os dois países. Um antigo companheiro de equipa de Robert Enke continua a defender o meio-campo da equipa encarnada Hannover 96: trata-se de Sérgio da Silva Pinto, que pode ser considerado o embaixador português da equipa.

© Marc Paulino

A ligar Hanôver e Lisboa, lado a lado com a proximidade futebolística, está a “Expo”, a exposição mundial, da qual ambas as cidades se irão lembrar ainda durante muito tempo. Vários milhões de visitantes deslocaram-se a Lisboa em 1998 e, dois anos mais tarde, a Hanôver, para visitar a Expo. Que marcas deixou a exposição mundial nestas cidades? Enquanto em Lisboa, da outrora zona industrial degradada, surgiu o Parque das Nações, um bairro novo e florescente, onde se sediaram muitas empresas e se construíram modernos hotéis e a sofisticada Estação do Oriente, em Hanôver grande parte do recinto da Expo encontra-se agora abandonada, à exceção de uma parte, que foi incorporada no recinto da Feira Internacional de Hanôver, onde têm anualmente lugar as mundialmente conhecidas feiras “CeBit” e “Industriemesse”, a feira da indústria.

A utilização do espaço pós-Expo foi, portanto, mais bem conseguida em Lisboa do que em Hanôver. Em compensação, Hanôver ganha pontos a Lisboa quando se trata de transportes públicos. A cidade oferece aos seus cerca de 500.000 habitantes uma confortável rede de transportes: ao todo, são 15 as linhas combinadas de metro subterrâneo e de superfície que ligam o centro da cidade aos subúrbios mais distantes, enquanto em Lisboa há muita margem para melhoramentos, com os 2,5 milhões de pessoas na área da Grande Lisboa a terem de remediar-se com apenas 4 linhas de metro e algumas linhas de elétrico que serpenteiam pelas ruas estreitas e pitorescas. Daí resulta também, infelizmente, a (des)proporção do número de carros e de utilizadores de transportes públicos nas duas cidades.

© Marc Paulino“Wind of change” – a banda de rock “Scorpions” levou a que música oriunda de Hanôver viesse a ser conhecida internacionalmente. Além disso, há dois anos atrás foram também difundidos durante algum tempo nas estações de rádio europeias sinais provenientes de Hanôver, com o primeiro prémio do Festival da Eurovisão da Canção a ser ganho por Lena Meyer-Landrut, com a canção “Satellite”. No entanto, tal como com os Scorpions, só em Inglês!

A um nível mais abrangente, a lista dos pontos em comum entre Portugal e a Alemanha, no que se refere a grandes acontecimentos, teve continuação mais tarde, novamente com um intervalo de dois anos, desta vez por meio de um evento futebolístico: em Portugal, teve lugar o inesquecível Euro 2004 e, dois anos depois, acontecia na Alemanha, com o Mundial de 2006, o chamado “Conto de Verão Alemão”. Mas, apesar de as probabilidades serem as melhores, nenhuma destas duas seleções conseguiu ganhar um dos tão desejados títulos.

O que fará ainda falta a Lisboa e a Hanôver para um futuro em comum? Falta-lhes, sobretudo, uma ligação aérea direta, de modo a dar uma oportunidade à construção de novas pontes.

Marc Weber Paulino
é de Hanôver e vive em Lisboa desde 1999. Trabalha no Serviço Pedagógico do Goethe-Institut, onde é também professor, e continua a gostar de passar o verão com a família em Hanôver, junto da parte alemã da sua família.

Copyright: Tudo Alemão
Janeiro de 2013

Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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