Nómadas

Um estudante alemão em Coimbra

(c) Felix Albrecht © Felix Albrecht

Cheguei a Coimbra em Setembro de 2007 como estudante de ERASMUS. Foi uma das melhores decisões da minha vida. O período da minha existência que passei ali – os altos e baixos, as experiências e os amigos que fiz em Coimbra – é uma das partes mais valiosas da minha história pessoal. Ainda assim, mergulhar na vida estudantil de um português foi também um dos maiores choques culturais que já sofri.

Na Alemanha estudei na Universidade de Göttingen e estava habituado a algumas tradições, mas a dimensão, a evidência – em Coimbra a universidade é o coração da cidade e atinge a vida de cada habitante de forma mais ou menos direta –, as raízes profundas e a seriedade com que estas tradições são conservadas foram algo completamente novo para mim. As tradições académicas de Coimbra, mas também as de todo o Portugal, não devem ter paralelo em nenhuma outra parte do mundo. Os estudantes envergam trajes tradicionais, festejam a sua entrada, têm padrinhos ou madrinhas, são provocados pelos mais velhos de formas quase sempre não totalmente inofensivas, aprendem canções de fado estudantil com séculos de existência e são batizados como estudantes no Mondego, o rio que atravessa Coimbra.

© Felix AlbrechtMas tudo acontece sempre por ordem. Quando entras numa universidade em Portugal começas por ser um caloiro. É-te atribuído um padrinho que te apadrinhará durante a maior parte do ano seguinte. O teu padrinho ajuda-te com o primeiro horário, mostra-te a universidade e, mais importante de tudo, protege-te o melhor possível das provocações de outros estudantes mais velhos. Estas são normalmente de natureza indecente, como, por exemplo, balançar balões com o peito ou algo semelhante em locais o mais público possível. Como compensação pela proteção o teu padrinho recorre a ti para todo o tipo de serviços, como carregar a sua pasta de estudante – ou a ele próprio para casa, caso não o consiga fazer sozinho, devido à bebedeira. Um estudante de ERASMUS experimenta poucas destas situações em primeira mão. Mas eu tive a sorte de encontrar rapidamente amigos portugueses que me explicaram tudo e me deixaram participar em algumas atividades. Na maior parte das vezes fiquei muito contente por não fazer parte dos próprios acontecimentos.

Em Novembro, no início do ano académico, os estudantes celebram a Festa das Latas. É uma festa louca. Os caloiros mascaram-se de forma singular, pintam os seus corpos e depois penduram, com cordéis, latas a si próprios e desfilam pela cidade, sob abastecimento constante de álcool. É a festa mais louca que alguma vez presenciei.Donos de lojas de toda a cidade, mas principalmente das que ficam situadas no percurso da festa (que vai do campus universitário ao Mondego, passando pela Praça da República), fecham os seus estabelecimentos preventivamente, para evitar encontros com os estudantes bêbedos. No entanto, a maior parte deles junta-se simplesmente à festa.Este desfile, a que se dá o nome de Latada, provoca um rasto de destruição, o que, por alguma razão, não parece incomodar ninguém. E a mim, armado com uma câmara e embriagado, era algo que também não me interessava.

© Felix Albrecht Em Maio tem então lugar a Queima das Fitas, a maior e mais importante festividade. É a festa de finalistas dos estudantes mais velhos. Começa na primeira sexta-feira de Maio e dura sete dias inteiros. Nessa altura os licenciados podem ser facilmente reconhecidos pela cartola, pelo laço e pela bengala nas cores da faculdade. Além disso devem ser tratados com deferência. Já eles próprios não seguem essa regra, pois fazem muito e frequente uso da última possibilidade que têm de aborrecer os mais jovens. A Queima é, ao mesmo tempo, a festa de despedida dos mais velhos e a festa de entrada dos caloiros. Os caloiros compraram os seus trajes no período de preparação da Queima e agora podem finalmente envergá-los.

Este traje não é barato e é constituído por calças, saias, coletes, casacos, bolsas especiais e, o mais importante, por compridas capas pretas, que de tempos a tempos se revelam muito práticas. Nestas são cosidos os brasões das faculdades e dos diferentes clubes universitários que distinguem um estudante. Numa cerimónia realizada com a noite bem avançada, os caloiros levam as suas capas até ao campus universitário e os respetivos padrinhos colocam-lhes pela primeira vez as capas da forma tradicional. É através deste gesto que eles se tornam estudantes inteiramente respeitados. Naturalmente, existe também uma tradição especial para os estudantes de mestrado, que é preparada ao longo de meses. Os famosos carros de flores, que desfilam do campus universitário até ao Mondego, exigem uma longa preparação. São construídos com flores de papel com as cores da respetiva faculdade, que, fixas a uma construção, são conduzidas através da cidade por um camião. Os estudantes seguem lá em cima na superfície de carga e atiram guloseimas e garrafinhas com bebidas alcoólicas à multidão, e servem cerveja. Existem rumores de que é consumida mais cerveja na Queima do que na Oktoberfest de Munique. Mesmo que eu tenha muitas dúvidas sobre isso, a verdade é que nunca faltaram bebidas alcoólicas e nunca acabou a procura por elas.

Tradicionalmente, a Queima termina com uma garraiada na Figueira da Foz, uma cidade próxima. Muitos estudantes viajam logo na véspera para a Figueira e dormem então, envoltos nas suas capas, no parque ou na praia, o que proporciona uma imagem insólita: montes negros não identificados espalhados por toda a relva verde. Quando se levantam lentamente de manhã, põem quase sempre a descoberto estudantes completamente exaustos, muitas vezes em luta contra ressacas pesadas.

As touradas são realizadas por toureiros profissionais, mas acabam sempre com os estudantes a invadirem a arena e a meterem-se com o touro. Mas não há motivo para preocupação, para este fim é introduzido na arena um touro mais jovem e fraco, pelo que é raro acontecer alguma coisa.
A semana de festa termina com as fotografias da faculdade na arena. A seguir os exaustos estudantes arrastam-se até ao comboio, para casa e para as suas camas, que nos dois dias seguintes raramente abandonam.

Só posso recomendar este evento a todos os que pensam viajar para Portugal e desejo muita sorte para aquela que é talvez a melhor experiência da sua vida.
Felix Albrecht
estudou Economia na Universidade de Göttingen e trabalha atualmente, como colaborador científico, no seu doutoramento em Marburg.

Copyright: tudo alemão
Abril de 2013
Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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