Nómadas

Adeus Lisboa com pompa e circunstância

(c) Veronika Faust © Veronika Faust

“É mais barato ou tens medo de andar de avião?” Era essa a pergunta frequente à minha afirmação de que pretendia viajar de comboio, e não de avião, no meu regresso de Lisboa à Alemanha. Não gosto particularmente de voar, mas na verdade existiam duas outras razões para a minha decisão. Por um lado o comboio é mais ecológico e por outro anda a uma velocidade que me dá a sensação de conseguir acompanhar.

Depois de ter passado oito meses na Península Ibérica, a ideia de fazer a viagem entre Lisboa e Estugarda no espaço de duas horas e meia parecia-me simplesmente atroz. Assim, decidi realizar a minha jornada de regresso a casa de comboio, fazendo uma paragem intermédia em Salamanca, onde tinha passado três meses e meio dos oito, para rever os meus amigos que ali viviam, e então deixar definitivamente aquelas paisagens quentes.

© Veronika FaustA despedida de Lisboa não foi exatamente fácil, e o mais tardar quando dei por mim sozinha na estação, apenas acompanhada pela minha montanha constituída por mala de viagem, mochila, saco de plástico e mala de mão, é que um grande nó de tristeza se formou na minha garganta e senti a tão portuguesa saudade da minha maneira muito pessoal. Felizmente tenho muitas vezes a sorte de encontrar nas minhas viagens pessoas muito queridas. Pelo menos as minhas duas companheiras de cabina não perderam muito tempo com perguntas e limitaram-se a abraçar-me. Incrível – provavelmente só mesmo os latinos é que conseguem fazer algo assim. Depois de rapidamente respondidas as, então sim, perguntas de apresentação, sentámo-nos as três frente a frente nos nossos beliches, balançámos as pernas e as duas partilharam o seu jantar comigo, com a maior das naturalidades.

Às primeiras horas da manhã despedi-me então de vez, com um último “adeus”, do revisor português e da língua portuguesa e coloquei-me nas mãos de um taxista espanhol, que me deixou na escuridão com um para mim novamente estranho “De nada, maja”. Junto à residência da minha amiga, a voz dela já ressoava do intercomunicador. “Geli, és tu?” Quatro cañas, três tapas e 15 frases não termináveis (os espanhóis simplesmente não nos deixam acabar uma) depois, voltei a sentir-me em casa, também em Salamanca. Era novamente tempo de partir.

© Angelika Gärtner Acompanhada de um amigo, apressei-me para a estação, tomei mais um café e toca a viajar para a capital. Ali outra amiga esperava por mim no bar da estação. Com ela estavam dois amigos colombianos – tinham decidido beber para ganhar alguma coragem antes da sua jam session. Extremamente prestáveis, como o são os verdadeiros cavalheiros, ajudaram-me depois a carregar a minha montanha de bagagem para o compartimento do comboio.

Só que para a minha fina colega de cabina aquilo foi demasiada agitação. Como sempre, o compartimento tinha uma ocupação internacional: uma sueca, uma australiana e a citada senhora, que se descrevia a si própria como “escolhe: francesa, britânica ou espanhola”. Garantindo que ainda não estava “discapacitada”, com quase 80 anos, recusou-se a trocar a sua cama alta pela minha, que ficava na parte de baixo. Na conversa matinal, em diferentes línguas, como é evidente, contou-me sobre as suas viagens: tinha aprendido espanhol no Equador e ainda antes da guerra tinha atravessado o Atlântico de navio. Sete vezes no total. Mas agora apanha, naturalmente, o avião. O seu neto trabalha em Nova Iorque. Mas Lisboa ela ainda não conhece.

© Veronika Faust Após a troca de estação em Paris, o ICE alemão em direção a Frankfurt já está preparado para mim. Involuntariamente tenho de pensar na canção dos Wise Guys: “Senk ju for träveling wis Deutsche Bahn”. Mas o revisor francês fala extremamente bem alemão e inglês. Depois do primeiro café de filtro alemão por 2,80€, no entanto, penso durante breves instantes em voltar para trás, penso no meu café de pequeno-almoço em Lisboa e sonho regressar. Mais uma hora e um quarto até Mannheim. Será que a minha alma chegará lá com a mesma rapidez? O mais tardar quando vejo a minha mãe radiante na estação, segurando um biscoito em forma de lebre com pedacinhos de chocolate, torna-se claro para mim: a Alemanha tem-me de novo. Ainda não cheguei completamente, mas trouxe muito comigo!
Angelika Gärtner
concluiu em Hohenheim o mestrado internacional “Organic Food Chain Management” e estudou ainda em Valência e Évora. Graças aos estudos universitários e às inúmeras viagens – sobretudo de autocarro e de comboio ou a pé –, há muito que tem uma ligação especial à Península Ibérica. Atualmente estuda Espanhol e Português na Universidade de Tübingen e ensina Alemão como Língua Estrangeira. Entre janeiro e março de 2013 foi estagiária no Goethe-Institut em Lisboa.

Copyright: Tudo Alemão
Agosto de 2013
Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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