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O Eintracht Frankfurt e eu: paixão, loucura e… sabedoria

(c) Joao Ventura © João Ventura

A 26 de Junho de 1989, uma segunda-feira, li uma breve notícia no jornal desportivo português A Bola que dizia mais ou menos o seguinte: “O Eintracht Frankfurt perdeu em Saarbrücken por 1-2, na segunda mão da liguilha de permanência na Bundesliga. No entanto, como tinha ganho o primeiro jogo por 2-0, o clube de Frankfurt continuará na primeira divisão alemã na próxima temporada”.

Até então, tinha eu 13 anos, apenas ouvira falar de um clube alemão na minha vida. Tratava-se do Bayern Munique, que dois anos antes havia perdido com o FC Porto na final da Taça dos Campeões Europeus. Tudo o resto era para mim uma incógnita, incluindo o Eintracht Frankfurt. No entanto, sem que percebesse muito bem porquê, naquele momento nasceu um amor imediato pelo clube da capital financeira da Alemanha. Calculo que tenha sido pelo nome. Na altura não fazia ideia do seu significado, mas a conjugação daquelas duas palavras, de alguma forma, inspirava-me uma sensação de força, de poder.

© João Ventura A verdade é que na meia década seguinte o clube do Hesse deu razão às minhas expectativas. Entre 1990 e 1995 o Eintracht foi um dos clubes grandes da Bundesliga. Ainda hoje me recordo da desilusão que foi a perda do título em 1992. À entrada para a última jornada o Eintracht era líder e só precisava de vencer no terreno do Hansa Rostock para se sagrar campeão. Na altura não havia internet, nem televisão por cabo, nem tão pouco teletexto. Foi, portanto, com o coração aos pulos que comecei a folhear o jornal do dia seguinte, quando o meu pai chegou com ele a casa. Não foi um balde de água fria, foi a Antártida inteira que caiu em cima de mim. O Eintracht tinha perdido por 1-2 e descido para terceiro lugar na última ronda do campeonato, perdendo assim a hipótese de conquistar o segundo título da sua história.

No entanto, tal infortúnio não esmoreceu o meu amor pelo clube. Pelo contrário. O Eintracht era, então, uma réplica fidelíssima do meu clube português, o Sporting. Ambos jogavam o futebol mais bonito do seu país, e ambos chegavam ao final de cada época, invariavelmente, de mãos vazias.

© João Ventura Um belo dia fiz uma promessa a mim próprio: se alguma vez for a Frankfurt, compro uma camisola do Eintracht. Essa vez chegou em Junho de 2000, quando viajei para a Alemanha com os meus pais com o objetivo de visitar a Expo, em Hannover. A primeira paragem em território germânico foi precisamente
… Frankfurt. Determinado a cumprir a minha autopromessa, entrei em todas as lojas de desporto que encontrei. Mas, tendo a época terminado recentemente, já só restava a camisola alternativa. E eu não queria menos do que a principal! Deixei Frankfurt dececionado, mas também esperançado. Afinal de contas ainda iria visitar mais três cidades. No entanto, estranhamente, não voltei a encontrar camisolas do meu querido Eintracht.

Regressei, enfim, a Portugal sem o objeto do meu desejo. E esse fracasso nunca deixou de me remoer por dentro. Até que, em 2002, vi a luz. Com férias marcadas para Agosto, consultei o calendário da Bundesliga (mais concretamente, da segunda divisão…) e reparei que o Eintracht jogava em casa com o St. Pauli a 11 de Agosto, bem no meio do meu período de descanso. Calculei os dias de que precisava para ir e vir, de carro, e tudo se encaixou.

A única questão problemática era como contar aos meus pais. Eu tinha a certeza de que se eles me soubessem perdido na Europa Central ao volante de um Opel Corsa, não iriam pregar olho durante os seis dias que duraria a jornada. Restou-me então inventar um passeio bem mais modesto, ao Algarve. E assim, no dia 8 de Agosto de 2002, com doses enormes e equivalentes de emoção e nervosismo, lá me fiz à estrada. Todas as noites ligava para casa: “Mãe, estou em Portimão! – Hoje estou em Albufeira! – Acabei de chegar a Tavira!”. Na verdade estava nos arredores de Barcelona, de Lyon ou de Frankfurt. Se isto não é a chamada mentirinha piedosa, não sei o que será.

© João VenturaEm Frankfurt tudo correu às mil-
maravilhas. No sábado consegui adquirir logo o bilhete para o jogo e a camisola principal do meu clube, um verdadeiro Santo Graal. No domingo fui ao estádio e presenciei uma excelente exibição e uma confortável vitória do Eintracht, por 4-0. No final, um entusiasmado coadepto pôs-se a gritar comigo, de sorriso rasgado. O meu alemão, à época, era muito limitado, mas ainda hoje creio que sei o que aquele senhor de bigode me estava a dizer: “E deviam ter sido mais, e deviam ter sido mais!”

Quando regressei a Setúbal decidi contar a jornada toda aos meus pais. De outra forma seria difícil explicar de onde trazia tantas camisolas de futebol (pelo caminho comprei também as do Atlético de Madrid e do Saint-Étienne) e por que razão tinha necessitado de fazer 5500 quilómetros para passar uns dias no Algarve. Mas decidi também outra coisa: começar a aprender alemão. Hoje posso dizer que foi uma das decisões mais sábias que tomei na minha vida.
João Ventura
nasceu em Setúbal em meados dos anos 70. Licenciou-se em Comunicação Social, vertente de Jornalismo, no ISCSP, em Lisboa. Ainda cumpriu o objetivo de ser jornalista desportivo, mas depressa se aborreceu e começou a dedicar-se a outras coisas, entre as quais aprender alemão. Quando deu por si estava a fazer traduções dessa língua. Hoje é editor na Literal Azul, colaborador regular do Goethe-Institut e mestrando em Edição de Texto na Universidade Nova de Lisboa. Ainda não desistiu do sonho de um dia viver na Alemanha.

Copyright: Tudo Alemão
Outubro de 2013
Língua original: Português.

     

     
     

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