Nómadas

Vida de cão

(c) Lisa Paleczek © Lisa Paleczek

“Oooooh, posso fazer-lhe uma festinha?”
“Como é que ele se chama?”
“É um ele ou uma ela?”
”Que idade é que ele tem?”


Quem quiser tratar rapidamente de um assunto em Lisboa e resolver levar consigo o seu cão, para este não ficar sozinho em casa, cometeu um erro grosseiro.

© Lisa Paleczek A cada par de metros surge um novo apaixonado por cães e surgem sempre as mesmas perguntas, as histórias sobre os seus próprios animais domésticos e discussões sobre a raça (no meu caso um pouco difícil de saber, pois o meu “Menino” é um rafeiro vindo do canil e eu não faço a mais pequena ideia de quem foram os seus pais). Um facto que, todavia, não impede ninguém de emitir a sua opinião especializada sobre o tema “raça”, proclamando sempre com 100 por cento de certeza que se trata claramente de um labrador, de um rafeiro do Alentejo ou, indiscutivelmente, de um border collie. Dessa forma os assuntos que temos de tratar começam já a atrasar-se um pouco. No entanto, por uma questão de justiça, deve assinalar-se que hoje em dia, não sendo ele já um bebé querido e fofinho, é mais fácil despachar a lista de coisas a fazer do que há apenas dois anos, quando ele mais parecia uma atração de feira. Enquanto orgulhosa mamã de um cãozinho, quando ele é elogiado com tanto entusiasmo, torna-se difícil dizer “não” a quem pergunta se lhe pode fazer festinhas.

© Lisa PaleczekAs boas dicas também não faltam e todos parecem conhecer o nosso cão e as suas necessidades melhor do que nós próprios. Para uma novata em Portugal, um pequeno passeio deste tipo é, em todo o caso, uma boa aula prática da língua. Também não nos podemos queixar de solidão, quando temos de nos justificar diariamente perante tanta gente. Além disso, deve ainda ser mencionado que aqui em Lisboa quase se pode falar de uma subcultura de donos de cães, pois todos se conhecem no seu bairro. Sobretudo quem se encontra ao mesmo tempo no mesmo parque, onde os cães brincam ruidosamente entre si. O gelo é facilmente quebrado, o animal constrói a ponte para a comunicação. No entanto, é curioso que a maior parte das pessoas se conheça entre si, se cumprimente, leve a cabo conversa de circunstância, mas apostaria que em 80 por cento dos casos os participantes na conversa conhecem o nome do cão, mas não o do dono. Não é raro ouvir-se frases como: “O dono do Bob contou que a dona da Laura disse que…”

É tudo bom e belo, poder-se-ia pensar. São um povinho muito apreciador de cães, os portugueses. Ora bem… Também não é bem assim. Verificam-se algumas contradições, se pensarmos que muitos cães são aqui mortos nos canis, devido à falta de espaço e de recursos. Independentemente disso, há algumas coisas neste país, no que respeita a sair à rua com um cão, que não são compreensíveis, ou que não ponderamos, enquanto austríaco ou alemão, quando decidimos salvar da morte uma destas pobres criaturas. Por exemplo, sem automóvel é um pouco difícil viajar com o nosso amigo de quatro patas. Andar de metro só é possível com açaime, mas isso é compreensível. Andar de comboio também é permitido e desde há pouco tempo já não é necessário comprar bilhete para o cão. E no autocarro, no elétrico ou no elevador? Não… A Carris não permite animais a bordo, só numa caixa de transporte adequada. É pouco prático com um cão de 20 quilos. Enfim, resta-nos permanecer fiel à vizinhança mais próxima, a que possamos chegar a pé, de metro ou de comboio.

© Lisa PaleczekDepois de um longo passeio queremos permitir-nos um café (tão apreciado pelos portugueses). Tudo bem – mas só na esplanada. Os cães não são bem-vindos em cafés e restaurantes. Para mim, como austríaca, é algo de bastante estranho, pois no meu país é possível levar o nosso querido amigo de quatro patas para todo o lado. Ao fim de inúmeras discussões aceitei, com relutância, o argumento da higiene. Difícil de explicar, todavia, é a obrigatoriedade de deixar o cão à porta de uma loja de fotocópias ou de um centro comercial. Enfim… Outros países, outros costumes.

Apesar de tudo, os futuros salvadores de cães não se devem deixar assustar por estes pormenores marginais e até podem ficar felizes por a chuva e o frio fazerem aqui muito menos parte da ordem do dia: assim podemos apreciar o nosso café ao sol, lado a lado com o nosso fiel animal.
Lisa Paleczek
já escreveu a sua tese de mestrado em Educação Especial sobre terapia com cães para crianças. Após o seu ano de Erasmus no âmbito da sua licenciatura em Psicologia, permaneceu mais três anos em Portugal, onde até há pouco tempo trabalhou como professora de alemão e de inglês e, além disso, ainda deu um novo lar a um cão português.

Copyright: Tudo Alemão
Outubro de 2013
Língua original: Alemão.

     

     
     

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