Nómadas

Um Inverno na Alemanha

© Lisa Paleczek © Raquel Magalhães

Foi no dia 25 de Novembro que caiu o primeiro nevão daquele ano. Nós éramos uma portuguesa, dois mexicanos e um espanhol, todos apertados num quarto minúsculo da residência de estudantes de Peter-Hille-Weg, a olhar pela janela. De repente, um de nós, já não me lembro quem, gritou que estava a nevar.

Ou talvez tenhamos gritado todos ao mesmo tempo, maravilhados, surpreendidos pela neve que caía sem que nenhum boletim meteorológico o previsse. No minuto seguinte já estávamos porta fora, a descer as escadas que ainda não nos faziam escorregar, para observar de perto a neve que mal tinha força para resistir ao calor do chão. Foi no dia em que abriu o mercado de Natal da cidade.

© Raquel MagalhãesDeixámos os gorros e as luvas no quarto. Tocámos na neve mesmo assim, atirámo-la uns aos outros e ficámos com as pontas dos dedos geladas e os cabelos brancos. Aos poucos, mais estudantes estrangeiros saíam dos seus quartos e juntavam-se a nós. Recuperados do espanto inicial, enviámos mensagens aos nossos amigos, na Alemanha e em casa. Eu liguei à minha mãe. Valia a pena gastar o pouco saldo que tinha no telemóvel para lhe contar que estava a nevar.

Os nossos amigos alemães não nos percebiam, olhavam pelas janelas e rogavam pragas à neve que caía. Alguns dos nossos amigos estrangeiros também não entendiam o porquê de tanta euforia, mas atiravam-nos bolas de neve e sorriam por nos verem felizes ao sermos atingidos na barriga ou na perna. Para muito de nós, aquele era o nosso primeiro "white Christmas".

© Raquel MagalhãesCaminhei sobre a pouca neve que finalmente se começava a juntar nas estradas e nos espaços verdes que rodeiam a universidade de Paderborn e fui para as aulas. A vontade era pouca e o frio, estranhamente, tornava-se muito mais apelativo. Fui buscar um café, tirei o caderno da mochila e sentei-me. Pouco ou nada ouvi do que foi dito naquela aula de Mediengeschichte. A professora estava sentada de costas para a janela e atrás dela os flocos continuavam a cair, agora iluminados pelas luzes da rua. Ainda não eram 5 horas da tarde e já escurecia. Quando voltei a olhar para o relógio, tinham passado 5 minutos. E quando espreitei novamente ainda só eram 5 e meia.

Finalmente a aula acabou e eu não voltei logo para casa. Encontrámo-nos todos no pátio da residência de Vogeliusweg para uma luta de bolas de neve a sério. Começámos por correr por todo o lado, esconder-nos e atirarmos bolas a 3 metros de distância, mas passado pouco tempo já estávamos a esfregar neve nas caras uns dos outros. A luta acabou e eu fiquei sem o guarda-chuva que tinha pousado no chão para ter as duas mãos livres e conseguir defender-me dos lutadores mais agressivos que enfiavam neve dentro das camisolas dos adversários. Depois fomos todos juntos ao mercado de Natal.

Eu já tinha visto neve e admito que, passado uns tempos, tornou-se difícil conviver com ela. Não tinha máquina de lavar roupa em casa e lavar roupa implicava atravessar praticamente toda a cidade com um saco cheio de roupa às costas. A neve dificultava-me a travessia, principalmente na viagem de volta, durante a qual levava a roupa molhada para casa, recusando-me a pagar 10 cêntimos por minuto à máquina de secar.

© Raquel MagalhãesAndar de transportes públicos também se tornou um desafio. Os autocarros estavam sempre apinhados de gente que fugia do frio e do gelo que se formava nos passeios e nos fazia tropeçar. Os comboios chegavam mesmo a parar. Quando voltei a Portugal para passar o Natal em casa saí de Paderborn às 6 da manhã com medo que os atrasos dos comboios me fizessem perder o voo. Ganhei essa batalha, mas uma escala mais demorada no aeroporto de Palma de Maiorca atrasou o meu regresso.

O inverno do final de 2010 e início de 2011 foi rigoroso em toda a Europa. Lembro-me que senti mais frio na minha casa do Porto do que na minha casa de Paderborn. Porque a neve, apesar de dificultar algumas tarefas diárias, também as torna mais bonitas. O inverno que passei em Paderborn foi o mais frio que vivi até hoje, mas foi, acima de tudo, o melhor!

Este ano, os dois mexicanos ainda estão na Alemanha e o espanhol está a viver na Hungria. Adivinhem em que dia começou a nevar.
Raquel Magalhães
nasceu no Porto há quase 23 anos. Estudou no Colégio Alemão do Porto e licenciou-se em Ciências da Comunicação, tendo escolhido o ramo de assessoria. Durante o curso fez Erasmus durante 6 meses na Alemanha, em Paderborn. Actualmente vive em Lisboa, é assistente editorial na Literal Azul e está a tirar o mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, no ISCTE.

Copyright: Tudo Alemão
Fevereiro de 2014
Língua original: Português.

     

     
     

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