Nómadas

Porque é que comer pão ao almoço engorda e é absurdo sair de casa de t-shirt com 20 graus

© Veronika Faust © Veronika Faust

Quando tomei a decisão de seguir Estudos Espanhóis e Portugueses ficou claro que estes seriam acompanhados por um semestre no estrangeiro. Já tinha passado quase um ano em Espanha, pelo que me decidi por Portugal.

A escolha era agora entre Porto e Lisboa. Admito, nem sequer tomei o Porto em consideração. Lisboa! Eu nunca tinha vivido numa capital. E Lisboa, segundo me diziam, era algo de muito especial. «Quando tiveres lá estado, nunca mais a conseguirás verdadeiramente deixar», dizia-me Jaime, o meu professor de Espanhol. E provar-se-ia que tinha razão.

Em fevereiro de 2010 chegou o aguardado dia: pus-me finalmente a caminho do até então para mim completamente desconhecido país chamado Portugal.

© Veronika FaustMal me instalei no belo apartamento partilhado por quatro raparigas, vivi logo o primeiro choque cultural. Eram os hábitos alimentares que me confundiam. Às horas tardias das refeições já eu estava habituada de Espanha. Mas duas refeições quentes por dia? Era algo novo para mim. Ainda me lembro, como se fosse ontem, do olhar chocado da minha companheira de casa com a mania das dietas, quando me apanhou à hora de almoço com uma bela sanduíche e um iogurte. «O que estás a fazer?», foi a sua pergunta ligeiramente desconcertante. «Estou a almoçar», foi a minha igualmente insegura resposta. «COMIDA FRIA????» Quase conseguia perceber o horror nos olhos dela. Sim, bem, uma sanduíche… Era assim tão esquisito? Eu achava muito mais estranho que a cada oportunidade ela apertasse, com um suspiro, os seus inexistentes pneus e depois enfardasse duas vezes por dia peixe e carne, mais os respetivos acompanhamentos.

Mais tarde nesse dia, no meu trabalho num pequeno bar, o meu chefe esclareceu-me: «Aqui não comemos pão. Quer dizer, pelo menos não como vocês. Uma tosta mista ou uma torrada juntamente com o café, isso fazemos de vez em quando. Mas estas são quentes e, no caso das tostas, bem recheadas. Vocês é que só comem pão. Pão e ovo. E frios. Isso engorda. Quem come comida fria fica com a sensação de que não comeu nada. É por isso que vocês, alemães, são todos tão gordos!»

Ora bem, muito interessante.
«Portanto, nós alemães somos assim tão gordos porque comemos demasiado pão», pensei, enquanto também eu apertava os meus inexistentes pneus e servia ao meu cliente de 120 quilos, em cima de um guardanapo que já estava a ficar transparente, os rissóis de bacalhau que ele ia pedindo.

Chegou o mês de abril e com abril veio o sol. Muito tarde, como me disseram, mas era-me indiferente, o importante é que ele estava lá. Não teria aguentado nem mais um dia no meu quarto sem aquecimento e com as janelas embaciadas por dentro. Até a universidade era bem mais agradável de manhã, pelas nove horas, quando estava aquecida.

© Veronika FaustMas o que era aquilo? 20 graus e para onde olhava só via casacos de pele e de cabedal, combinados com botas grossas. Haveria algo que me estava a escapar? Um amigo cumprimentou-me com um abanar de cabeça. Enquanto enrolava o seu cachecol à volta do pescoço, explicou-me que não fazia sentido nenhum ir para a rua em t-shirt com 20 graus. «Olha lá para fora», disse ele, «e vê qual é o pessoal da universidade que está sentado a apanhar sol. Tiraram imediatamente as roupas. Todos alemães. Erasmus. Não encontras aqui nenhum português que não esteja pelo menos de camisola.» «Mas porquê, se está um calorzinho tão agradável?», quis eu saber. «Ora, pensa lá um bocado», disse ele, «ainda vai ficar muito mais calor aqui. 20 graus não é nada! Vão ficar mais de 30! E se eu começo já a usar as minhas camisas, o que vou então fazer quando estiverem mais 10 graus? Venho em tronco nu?» Esta lógica desconcertou-me. Significa isso que, mesmo que esteja calor, devo vestir algo mais grosso e suar, apenas para ter algo que possa despir quando estiver mais calor, para então suar também porque está mais calor??

Pelos vistos sim. Pelo menos, os meus amigos e conhecidos adotaram esta tática com grande frieza. Eu não. Eu habituei-me a ignorar os olhares e a suar o menos possível.

Mas uma coisa é curiosa.
Regressei a Lisboa com o objetivo de viver ali. E quando, no último mês de maio, com 20 graus, vestindo uma camisola de lã, estava sentada no Miradouro da Graça a apanhar sol e a apreciar um café e uma torrada, dei por mim a abanar a cabeça por causa das turistas inglesas que posavam em frente à maravilhosa vista sobre Lisboa envergando calções curtinhos e tops.
Veronika Faust,
nasceu e cresceu na Alemanha. No entanto, depois de ter concluído o ensino secundário tem vivido cada vez menos ali, pois com o seu amor por aprender línguas desenvolveu igualmente o seu amor pela vida no sul da Europa. Após se ter licenciado em Estudos Espanhóis e Estudos Portugueses em Göttingen e Lisboa, realizou um estágio no Goethe-Institut Portugal, em Lisboa, para o qual trabalha hoje como redatora do tudo alemão.

Copyright: Tudo Alemão
Abril de 2014
Língua original: Alemão.

     

     
     

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