Nómadas

Uma viagem de carro pelo deserto de Portugal

© Johanne Peito © Johanne PeitoNa verdade, sou uma pessoa urbana. Sinto-me bem na confusão e na barafunda das cidades com milhões de habitantes e gosto de encontrar pessoas ou de poder fazer compras no supermercado a quase qualquer hora do dia. Adoro o Porto, a segunda maior metrópole de Portugal, pela sua animada vida noturna e pela acolhedora azáfama diurna. Mas de vez em quando até eu preciso de me distanciar do reboliço de pessoas: nessas alturas prefiro viajar por alguns dias até ao interior de Portugal, para ali apreciar a natureza e a sua tranquilidade.

Os viajantes que vêm pela primeira vez a Portugal têm, na maior parte dos casos, como objetivo fazer turismo na capital Lisboa ou apanhar sol na costa algarvia. Até agora, a região do Alentejo ainda se encontra relativamente intocada pelo turismo, mesmo que pareça feita à medida para ele. As casas de pedra decoradas de forma carinhosa e tradicional e situadas no meio do nada são ideais para o descanso: não há barulho nas ruas, nem gases de escape, nem prédios altos – apenas oliveiras, sobreiros e prados acidentados.

© Johanne PeitoPara o comprovar com os meus próprios olhos, no meu 25.º aniversário fiz-me ao caminho juntamente com o meu namorado, num VW Polo com quase trinta anos. Local de partida: Porto. A nossa meta: Serpa, a quase 500 quilómetros de distância. Deveria ser uma viagem de quatro horas e meia, no entanto, precisámos do dobro do tempo. E tudo tinha começado de forma tão positiva: o carro encontrava-se atestado, cheio de bagagem e nós cheios de alegria a pensar na piscina que nos esperava na meta. Estava um dia quente. Apreciávamos a paisagem que, com o passar dos quilómetros, se tornava mais acidentada e seca. Há muito tempo que não podia deixar o meu olhar vaguear para tão longe. Não se via uma casa ou uma pessoa a milhas de distância – apenas árvores e vacas isoladas.

Ao fim de algumas horas de viagem, um abanão estranho obrigou-nos a parar. Na berma direita da autoestrada constatámos que nos tinha rebentado um pneu. Interiormente já nos via a esperar horas ao calor, pois até então não estava habituada à rapidez em Portugal. Mas fomos surpreendidos positivamente: em vinte minutos chegou o serviço de assistência técnica e um mecânico simpático ajudou-nos a mudar o pneu com movimentos ágeis de mão. De um alemão eu teria esperado, pelo menos, um olhar depreciativo ou a pergunta sobre como alguém se poderia aventurar na estrada com um carro tão velho – em suma: a culpa é vossa. O português, contudo, a cujo cerrado sotaque alentejano ainda tive de me habituar, conversou descontraidamente connosco e deu-nos algumas dicas simpáticas para o resto da viagem. A propósito, a sua ajuda foi gratuita – um grande alívio, tendo em conta o elevado preço das portagens em Portugal.

Felizes, voltámos a entrar no carro e apreciámos a viagem livre através de uma natureza parca, que às vezes me fazia lembrar África. O problema é que o nosso VW Polo era mesmo de 1987 e isso voltou a fazer-se sentir novamente ao fim de não muito tempo: outro pneu rebentou! Sem um segundo pneu sobressalente na bagagem, tivemos de ser rebocados até à garagem mais próxima. Com mais de 30 graus e no meio da pampa portuguesa.

© Johanne PeitoDesta vez esperámos uma eternidade na berma pelo mecânico, pois os relógios avançam de forma diferente no Alentejo. Os prometidos «cinco minutinhos» de tempo de espera transformaram-se em quase três horas. Quando finalmente chegámos a uma pequena oficina de automóveis numa aldeia minúscula, os pneus foram trocados com uma paz de alma tal que quase me fez perder os nervos. O tempo parecia ter parado: as ferramentas eram todas velhas e enferrujadas e no canto estava um rádio transístor pré-histórico e crepitante. Como é óbvio, também não havia um leitor de multibancos e tivemos sorte de ter dinheiro suficiente na carteira. Naquele momento, como senti saudades da cidade grande!

Mas a amabilidade das pessoas com que nos cruzámos neste dia compensou quase tudo o resto. E quando, finalmente, às 21 horas, chegámos cansados a Serpa, o vinho tinto alentejano soube ainda melhor.
Johanne Peito
nasceu e cresceu na Alemanha, mas também tem raízes portuguesas. Para conhecer melhor a sua segunda pátria, Portugal, ela realizou um semestre de Erasmus na Universidade do Porto. No seu mestrado, Johanne, de 25 anos, especializou-se nas disciplinas de Literatura, Práticas dos Media e Filologia Germânica. Ao mesmo tempo trabalha no departamento de imprensa e relações públicas dos serviços sociais e administrativos da Universidade Essen-Duisburg.

Copyright: Tudo Alemão
Janeiro de 2015
Este texto é uma tradução do Alemão.

     

     
     

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