Nómadas

O “meu” mundo animal na serra de Monchique

© Marina Hader© Gudrun BartelsPara mim, que cresci na planície à volta da cidade hanseática de Bremen, o “mundo montanhoso” de Monchique, com o Fóia e o Picota, no Algarve, é uma pequena cadeia montanhosa. Do terraço onde me encontro, tenho, para sul, uma ampla e extraordinária vista sobre a costa e, para norte, vê-se a floresta de sobreiros subindo a montanha. Não tenho conhecimentos muito profundos acerca da fauna desta região, e não sei que animais são mais difíceis de encontrar. No entanto, fico sempre profundamente impressionada com a variedade de animais que aqui existem, e, por esta razão, gostaria de vos descrever um dia nesta paisagem.

Obviamente que o galo não faz parte dos animais selvagens. Porém, dada a importância do seu papel em Portugal, e uma vez que é ele que me acorda todos os dias, vou começar com ele – além disso, ele não está preso!

© Gudrun BartelsDesde o monte em frente, ele não parece acordar-me apenas a mim; também os cães se juntam a ele e, quando me sento à mesa do pequeno-almoço e começo o dia com descontração, ouço e vejo os mais diversos pássaros. O primeiro a cumprimentar-me é o pintarroxo. É engraçado ver o macho com o seu peito avermelhado, enquanto a fêmea mal se vê na confusão da folhagem da oliveira. Porém, o “canto” deste pequeno pássaro não é especialmente abundante. Aproxima-se da felosa das figueiras (vi este nome numa revista) com um ou dois amigos e, juntos, destroem a última flor da minha planta favorita, o Aloé Vera vermelho. Entretanto, pequenos pássaros brancos sobrevoam o vale, passando pela parte escura da montanha que não recebe ainda a luz do sol. Serão maçaricos-brancos? Parecem vir da costa oeste. Da floresta de sobreiros, ouve-se o pica-pau e também outros pássaros que se ocupam com os troncos das árvores. De repente, uma grande gritaria: duas pegas competem com um par de gaviões.

O pequeno-almoço vai chegando ao fim, tenho alguns assuntos para tratar na cidade. Entro no carro e desço a montanha. Passo por uma quinta onde se criam burros, que bom que esta espécie encontre aqui continuidade. Mas vejam só quem está à beira da estrada! Um poupa-eurasiática, com a sua maravilhosa crista. Até hoje nunca tinha visto este pássaro no seu habitat natural, já ganhei o dia. No caminho de volta, ao longo da lagoa, sou surpreendida pela visão de um grupo de flamingos. E no caminho de volta à serra, passo por imensos ninhos de cegonha, todos eles ocupados.

© Gudrun BartelsChegada a casa, espera-me ainda o trabalho no jardim. Tenho principalmente que arrancar dos muros do terraço a trepadeira com as suas maravilhosas flores azul-lilases. De repente, numa fenda do muro, vejo uma salamandra. Essa mesma que tão bem conhecemos da nossa infância, de quando íamos comprar sapatos: Lurchi, a salamandra-de-fogo*. Um exemplar adulto, negro com pintas amarelas. Está muito quieta, mas, quando volto com a máquina fotográfica, já desapareceu. Há também algumas lagartixas a apanhar banhos de sol em cima das pedras quentes, e na fonte, na parte de baixo do terraço, a longa cobra preta brinca na água. Por sorte não pretende sair dali – é pelo menos o que eu espero.

Lentamente, o sol vai descendo no horizonte, está a ficar fresco. Entro em casa com um molho de lenha debaixo do braço. A certa altura, ouço um restolhar extremamente ruidoso e volto a sair para ver o que se passa. Munida de uma lanterna, encho-me de coragem e aponto a luz pelo monte acima, na parte de trás da casa. É então que me deparo com os olhos espantados de um javali adulto. Também os seus dentes brilham à luz da lanterna, e à sua volta vejo mais animais desta espécie, todos olhando atentamente na direção da luz.
Fico um pouco inquieta, e quando os animais começam de repente a mexer-se, apanho um grande susto, fujo para dentro de casa, bato com a porta e espero que não me sigam. Mas o grupo parece já se ter posto a caminho, noutra direção. De manhã, pelo menos, vejo que, mais uma vez, uma parte do solo da floresta foi revirado e poderia plantar-se ali novas árvores sem grande esforço.

© Gudrun BartelsMais tarde, já deitada, ouço o canto da coruja, que inicia o período noturno. Ela ou ele chama por um parceiro e, passado algum tempo, lá vem a resposta do monte em frente. E assim continuam durante imenso tempo – o que será que estão a contar um ao outro? Ainda não consegui tirar fotografias de ambos estes animais, nem dos javalis, nem das corujas. Já várias vezes “bati à porta” da casa da coruja, o sobreiro oco e queimado onde às vezes a vejo, mas ela não estava lá. Claro que, da única vez em que ela estava em casa, saiu da árvore exibindo as suas magníficas asas e se afastou, voando sob da coroa da árvore, eu não tinha a máquina fotográfica comigo. Talvez um dia consiga.

Esqueci-me completamente de mencionar as osgas, que já quase pertencem à família, ou pelo menos pertencem à casa. Tal como todas as noites, esperam-me no quarto. E, como sempre, também hoje não se deixam cair do teto.

Não há dúvida de que foi um dia bestial.

*A autora refere-se a uma figura criada por uma sapataria alemã de nome Salamander: Lurchi representa uma salamandra-de-fogo e é o protagonista de uma coleção de livros infantis. N da T
Gudrun Bartels

Copyright: Tudo Alemão
Junho de 2015
Este texto é uma tradução do Alemão.

     

     
     

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