Nómadas

Efeitos secundários

Foto: (CC0 1.0), pixabay.com/ jarmoluk : https://pixabay.com/de/der-ball-stadion-fußball-488700/

1.
O meu fascínio por futebol começou quando emigrei para a Alemanha. Não é que me tenha tornado numa especialista – ainda continuo a só conseguir reconhecer um fora de jogo depois de o árbitro ter apitado e quando é mostrado na repetição. Penso que o que contribuiu para isso foi o facto de o futebol ser jogado a um ritmo ao qual me consigo adaptar (ao contrário do basquetebol), bem como a existência de uma certa diversidade de movimentos (ao contrário do ténis).

Devo acrescentar que também não percebo muito de basquetebol e/ou de ténis.

2.
Aparentemente, gostar de futebol não combina comigo. Já tive que ouvir tantas vezes coisas como: Vais ao jogo? Gostas de futebol? Não combina nada contigo.

Por esta razão, fiz um trabalho de introspeção e cheguei à conclusão de que gosto mesmo de futebol. Ficou dada a resposta à primeira pergunta. No entanto, a verdade é que também acho o futebol um pouco estranho.

De onde vem então este fascínio repentino? (Ainda hoje me assaltam a memória as lembranças de como me sentia farta do maldito Carrrrrrrusel deportivo! dos domingos da minha infância.)

3.
Procedi então conforme o princípio da exclusão de partes: não se trata de sentir uma ligação especial com os adeptos que aparecem na televisão. Só fui duas vezes a um estádio. Acho estranho chorar quando a nossa equipa perde. Não me interesso nem pela estratégia do jogo ou pelas transferências de jogadores, nem tão pouco pelas explicações dos jogadores, do treinador ou do presidente do clube ou pelo merchandising de uns ou de outros. Acho graça aos treinadores quando se “passam” no campo, como o Jogi Löw, mas também não é isso.

4.
 jarmoluk: https://pixabay.com/de/der-ball-stadion-fußball-488700/ Acho que gosto de futebol porque se trata de um jogo de grande clareza. Um jogo de futebol representa um determinado contexto, existe um campo de jogo com medidas pré-definidas, uma interação entre regras e variáveis, e depois é fazer o melhor que se puder. Em futebol, tudo é claro. Durante noventa minutos, os rapazes de uma das equipas tentam chutar a bola para dentro de uma das balizas, e os outros fazem o mesmo. E cá fora, nada mais importa: queremos apenas que ganhem o jogo. Se possível, queremos que se superem a si próprios e que nos surpreendam e marquem golos, como faria um peixe voador. Caso não o façam, devem pelo menos correr de um lado para o outro.

5.
Depois de ter passado cá algum tempo, ficou claro que a Alemanha está a dar cabo de mim. A língua deu cabo de mim, o clima deu cabo de mim, não sabia quando é que devia olhar alguém nos olhos, quando é que devia tirar os sapatos e quando é que era adequado mudar de “você” para “tu”. Foi difícil para mim perceber como é que alguém podia dizer uma piada apesar de estar a falar de algo muito sério. Por isso, depois de algum tempo, deixei de me rir tanto. A paisagem era-me completamente estranha, diferente de tudo o que conhecia até então – tanta floresta e tanta chuva –, que me parecia impossível sentir outra coisa que não estar “fora do sítio”.

6.
E acho que é isto.

Quando emigrei para a Alemanha, encontrei no futebol um lugar conhecido, um universo previsível – agora entram em campo, agora atacam, é canto –, um oásis aconchegante onde todos nos entendíamos e, sobretudo, onde eu entendia tudo. Um momento em que podia divertir-me sem ter que estar sempre a pensar na conversa, com todos os seus dativos e acusativos e verbos que se dividem ao meio para colocar a primeira parte no final e conjugar a segunda parte. Quem é que se lembra de tais coisas?
Sol García Prats
esteve em viagem durante a sua vida inteira – como é muitas vezes o caso dos professores de espanhol como língua estrangeira. Algures entre o Mar Báltico e o Mar Mediterrâneo deixou de saber muito bem se tinha acabado de chegar ou se já estava novamente de partida. Passou sete anos no norte da Alemanha, onde trabalhou no Instituto Cervantes e na Universidade de Kiel, entre outros. Depois do seu doutoramento em Literatura de Viagens, foi parar a Valência, onde está agora a especializar-se em Educação Pré-Escolar e onde pode andar de sandálias até meados de outubro. Aqui poderão, durante as próximas semanas, saber mais sobre a sua vida entre os dois mares.

Copyright: rumbo @lemania
Junho de 2016
Este texto é uma tradução do alemão; língua original: espanhol.

     

     
     

    Migração e integração

    A migração altera culturas

    rumbo @lemania

    © rumbo @lemania
    … el portal para jóvenes nómadas

    FuturePerfect

    © Future Perfect
    Hitsórias para amanhã - hoje, em todo o mundo

    Goethe-Institut Portugal

    Bem-vindo
    à nossa
    Homepage!