Nómadas

Na Alemanha nem tudo é perfeito

(c) Joao Ventura © João Ventura

Não sei se é verdade, mas gosto de pensar que sou o português mais alemão da História. Desde pequeno que, por intermédio de um tio ex-emigrante, ouço dizer maravilhas da Alemanha e, desde então, a minha paixão pelo país de Goethe e de Götze não para de crescer. Qualquer pessoa que me conheça um pouco sabe a que me refiro quando utilizo o termo «a Pátria». Mas isso não me tolda o sentido crítico e, ao fim de catorze estadias na Alemanha, várias coisas continuam a incomodar-me sobremaneira. Aqui fica um apanhado.

Altura das pessoas

Com cerca de 1,76 metros, tenho uma altura bastante decente para um português. Mas na Alemanha isso serve-me de pouco. Tenho a perceção de que a maior parte dos alemães são bem mais altos do que eu, o que num ajuntamento de pessoas me é francamente desvantajoso. Sobretudo se associarmos a isso uma certa propensão dos alemães para assistir a determinados eventos de pé. Assim, quando vou, por exemplo, ao futebol ou a um concerto na Alemanha, já sei: ou compro bilhete para um lugar sentado (se houver), ou corro o risco de passar o espetáculo aos saltinhos para conseguir ver alguma coisa. Já o fiz e não achei agradável.

Depósito de garrafas e latas

© JP Reis Grande parte das garrafas e latas de bebidas na Alemanha têm depósito, isto é, quando as compramos temos de pagar, normalmente, mais 25 cêntimos, que recuperaremos se e quando as devolvermos vazias. Compreendo que seja uma atitude amiga do ambiente, mas para um português habituado a desfazer-se das coisas sem pensar no assunto, é bastante incómodo ter de guardar os recipientes até ter possibilidade de os devolver. E não ajudou nada o facto de, na minha primeira estadia mais prolongada na Alemanha, ter andado semanas a acumular garrafas vazias apenas para estas acabarem por ser levadas pela empregada de limpeza do quarto em que estive instalado...

Nomes para tudo

Como tradutor, não é nada raro a língua alemã colocar-me perante situações desafiantes e, por vezes, frustrantes. É que no idioma de Goethe existem, simplesmente, palavras para tudo e mais alguma coisa. E muitas dessas palavras não têm correspondência em português. Por exemplo, seria de esperar que uma borboleta chamada «Kleiner Fuchs» pudesse ser conhecida na nossa língua por «pequena raposa». Mas não, temos de nos contentar com o seu nome científico, um pouco simpático «Aglais urticae». Se num livro técnico isto não é problemático, encher uma publicação infantil de designações científicas não parece cenário muito animador. Haja criatividade!

Pagamento de necessidades fisiológicas

Na Alemanha é muito difícil fazer necessidades fisiológicas gratuitamente fora de casa. Muitos locais públicos, como estações de comboios, possuem sofisticados sistemas de torniquetes para cobrar entrada a quem precisa de utilizar a casa de banho. E se há poucos anos essa utilização custava 50 cêntimos, agora já vai em um euro! Mas aquilo com que tenho mais dificuldade em lidar é com as sentinelas humanas em muitos WC, incluindo de restaurantes, bares ou supermercados. Sentadas à porta, junto a uma mesa na qual se destaca um pires, esperam que deixemos compensação por fazermos aquilo que ninguém pode fazer por nós. Se não o fizermos, o mais certo é ouvirmos algum tipo de impropério. Num país em que beber muita cerveja é obrigatório (pelo menos para mim), penso que deveria haver maior compreensão para com as bexigas alheias.

Placidez no trânsito

© JP Reis Se se fizesse um inquérito sobre o componente automóvel preferido dos portugueses e as respostas fossem honestas, creio que o único que faria concorrência ao acelerador seria a buzina. Seja pela sua verve musical, seja por escassez de civismo, os portugueses não abdicam de mostrar os seus sentimentos no tráfego através de buzinadelas, e quanto mais intensas melhor. Poucas vezes conduzi na Alemanha, mas ando muito a pé. E a placidez no trânsito é tão grande que me assusto genuinamente quando ouço uma buzinadela. Caminhar nas cidades alemãs faz-me refletir sobre a vida. Nas portuguesas é impossível manter um fluxo de pensamento duradouro. O que talvez não seja mau de todo.

Preço do café

Na minha vida real costumo beber duas a três bicas por dia. Mas essa rotina é completamente destruída sempre que estou na Alemanha. Por uma única razão: o preço. Se beber três cafés em Portugal me fica por volta de dois euros, na nação teutónica esse valor triplica. Ali, um expresso custa, em média, precisamente dois euros. Como os restantes tipos de café andam pelo mesmo preço, opto habitualmente por algo que não a bica. Não posso dizer que me saiba mal, mas... não é a mesma coisa.

Severidade nas ciclovias

© João Ventura Pouco a pouco, as cidades portuguesas vão recebendo as suas ciclovias. E elas dão muito jeito, sobretudo aos pedestres. As senhoras de salto alto, por exemplo, agradecem esta dádiva divina, que lhes permite caminhar num piso seguro em vez de na sempre instável calçada portuguesa. Na Alemanha, onde as ciclovias são parte indispensável em (quase) todas as ruas, isso não é, infelizmente, possível. As ciclovias são, imagine-se, para uso exclusivo de veículos com rodas (bicicletas, skates, patins, etc.). Um peão que as utilize corre sérios perigos para a sua saúde, pois não raramente um bom ciclista germânico prefere arriscar um acidente a abdicar dos seus direitos. Para quem gosta de andar distraído pelas ruas, como é o meu caso, as ciclovias alemãs podem ser causa de incontáveis sustos.

Como se vê, nem tudo é perfeito na Alemanha. Ainda assim, não lhe mudaria nenhuma destas características. Quando se ama, seja uma pessoa, seja um país, ama-se tudo, qualidades e defeitos.
João Ventura
nasceu em Setúbal em meados dos anos 70. Licenciou-se em Comunicação Social no ISCSP, em Lisboa. Ainda foi jornalista desportivo, mas depressa se aborreceu e começou a dedicar-se a outras coisas, entre as quais aprender alemão. Quando deu por si estava a fazer traduções dessa língua. Hoje é editor na Literal Azul, colaborador regular do Goethe-Institut e concluiu recentemente o mestrado em Edição de Texto na Universidade Nova de Lisboa. Ainda acredita que um dia viverá na Alemanha.

Copyright: Tudo Alemão
Setembro de 2016
Língua original: Português.

     

     
     

    Migração e integração

    A migração altera culturas

    rumbo @lemania

    © rumbo @lemania
    … el portal para jóvenes nómadas

    FuturePerfect

    © Future Perfect
    Hitsórias para amanhã - hoje, em todo o mundo

    Goethe-Institut Portugal

    Bem-vindo
    à nossa
    Homepage!