Nómadas

267 quilómetros

© Sofia SantosQuando contei à família e aos amigos que, de forma completamente espontânea, iria fazer o Caminho Português de Santiago durante duas semanas, do Porto até Santiago de Compostela, ao longo da costa portuguesa, as reações foram bastante diversas: de «267 km? Parece-me um pouco exagerado para alguém que normalmente não faz caminhadas», passando por «267 km? Segundo o Google Maps, é possível fazê-lo em dois dias», até «Soa bem, era capaz de te acompanhar», ouvi de tudo. E assim iniciei a viagem no início de fevereiro, ansiosa pelo Caminho e pelos desafios que ele traria consigo.

Porto - Caminha:

© Marina HaderHá diversas variantes do Caminho que ligam o Porto a Santiago. Para o meu Caminho de Santiago tinha optado pela variante costeira, pelo que fui conduzida pelos recorrentes pequenos símbolos da concha, em muitos troços sempre ao longo da praia, em direção a Espanha. Com os seus 250 a 270 km (dependendo da variante), e poucas subidas, o Caminho Português de Santiago é bastante viável, mesmo para caminhantes inexperientes e sem grande preparação.

No entanto, torna-se relativamente depressa percetível (no meu caso, ao terceiro dia) se os sapatos são os mais adequados: dependendo dos padecimentos de que sofram os nossos pés, podemos remediar-nos com pensos para bolhas, Voltaren, gelo para arrefecer ou ainda uma ligadura para estabilizar as articulações dos pés. Quem pretender dormir em albergues públicos (entre 5 e 10 euros por noite num dormitório), deve planear antecipadamente as etapas diárias, especialmente em Portugal e no início do Caminho, pois parte dos albergues ficam muito afastados uns dos outros (15-25 km), e em regra não conseguimos chegar com grande rapidez ao albergue mais próximo.

Caminha- Redondela:

O mais tardar após os primeiros cinco dias a pé atingimos pouco a pouco o ritmo de peregrinação: levantar, tomar o pequeno-almoço e toca a partir! Então torna-se também logo claro se o peso da mochila é carregado nas ancas e não nos ombros, e se não teremos, na verdade, colocado um pouco de coisas a mais na bagagem. É possível encontrar online, muitas listas de bagagem minimalistas para o Caminho, mas é fácil cair na tentação de enfiar mais coisas na mochila. Quem logo ao fim dos primeiros quilómetros se apercebe de que pode abdicar de algumas coisas que leva na mochila, fará bem em enviar bagagem para casa ou em deixar bens supérfluos nos albergues, para os próximos peregrinos e caminhantes. Uma das melhores experiências do Caminho foi, para mim, o reconhecimento de quão pouco realmente necessitamos e de quão muito podemos surpreendentemente abdicar.

© Marina HaderNo que, a meu ver, não devemos poupar quando iniciamos o Caminho de Santiago é no tempo que planeamos para o cumprir. É agradável saber que, em caso de dúvida, podemos fazer uma pausa um pouco maior num sítio bonito ou, por exemplo, apreciar a vista da Basílica de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ou a cidade velha de Valença, sem termos de nos apressar. A partir da fronteira espanhola o Caminho é ainda mais bem sinalizado e uma oferta de lojas e restaurantes claramente dirigida para os peregrinos (com as típicas conchas de Santiago, impermeáveis para peregrinos, pensos para as bolhas, menus para peregrinos, etc.) torna-se cada vez mais visível. Também as distâncias entre os albergues públicos se tornam mais curtas (5-10 km), o que permite que, em caso de necessidade, nos possamos hospedar mais cedo ou, então, prolongar a etapa mais um pouco.

Redondela – Santiago de Compostela:

Se queremos percorrer o Caminho em grupo ou sozinhos, é uma decisão muito pessoal. Em todo o caso, há sempre a possibilidade de nos juntarmos a outros peregrinos e de trocarmos impressões com eles, seja sobre as razões que os movem ou sobre os impermeáveis ou os sapatos de caminhada mais recomendáveis.

Enquanto na primeira metade do percurso caminhei sozinha praticamente durante o tempo todo, a partir de Redondela, e até ao fim do Caminho, dois amigos fizeram-me companhia, e depois de vários dias de caminhada solitária fiquei feliz pela boa e familiar companhia, com cuja ajuda foi um pouco mais fácil suportar o «sofrimento» de vários dias de chuva insistente. Além disso, fiquei contente por poder agora partilhar as minhas impressões com alguém, sobretudo as das últimas etapas diárias: a partir de Padrón caminhámos a três sob um sol radioso em direção a Santiago, com pés feridos, estoirados pelo longo caminho e, ao mesmo tempo, entusiasmados pelo facto de a meta estar quase à frente dos nossos olhos! É praticamente impossível descrever o que sentimos quando, após muitos, muitos quilómetros e outras tantas experiências, as torres da catedral surgem por entre os telhados da cidade velha de Santiago e nós sabemos que conseguimos.

Quem estiver a considerar fazer-se ao Caminho, só posso encorajá-lo a ir em frente. O Caminho é, seguramente, diferente para cada um, mas, com toda a certeza, sempre recheado de recordações muito especiais: Que tenhas um bom caminho!
Marina Hader
é originária dos arredores de Augsburgo. Este ano percorreu pela primeira vez, mas certamente não pela última, o Caminho de Santiago.
Copyright: Tudo Alemão
Maio de 2018

Língua original: Alemão.

     

     
     

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