Nómadas

À caça de pechinchas à beira do lago de Constança – uma feira da ladra sem fronteiras

© Theresia Schlechshorn© Theresia SchelchshornAs feiras da ladra têm a sua atmosfera muito própria – vasculha-se, regateia-se e ri-se. Uma vez por ano, os amantes de tralhas são atraídos ao lago de Constança, à beira do qual tem lugar uma feira da ladra muito especial: funciona durante 24 horas, de sábado à noite a domingo à noite, das 19h00 às 19h00. As suas bancas estendem-se por nada menos de dois países: a Alemanha e a vizinha Suíça. No último fim de semana teve lugar uma nova edição, e eu misturei-me com os caçadores de pechinchas.
Logo no sábado à tarde os primeiros comerciantes começam a espalhar as suas mercadorias. Mesas de madeira simples e porta-cabides vacilantes servem de espaço de vendas à maior parte deles. Nas horas seguintes, nada menos do que 1000 donos de bancas colocarão à venda as suas tralhas e raridades. Seguindo o conselho da imprensa local, começo a minha aventura na feira da ladra no lado suíço, em Kreuzlingen. É que ali o regateio começa uma hora mais cedo.

Fronteira (linguística)

© Theresia SchelchshornE, na verdade, já reina agitação comercial quando atravesso a fronteira. Encantada com a perspetiva de encontrar um ou outro tesouro, esgueiro-me, curiosa, por entre as bancas em redor. Numa caixa, na banca de um senhor idoso, reparo num livro. Pergunto quanto custa o alfarrábio. A resposta é imediata, mas tenho de voltar a perguntar, pois não compreendo o seu dialeto suíço à primeira. Dois francos suíços. «Mas só tenho euros comigo», atiro, pesarosa. Ele também precisa de voltar a perguntar, pois não compreende imediatamente o meu dialeto bávaro. «Ah, ok, sim, claro que também aceito euros.» Quando enfio o livro na minha mochila, rimos um para o outro. Apesar da língua, entendemo-nos.

Quando finalmente inicio o meu caminho em direção a Constança, no lado alemão, tenho ainda nove quilómetros de caminhada à minha frente, orlados com bancas da feira da ladra. As ruas, entretanto, estão apinhadas. Este ano são, mais uma vez, esperados até 80 mil visitantes. Apesar disso, avanço corajosamente de banca em banca. Ao meu lado, um homem admira uma caixinha de madeira trabalhada em filigrana. «Quem é que a fez?», pergunta. A vendedora sorri. «O meu pai era marceneiro, foi ele próprio que a fez», explica, orgulhosa.

© Theresia SchelchshornArrebatada pelo ambiente divertido, quase não reparo que a noite caiu. Nas bancas da feira da livra brilham agora luzes: velas, lâmpadas e correntes de luzes têm a função de continuar a possibilitar aos visitantes a visão das raridades. Os genuínos profissionais da feira da ladra, contudo, inspecionam os tesouros com as suas próprias lanternas de bolso e frontais. Os seus cones de luz deslizam através da noite de verão. Cansada da marcha e de negociar, ponho-me a caminho de casa – já os comerciantes têm a noite toda pela sua frente...

Café, crianças e um banho no Reno

Na manhã seguinte, completamente repousada, volto a partir para a feira da ladra bem cedo. Desta vez deambulo ao longo da margem do Reno e vejo rostos cansados, mas satisfeitos. Os conhecidos que se aproximam são cumprimentados pelos resistentes comerciantes com um alegre «olá» e são-lhes entregues chávenas com café fumegante por cima dos espaços de venda. Também no parque, apenas alguns metros mais à frente, já predomina um animado alvoroço: crianças espalham os seus brinquedos sobre toalhas de piquenique por si trazidas e treinam-se na negociação. Um rapaz fica muito excitado quando me interesso por um dos seus jogos de cartas. «Então, o que me queres dar em troca?», pergunta-me ele, «eu também não te quero exigir muito dinheiro.» O meu coração aquece-se com esta amabilidade infantil e dou-lhe mais um euro do que ele me pediu.

© Theresia Schelchshorn As horas passam e tanto os visitantes como os comerciantes têm de lutar contra o calor do meio-dia. Para se refrescarem, muitos dos vendedores saltam, sem cerimónias, para o Reno. Poucos momentos depois lá estão eles de novo, a pingar e embrulhados em toalhas, atrás das suas bancas. Também o nível de ruído aumenta a cada hora que passa: todos se querem livrar do que trouxeram, dê por onde der. A toda a voz, gritam sem parar novas ofertas para a multidão. É neste cenário ruidoso que, finalmente, se esgotam as 24 horas de caça às pechinchas.

Foram horas de encontros: o presente encontra o passado, o novo encontra o velho, a Alemanha encontra a Suíça, a noite encontra o dia, amigos encontram-se com desconhecidos. As feiras da ladra são lugares de encontro. Talvez também nós nos encontremos no ano que vem! A aventura da feira da ladra de 2019 está marcada para 29 e 30 de junho!
Theresia Schelchshorn
cresceu numa pequena aldeia na floresta bávara, mas o curso superior de «European Studies» levou-a até Passau. As suas estadias no Brasil e na Irlanda deram-lhe a conhecer e fizeram-na amar culturas e línguas estrangeiras. Entre janeiro e março de 2017 foi estagiária no Serviço Pedagógico no Goethe-Institut de Lisboa.

Copyright: Tudo Alemão
Junho de 2018

Língua original: Alemão.

     

     
     

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