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Berlim – A cidade que nunca ri

© Jonathan Date No novo local de trabalho na revista zenith, em Berlim | Foto: Mratt Kyaw Thu O jornalista cultural Mratt Kyaw Thu troca o seu local de trabalho em Yangon por Berlim. Durante a sua estadia de três semanas no âmbito do intercâmbio de jornalistas “Nahaufnahme” (“Grande Plano”) do Goethe-Institut, está a trabalhar como convidado na revista berlinense zenith e fala-nos das suas experiências na capital.
“De onde és?”
“Sou de Myanmar.”
“Desculpa, de onde?”
“Myan-mar (mi-an-maa)”
“Lamento, mas não conheço. É um país?”

Quando falo com pessoas na Alemanha, ouço constantemente esta resposta. Como nunca tinha estado na Europa, também eu não sabia nada sobre os alemães e os seus comportamentos. No entanto, logo passado pouco tempo, reparei que os alemães são muito sérios. Chego a perguntar-me se se riem de todo.

Todas as manhãs vou a uma padaria na esquina da rua Stahlheimer com a Erich-Weinert, onde estou a morar por um mês graças ao apoio do Goethe-Institut. No caminho, quando passo por estranhos e os nossos olhares se cruzam, sorrio para eles. No entanto, o que recebo em resposta são olhares de estranheza.

As pessoas estão sempre com pressa e parecem estar sempre a pensar seriamente sobre qualquer coisa. Está muito bom tempo neste momento em Berlim, pelo que não deveria haver motivos para tanta seriedade. Mas é provavelmente essa a grande diferença entre os europeus e os asiáticos.

“É preciso investir muito numa amizade”

Uma vez que tenho um companheiro de casa em Berlim, tinha a esperança de fazer mais amigos durante a minha estadia na cidade. Fiz um grande esforço para encontrar amigos, mas durante uma semana inteira não tive qualquer sucesso. Por sorte, durante um evento onde se reuniram alguns asiáticos e europeus, uma jovem veio cumprimentar-me quando soube que eu era de Myanmar.

Convidado em Berlim com o “Nahaufnahme (“Grande Plano”) 2018”| Foto: Mratt Kyaw Thu

Mais tarde, convidou-me para a sua festa. Foi aí que finalmente recebi uma resposta à pergunta que não me saía da cabeça o tempo todo: por que é que, para os berlinenses, a amizade é algo de tão profundo? Um jovem explicou-me em palavras simples: “É preciso investir muito nas amizades. Tens de criar confiança, ser atencioso e simpático e trazer para a relação muito mais coisas necessárias para uma amizade.” No caminho para casa refleti sobre se, na verdade, poderia chamar de “amigos” às pessoas que conheci na festa, ou se teria de investir mais.

Berlim é “adequado a bicicletas”

Normalmente detesto metrópoles barulhentas e superlotadas. Logo no primeiro dia, um dos meus colegas avisou-me que teria de ter cuidado ao andar de bicicleta, uma vez que as ruas estão sempre muito cheias. No entanto, uma semana mais tarde, constatei que “superlotado” em Berlim significa 80 % menos “superlotado” do que em Yangon. Hermannplatz, Alexanderplatz e Checkpoint Charlie são os lugares mais cheios que vi em Berlim; apesar disso, continuam a ser perfeitamente adequados a bicicletas.

Uma das razões pelas quais gosto tanto de Berlim é a sua cultura da bicicleta. Tal como em outras cidades europeias, as ciclovias, inexistentes no meu país, são das melhores invenções. Além disso, passar de bicicleta por edifícios com centenas de anos, inúmeras igrejas e catedrais é uma experiência única. Após uma semana na cidade, constatei que os berlinenses são uma mistura entre uma forma de pensar conservadora e um estilo de vida neomoderno.

Um presente incrível

Há um determinado dia em Berlim que jamais irei esquecer: o dia em que fui controlado no elétrico por um revisor dos transportes públicos de Berlim (BVG). Não sabia que os bilhetes de transporte perdem a validade passado duas horas e usei o meu bilhete depois desse período de tempo. Acabei por ser apanhado pelos inspetores do BVG, juntamente com um americano com ar de rapper e uma rapariga portuguesa.

“Sou americano. Chamem a polícia!”, gritou o rapper ao revisor do BVG, enquanto os outros estavam ocupados comigo e com a rapariga portuguesa. O rapper perguntou mais uma vez quanto tempo é que tudo aquilo iria demorar, e o revisor respondeu-lhe: “Talvez duas horas.” O americano declarou não ser possível, pois não poderia esperar tanto tempo, e limitou-se a abandonar o local.

A rapariga portuguesa e eu fomos controlados em silêncio. Por fim, fui com ela até ao balcão do BVG, de forma a pagar a multa.

No caminho para casa recebi um presente incrível – o primeiro em Berlim. Perguntei a um transeunte se me poderia ajudar a comprar um bilhete de transporte, pois a máquina não estava a aceitar a minha moeda de 2 euros. Fui simplesmente ignorado. No entanto, apareceu depois uma rapariga que me ajudou a comprar o bilhete. No final, ela sorriu para mim de forma muito gentil, e desejou-me boa viagem.
Mratt Kyaw Thu
Outubro de 2018
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