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Sínteses inesperadas

© Jonathan Date© Maya Fernandes KempeA artista Maya Fernandes Kempe mudou-se com a sua família para uma aldeia isolada em Portugal. Ali, onde, por falta de perspetivas, quase já não vivem jovens portugueses, ela inaugurou, com outros criativos, um centro cultural.
Quando a cabeça de animal feita de barro tem a forma perfeita, quando o pelo, as narinas e as orelhas estão esculpidos com exatidão, Maya Fernandes Kempe pega na sua ferramenta cortante. Com um pedaço de arame desfaz o seu trabalho. Primeiro corta o focinho, depois as orelhas. Por vezes até a cabeça vai desta para melhor. Nessas alturas, o seu ateliê mais parece um matadouro. «É brutal», diz. Mas não há outra forma.

Maya Fernandes Kempe, 43, berlinense de nascimento, vive, na verdade, numa aldeia em Portugal. Mas hoje ela está sentada no seu ateliê no chique bairro berlinense de Charlottenburg e mostra, num tablet, imagens do processo de criação das suas esculturas de barro.

Fernandes Kempe não parece uma dissidente típica. Conseguimos perfeitamente imaginá-la numa galeria berlinense. Talvez isso se deva ao facto de a artista, e antiga educadora, nunca ter voltado completamente as costas à cidade. Normalmente passa os meses de verão em Berlim, com a sua família. Ali e em Lisboa ela ministra regulamente cursos e workshops.

Rumo a Lisboa com 22 anos

© Birke Carolin ReschDe Berlim para o Portugal rural, de educadora a artista: Maya Fernandes Kempe seguiu por caminhos inusitados. Com 22 anos viaja pela primeira vez para Portugal. Faz então um ano de estágio na Escola Alemã de Lisboa, durante a sua formação para educadora, e em breve fala fluentemente português. No final da sua segunda estadia em Lisboa conhece o seu futuro marido. Após um ano e meio de relação à distância, Fernandes Kempe muda-se para a capital portuguesa, trabalha como pedagoga artística e, com uma artista amiga, inaugura o Espaço Azul, um centro de pedagogia artística para crianças.

O primeiro ateliê em Berlim

Mas, quando o projeto atinge o sucesso, Fernandes Kempe faz as malas e regressa a Berlim com o seu marido e a sua filha entretanto nascida. Faz uma formação complementar para pedagoga artística, começa a produzir as suas próprias esculturas de barro e inaugura o seu primeiro ateliê. Só sete anos mais tarde, já Fernandes Kempe tinha então trazido ao mundo uma segunda criança, um rapaz, é que a família regressa de novo a Portugal, para o Alentejo. Ali, onde tanto faltam médicos como empregos, escolas e estradas intactas, o casal instala-se e inaugura um centro cultural com outros artistas.

Teresa Rutkowski, uma colega e amiga que fundou em Lisboa a escola de arte Nextart , não está surpreendida pela decisão. «A Maya é uma fundadora», diz. «Ela tem a coragem de deixar tudo para trás e começar tudo do princípio, não importa quão bem um projeto esteja a correr.»

Ponto de encontro para criativos no campo

© Maya Fernandes KempeTambém desta vez Fernandes Kempe teve a intuição certa. Em São Luís, uma aldeia com cerca de 2000 habitantes – cerca de metade dos que existiam nos anos sessenta –, floresce uma cena artística internacional. Aqui, o coletivo artístico em torno de Fernandes Kempe fundou em 2018 o Ateneu do Catorze , o centro cultural. Instalaram no edifício os seus ateliês, organizam regularmente projeções de filmes, serões de poesia e workshops. À cerimónia de inauguração, há um ano, compareceram mais de 800 pessoas, tanto portugueses há muito ali residentes como estrangeiros recentemente chegados.

Raposa com piercing no bar das traseiras

Em Berlim, a cerca de 3000 quilómetros de distância de São Luís, em Portugal, o sol aproxima-se do horizonte. Fernandes Kempe coloca o seu café expresso em cima da mesa e corre para a mesa de madeira junto à janela. Ainda não teve tempo de explicar as suas esculturas de barro.

© Maya Fernandes KempeExistem duas razões para a destruição dos animais, diz a artista. A primeira razão é pragmática. O busto tem de ser escavacado, de outra forma quebrar-se-ia ao cozer no forno. A segunda é artística. A destruição e subsequente recomposição é a oportunidade de conferir à figura uma postura mais precisa. «Esse é o momento decisivo», diz a mulher de olhos azuis marcantes. Só então se deixa ver a personalidade do animal. «Este é o Poeta Anarquista», apresenta-nos. «Um artista de poetry slam que atua num bar ilegal no terceiro pátio das traseiras, algo muito típico em Berlim.» Aponta para uma delicada cabeça de raposa com um piercing na sobrancelha. Ao lado estão os bustos de uma ursa elegantemente vestida, que gosta de ir às compras no luxuoso centro comercial KaDeWe, em Berlim, e de um carneiro com auscultadores, que trabalha como DJ no artístico bairro de Neukölln. De onde vem a ideia? A artista ri-se. «Conduzo pela cidade e vejo gente extravagante.»

Maya Fernandes Kempe não se limita a fundar, ela também cria sínteses inesperadas. Pessoa e animal, campo e cidade, natureza e cultura, todos estes opostos são unidos pela artista sem esforço aparente, na sua arte e na sua vida.
Birke Carolin Resch
estudou Etnologia, com enfoque em Migração, em Hamburgo, Copenhaga e Amesterdão. Nasceu em Berlim, mas só nos últimos quatro anos aprendeu a conhecer e a amar a capital alemã. Agora encontra-se instalada em Lisboa, onde trabalha como professora independente de alemão, onde desenha em todos os minutos livres e onde conta histórias sobre Lisboa e Berlim no seu blogue (ZwischenLissabonundBerlin).

Copyright: Tudo Alemão
Outubro de 2019

Língua original: Alemão.

     

     
     

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