Quotidiano

Relato de uma “Immi” – uma berlinense em Colónia

© Franziska Mollitor© Franziska MollitorAinda me recordo exatamente do sentimento que me percorreu quando, há quatro anos, saí do registo civil de Colónia-Lindenthal segurando nas mãos o meu bilhete de identidade com um autocolante por cima: agora sou uma berlinense colada por cima. Uma não muito pequena parte rebelde de mim disse imediatamente: “Mas também quem é que quer ser coloniano? Pessoas esquisitas, as daqui, com o seu carnaval e a sua amabilidade forçada!” Como estava enganada…

Desde o início

Sou berlinense de nascimento e, após 21 anos passados ali e um ano no estrangeiro, em França, mudei-me para Colónia para estudar. Não sabia o que me esperava; tirando as algo irritantes transmissões do carnaval, a que podemos assistir todos os anos até em Berlim, não conhecia nada da cidade nem das suas pessoas.

A minha mudança teve lugar a 11/11 – a posteriori compreendo que não é a data mais favorável para semelhantes empreendimentos. É que naquele dia Colónia inteira encontra-se em estado de emergência; povoada por príncipes sapos, gatinhos e outras aves raras, todos completamente alcoolizados (para informação de todos os não-foliões: a 11/11 começa a quinta estação do ano, isto é, a época do carnaval inicia-se com estrondo). A minha família e eu enfrentámos a confusão de forma algo perplexa e com a habitual reserva berlinense, mas o dia decorreu sem grandes incidentes e no dia seguinte toda a assombração parecia ter já desaparecido.

© Franziska MollitorNo decorrer dos dias seguintes tive então, como já foi mencionado, de me deslocar ao registo civil para me registar obedientemente como “residente em Colónia” – tenha-se em atenção a minha escolha de palavras, que eram na altura programáticas para mim: em caso algum renunciar ao meu estatuto de berlinense e porventura ainda ser também confundida com uma coloniana! Confesso também que quando me apresentava, nas mais variadas situações, acentuei sempre conscienciosamente que era originária de Berlim (parece arrogante, eu sei, mas quem gosta de esquecer as suas raízes quando se muda para o “estrangeiro”?!). Mas a funcionária do registo civil não mostrou qualquer interesse pelo meu amor à terra natal, colou lapidarmente um autocolante com o meu novo endereço por cima da parte da morada do meu bilhete de identidade e no fim do procedimento nem sequer disse “Bem-vinda a Colónia” ou algo semelhante, mesmo que, de certa forma, eu contasse com isso. É provável que todo o processo perca o seu brilho quando se tem de o realizar várias vezes por dia…

Berlinense colada por cima?!

Ali estava eu, berlinense colada por cima, que ainda não queria ser assim tão coloniana. Só alguns dias mais tarde descobri que também Colónia não recebe de braços tão abertos quanto isso todos os que são despejados aqui nas margens do Reno: um “coloniano primitivo”, isto é, alguém que nasceu aqui, que sorveu o amor à terra natal juntamente com o leite materno e que não tinha qualquer intenção de alguma vez deixar a, cito, “mais bela cidade do mundo”, explicou-me que só ao fim de sete anos é que um forasteiro se pode designar como coloniano. Antes disso é um “Immi”, por assim dizer, um coloniano à experiência. Esta perspetiva estava mais de acordo com os meus sentimentos de não-pertença e assim pude iniciar os meus estudos na conhecida metrópole renana.

Entretanto já se passaram mais de quatro anos e eu já não me apresento como berlinense imigrada. Apaixonei-me pelo carnaval esquisito, bem como pelos sinceros colonianos, que expressam a sua opinião sobre tudo e a todos, quer se encontrem entre amigos ou na rua, onde conversam com o desconhecido do lado sobre autocarros que se atrasam.

© Franziska MollitorE é esta última característica que descubro cada vez mais em mim: na minha última visita a Berlim quis comprar um bilhete ao motorista do autocarro e a companhia de transportes local tinha aumentado novamente o preço das viagens. Comecei a contar ao motorista que os bilhetes se tinham entretanto tornado bastante caros e que o nível de preços se aproximava lenta mas seguramente dos de Munique – tudo, bem entendido, sem me enervar verdadeiramente, foi sobretudo uma constatação que eu queria partilhar à maneira de Colónia com alguém. Ele limitou-se a olhar para mim com ar enfadado e, numa das minhas pausas para respirar, disse: “Ma você qué’um bilhet’ó não? Na tenh’o dia todo!” Essa resposta acabou por me desencorajar e acanhadamente lá comprei o bilhete. Inicialmente considerei a reação do motorista incrivelmente antipática, mas depois lembrei-me de que ele, enquanto berlinense, não tinha provavelmente tido más intenções – eu é que, enquanto neocoloniana, tinha entendido mal o “Berliner Schnauze” [à letra, “focinho berlinense”, um dos nomes por que é conhecido o dialeto local]!
Franziska Mollitor
berlinense de nascimento, já experimentou o nomadismo em França e em Portugal e fá-lo atualmente em Colónia. Estuda História, Filologia Românica e Português e não é grande apreciadora de dicionários – tudo o que é importante é ensinado pela vida!

Copyright: Tudo Alemão
Novembre de 2013

Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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