Quotidiano

«Um ovo não faz a Páscoa!» Ou faz?

© Alexandra Faust© Alexandra FaustQuando eu era pequena, os meus pais escondiam os presentes da Páscoa para mim e para as minhas duas irmãs no jardim. À volta da casa, nas árvores, por trás da caixa de areia… – muitos esconderijos eram fáceis de encontrar, outros levavam-nos, a nós, crianças, ao desespero. Não eram presentes grandes, como no Natal, recebíamos sobretudo chocolate. E ovos da Páscoa!

É uma situação muito conhecida em toda a Alemanha: o ninho ou o cesto, talvez decorado com ervas da Páscoa, acompanhado por um coelho de chocolate e por outros pequenos animaizinhos de chocolate, bem como por ovos coloridamente enfeitados. Como é óbvio, todas estas coisas foram habilmente escondidas pelo coelhinho da Páscoa.
Mas porque é que isto é tradição na Alemanha? O que tem o ninho da Páscoa que ver com o Jesus Cristo crucificado e novamente ressuscitado? É que na verdade é isto que se celebra na Páscoa!

A explicação é a seguinte:
Os costumes populares da Páscoa têm, na sua maior parte, uma tradição mais antiga do que a própria celebração pascal cristã. Assim, esses costumes foram sendo introduzidos aos poucos nos conteúdos cristãos. Na Idade Média chegou a ter lugar uma disputa entre as igrejas alemãs sobre quais os costumes eram realmente cristãos e quais não o eram. E foram precisamente estas desavenças que levaram a que finalmente os costumes se desenvolvessem e se tornassem no que são hoje.

O ovo

O ovo em si é um símbolo da fertilidade e da origem da vida: do início do ser e do vir a ser. Foi a partir desta ideia que se manteve até hoje a decoração de ramos com ovos soprados. Dessa forma representa-se simbolicamente o seguinte: na primavera a natureza renova-se.

© Alexandra FaustNas comunidades católicas este símbolo foi reinterpretado como metáfora para o Cristo ressuscitado. Além disso, com o fim da Quaresma na Páscoa, o consumo de ovos deixa de ser proibido. Segundo as críticas da igreja evangélica, a Quaresma – e consequentemente também os ovos – eram a expressão de um falso legalismo (isto é, a observância destes regulamentos desviar-se-ia do conteúdo espiritual da Páscoa) e mais tarde foram preservados apenas na tradição familiar e para divertimento das crianças. Assim, independentemente da confissão ou até sem motivação cristã, os ovos são hoje escondidos nos ninhos, na Páscoa, sem que a origem ritual da tradição seja explicada. E quem esconde os ovos? Exatamente, o coelhinho da Páscoa!

O coelhinho

O coelhinho também representa fertilidade e uma nova vida. A ideia de que o coelho dormia com os olhos abertos tornou-o o símbolo de Jesus Cristo «falecido». Também a Trindade era frequentemente representada por três coelhos cujas orelhas se tocavam. Foi assim que se começou a pintar os ovos com coelhos na Páscoa.

E porque é que é precisamente o coelhinho que esconde os ovos? Ora, é um dos primeiros animais que descobrimos na primavera. No entanto, ele é tão ágil que nunca o podemos observar no seu jogo das escondidas. No fim de contas tratava-se de uma fábula, que contava que o coelhinho se preparava durante todo o ano para a Páscoa, altura em que se esgueirava agilmente pelos jardins para ali deixar os ovos. Apesar de a história ser considerada uma superstição em muitos locais, muitas famílias gostavam de observar as crianças enquanto estas procuravam os ovos. E, assim, esconder e encontrar os ovos constitui, ainda hoje, um divertimento para toda a família.

O jogo das escondidas

© Alexandra FaustO que acontece na Alemanha na Páscoa? Certo, a primavera chega, os primeiros raios quentes de sol preparam o seu caminho em direção ao nosso país. A Páscoa vem na altura ideal para podermos voltar a passar algum tempo ao ar livre. Após o longo e frio inverno que temos normalmente na Alemanha, é simplesmente fantástico não ter de continuar a vestir várias camadas de roupa ou a passar a maior parte do tempo em casa. Isto apesar de eu, pessoalmente, até gostar de neve. Mas chega uma altura em que se torna lamacenta e incómoda. Na Páscoa podemos cheirar, ver e ouvir a primavera: os pássaros chilreiam, as flores desabrocham. Por falar nisso, as primeiras a desabrochar são os narcisos amarelos [«Osterglocken» em alemão – traduzido à letra, «campainhas da Páscoa»]: por anunciarem a Páscoa, são um motivo muito apreciado nesta quadra.

A tradição de esconder os ovos, no entanto, também é emocionante para as famílias que não têm jardim. Seja no parque ou simplesmente dentro das suas próprias quatro paredes: esconder algo é obrigatório nesta quadra. A propósito, quem, na Alemanha, comprar os ovos bonitos e já coloridos no supermercado não se deve admirar se em casa não puder fazer bolos com eles; é que os ovos já estão cozidos.

Ainda hoje os meus pais pintam ovos para nós todos os anos, apesar de já sermos adultas há muito tempo. E eu ainda faço questão de ter de procurar pelo menos um presente. É esse divertimento que faz da Páscoa o que ela é.
Alexandra Faust
cresceu numa pequena aldeia da Baixa Saxónia. Concluiu o ensino secundário em Celle e iniciou em seguida o curso superior de Teologia Evangélica e Católica em Hannover. Nesse âmbito realizou um estágio de seis meses na empresa culture.communication, onde foi responsável pela área das relações públicas e marketing.

Copyright: Tudo Alemão
Abril de 2014

Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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