Quotidiano

A todos um bom...!

(c) Alexandra Faust© Anna K. A todos um bom... capital, ou, melhor dizendo, um bom gasto de capital. É esse o lema do período pré-natalício na Alemanha. Não era suficiente que no final de setembro os supermercados já vendessem bolachas, biscoitos, troncos de Natal e tudo o mais que o coração cobiça. Não. Nenhum alemão se livra de ficar com grandes borbulhas de stress se em novembro ainda não tiver comprado todos os presentes de Natal. Qual é o motivo para isso?

Simplesmente, o Natal já não é o que era. Onde estão as botas de Pai Natal que, a 6 de dezembro, pendurávamos cheios de excitação à porta do nosso quarto, para que a mãe e o pai as pudessem encher com nozes, tangerinas e pequenas guloseimas? Foram substituídas. Por pranchas de skate, conjuntos de maquilhagem ou até smartphones. Aparentemente surgiu na cabeça das pessoas a obrigação de terem de comprar muitas coisas e, além disso, especialmente originais. Mas serão os smartphones, realmente, presentes extraordinários? Toda a gente tem um. A única coisa em que se distinguem são nas suas capas, em cores brilhantes, padrões de leopardo, motivos espaciais, para apenas nomear algumas das coberturas extravagantes usadas pelos meus concidadãos.

Nem todos, por exemplo, têm um calendário do Advento feito por eles próprios. Não têm tempo para isso. Preferem passar um fim de semana inteiro a correr as ruas comerciais das grandes cidades, para encontrarem nas inúmeras lojas de roupa e de brinquedos o presente adequado e individual, que no fim do dia passou centenas de vezes pelas caixas de pagamento. Ao início da noite deixam esmorecer a loucura das compras com um glühwein [vinho quente com especiarias] e uma bratwurst [tipo de salsicha] no tradicional mercado de Natal. De passagem aproveitam para comprar ainda três quilos de amêndoas caramelizadas e cinco quilos de batatinhas de maçapão.

© Anna K.

Quando passeio ao longo da Zeil, a maior rua comercial de Frankfurt, apercebo-me de que o Natal parece ser a festa do ano especialmente para as grandes empresas. No último ano, os meios de comunicação relataram um aumento do clima de consumo. A Handelsverband Deutschland [associação de comércio alemã] estimou para o comércio de Natal de 2013 um volume de negócios total de 80,6 mil milhões de euros. Um consumidor alemão gasta, em média, cerca de 273 euros em presentes de Natal. E quase 30 milhões de árvores de Natal são compradas todos os anos. Bem podemos estar curiosos para saber se estes números ainda podem ser aumentados no período natalício de 2014. Arrepiante. Ou apenas a loucura perfeitamente normal de uma sociedade de consumo ocidental.

Todavia, parece não existir apenas a tendência sobredimensionada para as compras, mas também a tendência para os produtos caseiros extremamente caros. Trata-se de uma espécie ainda não investigada de nome «bazar adventício de design». O que é isso? Em relação à designação «bazar» podemos, presumivelmente, partir do princípio de que não se trata de um mero mercado, mas sim, segundo o Duden [dicionário da língua alemã], de, em primeiro lugar, um bairro comercial nas cidades orientais ou, em segundo lugar, um local de venda de bens para fins beneficentes. Tudo bem. Ou seja, com a designação «bazar» procuram distanciar-se do velho conhecido mercado de Natal e apresentar-se como algo de especial.

Visito este bazar adventício no bairro de Frankfurt-Bornheim cerca de quatro semanas antes da véspera de Natal. O mercado de Natal habitual já não é suficiente, em vez de glühwein e bratwurst têm de existir bebidas de cacau e leite de soja ou então um ponche de flor de sabugueiro e schneebälle [«bolas de neve», um bolo típico alemão] veganas. Ok. Também constato que estes produtos, na verdade bastante artísticos e extraordinários, são extremamente caros. Que pena. Fazer estas iguarias caseiras é muito chique, mas será que é mesmo preciso ter muito dinheiro no bolso para desencantar presentes de Natal deste tipo?

© Anna K.

Decido encarregar-me dos meus próprios presentes de Natal. A cave da minha avó está a abarrotar de chávenas e latas poeirentas. Ainda devem servir para alguma coisa. Descubro o que preciso na loja de bricolagem. Um quilo de cera para trabalhos manuais e diversas mechas fazem o meu coração bater mais depressa. Aqueço a cera como a vendedora da loja me ensinou, enfio a mecha nela na altura certa e já está. Encontro igualmente uma utilidade para as caixas de fósforos que desde há muito tempo se amontoam em enormes quantidades na cozinha do nosso apartamento. Colo as caixinhas com papel, o qual pinto, decoro com pequenas estrelas e guarneço com desejos de bom Natal. Agora também podemos acender as velas feitas à mão. É muito divertido e a expectativa pela reação dos outros é grande. No Natal desembrulham os seus presentes e ficam muito espantados pelo que aconteceu às velhas chávenas e latas que queriam deitar no lixo.
Agora todos concordarão comigo. Comprem menos, ofereçam mais amor!

Feliz Natal.

© Anna K.
Anna K.,
passeante citadina em Frankfurt, onde vive e sonha.

Copyright: Tudo Alemão
Dezembro de 2014

Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

    Migração e integração

    A migração altera culturas

    rumbo @lemania

    © rumbo @lemania
    … el portal para jóvenes nómadas

    FuturePerfect

    © Future Perfect
    Hitsórias para amanhã - hoje, em todo o mundo

    Goethe-Institut Portugal

    Bem-vindo
    à nossa
    Homepage!