Quotidiano

De pessoas e comboios – as minhas experiências com a Deutsche Bahn

© Franziska Mollitor© Foto WölkchenAtravessamos a paisagem a uns alucinantes 230 quilómetros por hora. O verde passa a voar pela janela, substituído aqui e ali por algumas casas isoladas. O painel eletrónico diz-me que, neste momento, estamos algures entre Bielefeld e Hannover. Infelizmente não posso ser mais precisa, é impossível distinguir as placas com os nomes das localidades. De vez em quando também passamos a grande velocidade por cidades maiores, umas com pacatas moradias, outras com desconsoladores prédios pré-fabricados mesmo junto aos carris. Tudo parece estar representado no meu caminho com o ICE entre Colónia, no oeste, e Berlim, no leste.

Comunidade variegada de passageiros

Há quase cinco anos que faço este percurso. Por vezes com maior frequência, por vezes mais esporadicamente – dependendo do que os horários da universidade e de trabalho possibilitam, bem como o orçamento de estudante. Às vezes, como hoje, viajo através de um verde estival cerrado e de um sol brilhante, outras através de um deserto nevado e branco e de um céu lodoso e cinzento. A Alemanha apresenta-se sempre diferente. Também os meus companheiros de jornada são sempre distintos. Quando, numa viagem de quatro horas, temos tempo para observar o nosso meio envolvente, descobrimos as coisas mais notáveis sobre os nossos semelhantes. Peguemos, por exemplo, no cavalheiro elegantemente vestido que se senta à minha frente. Há duas horas que ele medita defronte do seu computador portátil. Entre os encostos dos assentos não consigo perceber o que ele está a fazer, mas cativa toda a sua atenção. Quando o revisor chega para verificar os bilhetes, é como se ele tivesse de ser sacudido para sair do sono.

© Foto Wölkchen A rapariga que viaja junto a mim mas do outro lado do corredor dorme desde Wuppertal (é a primeira paragem depois de Colónia). Ela aparenta ter tido uma noite difícil, pelo menos a sua maquilhagem parece ligeiramente borratada. À frente dela está sentado um casalinho britânico em idade de reforma que viaja com duas malas enormes. Como é típico, ninguém ajudou o idoso senhor quando ele tentou desterrar os dois monstros nos porta-volumes por cima dos assentos – o mundo também nunca muda. A senhora começou por ler, durante muito tempo, no seu e-reader e joga agora xadrez no seu smartphone, enquanto o cavalheiro faz um puzzle no seu tablet. Com o meu poeirento computador portátil em cima dos joelhos sinto-me, em comparação, verdadeiramente antiquada. Atrás de mim ouço murmúrios mal-humorados quando nos altifalantes se pede compreensão pelo típico atraso do comboio. De algures lá bem atrás no comboio ouve-se de forma constante desde há três horas uma criança pequena a queixar-se e de vinte em vinte minutos passa por mim uma mãe com o seu filho excitado, numa aparente passeata para o acalmar.

Falhas, azares e avarias

Tudo somado, no entanto, a viagem decorreu de forma tranquila até agora. Ao longo dos anos já passei por viagens muito diferentes. De travagens bruscas a 200 km/h até paragens de várias horas no meio do nada devido a avaria técnica, bem como de comboios anulados sem substituição, o que levou a viagens de quatro horas passadas em pé, até a uma colisão com um camião que estava a ser mal estacionado (tudo sem danos pessoais, felizmente!), já houve de tudo. Mais recentemente, também a odisseia de regresso a casa, a Colónia, foi bastante emocionante: devido a um temporal, toda a rede ferroviária parou e, depois de esperar uma eternidade a meio da noite, tive de apanhar um táxi na estação mais próxima, cujos custos, felizmente, foram assumidos pela Deutsche Bahn. Ao pé de tudo isso, um homem de fato que grita ao telemóvel é um mal menor, basta-nos pôr os auscultadores nos ouvidos e afundarmo-nos no nosso próprio mundo.

© Franziska Mollitor

Peste e cólera

Se lermos este texto assim poderemos pensar que eu talvez não tenha o mínimo de sorte com as minhas viagens de comboio. Não é uma ideia muito construtiva, tendo em conta que fazemos agora uma curva ligeira a mais de 200 à hora e no carril vizinho passa por nós um comboio à mesma velocidade. Mas, apesar de tudo, o comboio continua a ser uma das possibilidades de viagem mais confortáveis, penso eu. Os alemães têm com os «seus» caminhos de ferro uma relação de amor-ódio e eu não sou exceção. Preços demasiado elevados, atrasos constantes, funcionários sempre antipáticos, há sempre alguma coisa que não funciona – é este o tom geral quando, na Alemanha, perguntamos às pessoas o que pensam dos caminhos de ferro. E, no entanto, todos os dias milhares viajam de comboio de A para B. Com ele não dá, mas sem ele também não.

© Franziska MollitorE assim, mais tarde, quando chegar a Berlim, com um atraso de, até agora, apenas 15 minutos, vou comprar o meu bilhete de regresso e ao mesmo tempo marcar também uma viagem para Hamburgo – embora decidir-me pelo comboio seja, por vezes, como escolher entre a peste e a cólera.
Franziska Mollitor,
berlinense de nascimento, já experimentou o nomadismo em França e em Portugal e fá-lo atualmente em Colónia. Estuda História, Filologia Românica e Português e não é grande apreciadora de dicionários – tudo o que é importante é ensinado pela vida!

Copyright: Tudo Alemão
Fevereiro de 2015

Este texto é uma tradução do alemão.

     

     
     

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