Quotidiano

«Geração dupla moral»

© shoehorn99, https://www.flickr.com/photos/kateanth/2489491216/, Foto geschnitten© shoehorn99, https://www.flickr.com/photos/kateanth/2489491216/, Foto geschnittenConsciente ou inconscientemente, todos os dias atentamos contra as nossas convicções, o que conduz a um estado persistente de consciência pesada. Ainda bem!

Começo por descansar-vos: eu acredito na bondade das pessoas. É por isso que, quando a designo por «geração dupla moral», não imputo à minha geração propósitos malignos, nem sequer hipocrisia. Pelo contrário! Muitos jovens têm valores morais elevados que, frequentemente, não são compatíveis com o mundo em que vivemos. Mas se não lhe quisermos voltar as costas e levar uma existência eremita e afastada do mundo, isso leva forçosamente a uma espécie de dupla moral pragmática em nome da sobrevivência. Dessa forma, um dia inocente pode transformar-se num verdadeiro dilema ético. Um exemplo (que, graças à globalização, tanto poderia ser válido na Alemanha como no resto do mundo):

Acordo de manhã na minha cama do Ikea e leio algumas páginas do meu livro encomendado na Amazon. Depois de uma chávena de café não comercializado de forma justa com um pouco de leite «Ja» (Alto lá! Aqui podemos respirar fundo: felizmente é o da Alnatura!), visto uma t-shirt da H&M da marca «trabalho infantil» e pedalo até à universidade (ecologicamente correto), mas no caminho tenho forçosamente de pensar na minha pegada ecológica, a qual, depois de uma longa viagem ao Sudeste Asiático e de uma escapadinha a Londres, no ano passado, só pode ser igual à de um gigante. Na padaria compro uma deliciosa sanduíche de presunto serrano e, com a primeira dentada, engulo também a suspeita desagradável de que este animal dificilmente terá sido um porco doméstico espanhol criado de forma apropriada. À noite vejo, num canal de televisão pago, um jogo da Liga dos Campeões, palco privilegiado do capitalismo corrupto e comercial.

Quer dizer que sou uma pessoa má?!? Porque vivo como a grande maioria?! É óbvio que sei que moralmente não faço boa figura, mas como poderia mudá-lo? Primeira hipótese: ganho o Euromilhões, doo a minha cama do Ikea a uma loja da Cruz Vermelha e incumbo o marceneiro da aldeia de me construir uma nova em madeira derrubada de forma sustentável. Segunda hipótese: rejeito a sociedade e qualquer forma de participação nela. Com isso enjeitaria qualquer tipo de responsabilidade, o que para uma pessoa consciente da sua responsabilidade seria um completo paradoxo. Ou então – e essa parece ser a amarga realidade – tenho a consciência pesada. Porque eu sei que cada ação que concretize neste nosso mundo complexo e globalizado traz consigo uma série de consequências que não posso avaliar nem influenciar. Exploração, maus tratos aos animais, destruição do meio ambiente. E também não existem inimigos claros: quanto mais me ocupo com política menos sei quem é amigo e quem é inimigo. No fundo, a questão é a seguinte:
num mundo moralmente às avessas, terei alguma hipótese de agir corretamente?

A resposta é sim. O bom da dupla moral é que, na verdade, eu tenho uma moral! E o facto de sofrermos com esta dupla moral mostra que temos valores. Só quem não tem nenhuma consciência é que não tem má consciência. O ideal é que, sob a pressão dos remorsos constantes, os nossos valores conduzam a atos. Porque, na realidade, podemos mudar alguma coisa, mesmo que pequena. E porque é impossível que não nos possamos permitir a ter «moral». A consciência limpa é a melhor almofada, é verdade. Mas quem fica muito tempo deitado enferruja.
Jenny Baumann
vive em Berlim e trabalha na Haus der Geschichte der Bundesrepublik Deutschland [Casa da História da República Federal da Alemanha]. Se em Madrid existissem mais museus históricos, ela já se teria instalado ali há muito tempo.

Copyright: Rumbo @lemania
Maio de 2015

Língua original: Alemão

     

     
     

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