Quotidiano

O despertar da primavera

© Theresia Schlechshorn© Christian ReilingDe vez em quando vale a pena olhar para o mundo animal, como forma de encontrar estímulos para o nosso dia a dia. Muitos animais dominam coisas com as quais não podemos fazer mais do que sonhar. Por exemplo, no que toca a estratégias para superar o inverno. Ou seja, no que toca às melhores formas de sobreviver aos meses frios. Antigamente olhávamos com nostalgia para as aves migratórias quando partiam para paisagens mais quentes, e perguntávamo-nos como seria podermo-nos também erguer no ar. Entretanto esta questão está esclarecida e não são poucos os atormentados pela ânsia de viajar que imitam a passarada.
Uma alternativa igualmente aliciante e associada a um esforço menor é a que nos oferece o arganaz cinzento. Este roedor mostra-nos o poderíamos fazer: ele passa o verão em pomares ou em bosques, sobe alegremente às árvores, regala-se com frutos maduros, cogumelos requintados e frutos secos deliciosos e é muito ativo à noite; em resumo: ele trata-se bem. No outono, mais ou menos na mesma altura em que os biergärten [esplanadas de cervejarias] fecham, ele aconchega-se no seu confortável e seco abrigo de inverno. De barriga cheia e animado pelas muitas noites agitadas de verão, ele aninha-se, satisfeito, e dorme. Durante aproximadamente sete meses – por vezes até mais. Lá para maio, ou seja, pontualmente no mês que na Alemanha é carinhosamente chamado de «wonnemonat» [«mês do deleite»], ele desperta de novo. Esguio, revigorado e bem a tempo de limpar a mesa do banquete da natureza, acabadinha de pôr.

Há que admitir: este parente hedonista do esquilo, que as ciências da natureza batizaram de «glis glis», também perde muita coisa, pois o inverno é um período maravilhoso. Mercados de Natal, feriados natalícios: são semanas marcadas por iguarias sazonais como o glühwein [vinho quente com especiarias] ou o baumkuchen [bolo montado em camadas e assado num espeto]. Ambos deliciosos, ambos doces e ambos cheios de açúcar. Segue-se a noite de ano novo, onde se volta a festejar à grande, em muitos casos também no plano culinário. É indiferente se optamos pela charcutaria fina e desempacotamos o grelhador raclette ou se escolhemos a variante clássica com salada de batata e salsichas: num livro sobre dieta, ambas as opções seriam, provavelmente, mencionadas apenas como representação do maior mal possível.

© Christian Reiling É evidente que em dezembro a disciplina alimentar não desempenha qualquer papel na consciência da maior parte das pessoas. E, de resto, porque deveria fazê-lo? Afinal de contas, o sol brilha quase sempre apenas pela ausência, enquanto nós, na luta contra o vento frio, envolvemo-nos em várias camadas de roupa quente. Não precisamos de mostrar o que está por debaixo dela.

O inimigo de qualquer mandrião

Pontualmente no início do ano, contudo, ela apresenta-se: a consciência pesada. Por vezes chega silenciosamente e num embrulho bonito. Circulam postais onde se podem ler máximas como «As calorias são animaizinhos que costuram a roupa durante a noite para ficar mais apertada». A coisa manifesta-se de forma menos subtil quando, ao passear pela livraria, tropeçamos em cartilhas de desporto ou de alimentação de capas berrantes. De repente surge a necessidade de agir. Não são poucos os que, ao pensar na praia ou na piscina, começam a suar em bica logo em janeiro. «Isto não pode continuar ASSIM», pensam muitos, começando uma luta sem quartel contra um ser que, se o pudéssemos ver, não seria certamente tão engraçado como o arganaz cinzento, com os seus escuros olhos esbugalhados. Um monstro invisível, que não tem nome zoológico, mas que, ainda assim, se encontra bem difundido no espaço linguístico alemão: o temido «innerer schweinehund» [que podemos traduzir por «preguiça interior»]. O que parece ser um animal selvagem é, neste caso, um produto da imaginação letárgico, enfadonho e indolente, mas igualmente obstinado, que pretende impedir a pessoa de se movimentar – o que consegue com bastante frequência.

Ainda assim, inúmeras pessoas iniciam esta luta desigual ano após ano. Começa então uma espécie de coreografia coletiva, na qual parecem tomar parte cada vez mais indivíduos. Nos ginásios é preciso esperar na fila por um lugar na passadeira, nas lojas de artigos desportivos a caixa registadora não para de tilintar e nas redes sociais, subitamente, já só vemos fotos de saladas e de smoothies. De repente, assim parece, o movimento é o novo enfardamento. Compram-se ergómetros, apertam-se os ténis de corrida – pedala-se e corre-se até não se poder mais.

© Christian ReilingTudo isso, contudo, não é mais do que o prólogo de uma peça que não tem rival. Os primeiros raios quentes de sol funcionam como um íman que atrai todos para a rua. As margens dos rios e os parques tornam-se pontos de encontro, vemos pessoas a equilibrarem-se em slacklines entre dois troncos de árvore, discos voam pelo ar e os nostálgicos dedicam-se ao badminton. Uma popularidade em crescimento constante é também a registada pelo arvorismo ou pelo treino físico ao ar livre. Além disso, por toda a parte se juntam desportistas de tempos livres garridamente vestidos para «bootcamps de corpo inteiro» e para cursos de zumba – é um autêntico bulício.

A preguiça no interior, assim parece, dedica-se à estivação. Apenas as muitas bicicletas elétricas para cima e para baixo zunem uma canção baixinha sobre o facto de nem todos a terem conseguido derrotar.

Já agora:

Muito antes de a preocupação por uma figura digna de ir à praia estar presente na vida quotidiana, a primavera estimulava as pessoas a atingirem um alto rendimento espiritual. Foi o que aconteceu com Eduard Mörike, quando, em 1829, constatou: «É ela». E escreveu um poema que ainda hoje é citado ano após ano, para conferir expressão à euforia que a primavera desencadeia:

«A primavera deixa a sua fita azul
Esvoaçar de novo pelos ares;
Doces, bem conhecidos aromas
Vagueiam misteriosamente pela terra.
As violetas já sonham,
Querem chegar em breve.
– Escuta, de longe um suave som de harpa!
Primavera, sim, és tu!
A ti eu já te ouvi!»
Christian Reiling
nunca viu um arganaz cinzento, mas, em compensação, já travou muitas vezes conhecimento com a «preguiça interior».

Copyright: Tudo Alemão
Março de 2019

Língua original: Alemão.

     

     
     

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