Quotidiano

Os constrangimentos de partilhar automóvel



Frank viaja de Mainz para Münster. O meio de transporte é um automóvel partilhado. Cinco pessoas percorrem 300 quilómetros dentro de um VW Polo.

Estou prestes a encontrar-me com quatro pessoas cujas vozes apenas conheço por telefone. Este blind date dá pelo nome de Mitfahrgelegenheit (partilha de automóvel com divisão das despesas). Começo por recolher a especialista em nutrição Steffi, de 23 anos, a quem pergunto imediatamente se não quer ser ela a conduzir. Ela quer e salta com entusiasmo para trás do volante. A bagagem da Steffi e a minha ocupam logo mais de metade do porta-bagagens – adivinho o pior. Encontramo-nos com os restantes companheiros de viagem na estação de comboios de Mainz: Maike, de 21 anos, já está à espera em frente à entrada, juntamente com a colega Verena, da mesma idade. Stephan, de 23 anos, residente em Münster, chega logo a seguir transportando uma grande mochila. Os quatro estão muito bem-dispostos. Até que se deparam com o carro em que vamos viajar. Os seus rostos tornam-se interrogativos. Até agora tinha-lhes ocultado que conduzia um carro pequeno.
Fator-surpresa: 5 de 5

A mochila do Stephan ainda arranja um lugarzinho no porta-bagagens. Já Verena e Maike, que estudam para ser professoras, frequentando o primeiro semestre, não têm outro remédio senão levarem as suas malas de mão sobredimensionadas ao colo. Ainda que, visto de fora, o novo Polo infunda algum respeito com a sua frente carrancuda, no fundo continua a não passar de um pequeno carro de ir às compras.
Fator-Tetris: 4 de 5

No “Wetten, dass…?” (popular concurso televisivo alemão) surgiu uma vez a seguinte aposta: dez crianças tinham de caber dentro de um Smart. É exatamente assim que nos sentimos agora. Eu sento-me atrás ao meio, esmagado entre Maike e Verena, que espreitam por cima das suas gigantescas malas de mão. Ambas soltam um irónico “está tudo bem, não há problema”, quando lhes pergunto se estão confortáveis. Também Stephan, sentado no lugar do passageiro, apresenta uma expressão de arrependimento. Mas quem está pior é a condutora Steffi. Apenas se lhe apresentam duas alternativas: ou entala Maike no banco de trás ou fica ela própria entalada entre o banco e o volante, ganhando uma boa dose de nódoas negras.
Fator-aconchego: 5 de 5



Um carro a rebentar pelas costuras não é o ideal para o traseiro, mas é bom para estimular conversas. Depois de um curto período exploratório desatamos a tagarelar sobre os estudos e a trocar informações sobre as ofertas culturais e de lazer existentes em Mainz e em Münster. A seguir passamos aos factos puros e duros: confessamos uns aos outros as histórias das nossas noites bem regadas e das festas nas nossas residências comunitárias. No entanto, as duas senhoras que seguem ao meu lado preferem dedicar-se a uma soneca. Mas o carro é tudo menos uma carruagem-cama. A cada irregularidade no piso a cabeça bate ruidosamente no tejadilho. Maike ainda consegue cair brevemente numa espécie de sono profundo, mas depois de o seu cotovelo escorregar umas vinte vezes do apoio lateral para o braço, decide, por entre resmungos, interromper a sua tentativa de dormir.
Conforto para dormitar: 2 de 5

Artilhado com cerca de 350 quilogramas de material humano e outros 30 quilos de bagagem, o nosso pequeno carro mal consegue deixar para trás as subidas que se lhe deparam na autoestrada – a potência do motor é simplesmente diminuta. Steffi enerva-se de cada vez que tal acontece. Mesmo assim não se deixa desalojar do volante durante toda a viagem. Ao fim de quatro horas enjaulados atingimos finalmente a estação de comboios de Münster. Mas ainda demora algum tempo até todos se conseguirem libertar.
Cavalagem do motor: 3 de 5

Eufóricos pela insólita liberdade para esticar as pernas, todos dizemos a uma só voz: não foi assim tão mau.
Frank Seibert
publicado na “SPIESSER” – uma importante revista alemã para jovens

Fotografias: Frank Dünzel

    Mitfahrzentrale 
    Background information 
    Frank´s experience isn´t unique. Lift-sharing services are very popular in Germany. Here is a compilation of the most important facts for you.

    SPIESSER 
    Germany's young 
    people magazine 

    The article "Lift-Sharing and Its Dilemmas" appeared in the february/march 2010 issue